Enquanto as crianças não se tornam adultas …

Publicado em 30 de setembro de 2007

Reúna os filhos. Quanto menores, melhor. Netos.
Caso não tenha filho nem netos, os sobrinhos os substituem do mesmo jeito. Crianças, preferencialmente, ingênuas.
Ensaie uma estória de trancoso inventada com criatividade. É sempre bom vivê-las intensamente. Os adultos da lógica comum costumam ignorar esses pequenos momentos do lar.
Se não sabe inventar estórias infantis, busque o CD dos “Saltimbancos”, gostosos contos de fada dos irmãos Grimm, com a trilha sonora adaptada por Chico Buarque -, imprescindível em qualquer lar com crianças.
Que tal ouvir a faixa “História de uma Gata?“

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

Os filhos crescem rápido, tão depressa que nos deixam assim como se fossemos órfãos deles. Avançam progressivamente sem olhar pelo retrovisor, como pássaros doidivanas, estridentemente alegres, num processo de obediência orgânica.
De repente, olhando pra trás, sentimos vontade imensa de retroceder no tempo e fazer tudo de novo com mais intensidade. Não conseguimos, apesar da ininterrupta dedicação, esgotar neles todo nosso afeto.
Porque quando os filhos se tornam adultos nos sentimos exilados diante do divórcio deles definitivo. Solidão carregada de saudades daquelas crianças danadinhas.
E se viessem netos? Essa geração dita por alguém como a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Acho por isso, alguns vovôs dedicam tanto carinho. Eles devem ser a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Este domingo pode ser diferente. Se você quiser.
Aproveite suas crianças, antes que elas cresçam estouvadas como as nossas fizeram. Aproveite-as na cama ou rede, agarrando-as em cheiro & cócegas, porque depois de crescidas, por elas seremos esquecidos, ficando apenas lembranças do colo, o cuidado com a febre alta nas madrugadas de sofrimento, o cheiro de talco, o hálito gostoso saindo da boca em riso contagiante.
Desculpem a recaída. Negócio é que amanheci com saudade de ser pai com criança no colo.

Angústias de castanheiros

Publicado em 30 de setembro de 2007

A tarde de sábado, 29, passo ao lado de meus pais, João e Lourdes. Papai se mostra revoltado com o que ouvira do amigo e ex-trabalhador dele nas matas da castanha, “Paraíba”, narrando o cenário atual da região do Rio Vermelho, afluente à direita do Itacaíunas onde os dois viveram praticamente suas vidas extraindo a amêndoa e plantando árvores frutíferas nas colocações trabalhadas. Meu pai é um desses amantes do hábito de cavucar o chão para plantar árvores.

“Se plantar, sempre tem.”

A frase, João fala com freqüência, até hoje,ensinando a lógica de quem vive nas florestas.

Semi-analfabeto, meu pai escreve malmente o nome, cheio de garranchos. Eu adorava ler, entre gaitadas sonoras -, os bilhetes que ele escrevia para minha mãe ou endereçados a algum trabalhador dele enfurnado nas matas. Permeados de confusa troca de Ç por dois S, tinham de tudo, menos acentos, pontuação, e assim por diante.

Ao chegar a Marabá lá pelos idos anos 60 vindo do Maranhão, “Paraíba” me conheceu quando eu tinha 7 anos de idade. Até hoje não lhe perguntei por que um maranhense carrega o apelido de “Paraíba”. Abobado e nem pagador de mico ele nunca foi. Pelo contrário, é um daqueles castanheiros de pouca vivência na cidade, mas profundamente interessado em saber de tudo. Não se movimenta sem um rádio a acompanhá-lo. Sabe nomes dos presidentes de quase todos os países, o que se discutiu no Congresso Nacional, as últimas novidades da ciência no combate ao câncer, o processo de degelo na Antártida, etc.
Recordo com todas as cores uma frase do “Paraíba” dita por volta de 1987, ao constatar no dia a dia que a caça começava a exaurir-se:

– “Seu” João -, conversando à noite com meu pai, deitado numa rede próximo a minha -, faz tempo que não dou de cara com um bando de Caititu. A causa disso são essas invasões de terra, os bichos estão fugindo com medo das derrubadas. Não dou mais dez anos para a gente não encontrar nem jabuti aqui no “Sapecado” (ex-terra de meu pai, invadida dois anos depois).

Como eu dizia no início, papai contou que conversara com “Paraíba” na sexta-feira (o amigo dele ainda mora na região do Rio Vermelho numa gleba de 20 alqueires dada a ele pelo velho João).

Ele disse que não encontra mais no Sapecado nenhum tipo de madeira de lei. Derrubaram tudo: sucupira, jatobá,cedro, jacarandá, nem um metro pra guardar de lembrança . Cupu no leite da castanha, nunca mais comeu. Jabuti não existe mais -, contou papai, angustiado.

Falei a ele de uma canção composto por um sujeito chamado “Jatobá” narrando a destruição das matas. Ele se mostrou interessado em ouví-la. Imediatamente fui buscar o CD do Xangai ( Saga Amazônica) em casa, reproduzindo pra ele ouvir “Matança”, a obra-prima de ‘Jatobá’.
Assisti meu pai derramar lágrimas dos olhos, silenciosamente, ouvindo, emocionado, a realidade da letra. Pediu para reprisar a canção várias vezes, o que o fiz.

Meu pai tem 78 anos e nunca mais pisou os pés na floresta. Já se vão 20 anos.
Perfeitamente lúcido e sem nenhum problema de visão (ainda não foi preciso usar óculos), ele deseja fazer uma viagem de barco comigo subindo o Itacaiúnas até próximo a sua nascente, percorrer o mesmo trajeto feito por ele centenas de vezes quando, ainda jovem, explorava os castanhais na região do Tapirapé.
Gabola, meu pai garante saber ainda os canais das corredeiras e cachoeiras que permeiam extenso trecho do rio. “Passo até de noite ainda”, vangloria-se. E eu sei que ele saberá cruzar, no leme da embarcação, de noite, os sinuosos canais perigosamente infestados de pedrais.
Vou me organizar para viver essa aventura, levando uma boa equipe para registrar tudo. Pode dar um excelente documentário.

Nalgum Lugar

Publicado em 29 de setembro de 2007

Em tempos de fogo geral, lutando pra suportar essa fumaça medonha a cobrir peles e bocas de quem percorre cidades do Sul do Pará, deixo pra vocês a letra de Nalgum Lugar, de Zeca Baleiro. Um hino ao amor.
Bom sábado a todos.

Nalgum lugar em que eu nunca estive,
alegremente além de qualquer experiência,
teus olhos têm o seu silêncio.
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,
nalgum lugar me abres sempre pétala por pétala
como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente)
a sua primeira rosa.
ou se quiseres me ver fechado,
eu e minha vida nos fecharemos belamente, de repente
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
ao poder de tua intensa fragilidade,
cuja textura compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha e abre;
só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas)
ninguém,
nem mesmo a chuva,
tem mãos tão pequenas

Guilhotinando o mau

Publicado em 29 de setembro de 2007

A executiva estadual do Partido dos Trabalhadores agiu rápido. Não vale mais a filiação municipal do suspeito de assassinato Celso Lopes, ex-prefeito de Tucumã.

Trabalho escravo

Publicado em 29 de setembro de 2007

Duro e fulminante o relatório de 5.000 páginas do Ministério do Trabalho sobre a Pagrisa. O blog extrai duas ‘preciosidades’ registradas no documento:

1- Folhas de pagamento de abril e maio indicam que 45 funcionários receberam R$ 0,00 de salário líquido. Dois dos citados ficaram ambos os meses com o contracheque zerado.

2- Esgoto a céu aberto despejado na represa utilizada pelos empregados para tomar banho e lavar roupas.