Sonhar, nem que sejam sonhos ditos “impossíveis”

Publicado em 15 de abril de 2013

 

 

Artigo de Heide Castro, Secretária Adjunta de Educação de Marabá:

 

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Estado de Carajás e o mito da ilusão

 

(*) Heide Castro

Dias atrás conversava eu com um colega. Sempre mantemos diálogos produtivos sobre diversos assuntos, diálogos esparsos e confortantes daqueles que se pudéssemos nos tirariam todo o tempo do mundo. Companhia agradável. O ultimo, desencadeou essa impressão.

O seu sotaque denuncia a origem belenense, é de fala mansa, cantante, com chiado, o meu é como uma colha de retalhos, construído da miscigenação de culturas que caracteriza uma região de fronteira como Marabá. Não só algumas diferenças culturais nos afastam,  também a diferença de ideias, o que propiciou o enfrentamento salutar.

Vem de uma família importantíssima meu amigo, seus antepassados fizeram história. Um tio participou da comissão que elaborou a nossa constituição de 1988. Sobrenome pesado e de alta patente, dessas que deixam rastros eternos na história, no caso, do Pará e Brasil.

Com esse rastro na participação política de mudança que consolidou o estado democrático de direito no nosso país na década de 80, inspira respeito suas palavras, mas também dilacera o conservadorismo cego que não se cala diante do descontentamento.

Contradições da história, se outrora um parente seu colaborara para o processo democrático, hoje a vontade do povo não foi convertida em realidade por essa democracia.

Sem rodeios: o assunto era a emancipação do Estado de Carajás.

Jamais havíamos entrado nesse mérito, na primeira vez, não haveria de ter empate, levando em consideração as nossas naturalidades. Como a maioria do povo do Parazinho, meu amigo declarou ser contrário à emancipação de novos estados,  no Pará.

Argumentou, mas não convenceu.

O seu maior argumento era a de que a “ilusão do Carajás foi vendida para a população do sul e sudeste do Pará”, e que seria uma “loucura” a emancipação, levando em conta o investimento financeiro que seria desprendido para sustentar o novo estado.

Como todo ato de mudança, e porque não dizer revolucionário, há a provocação de custos.

Uns pagam com a própria vida, outros sofrem retaliações, perseguições, a massa continua a pagar alto pelos desmazelos.

Diante de tanto prejuízo, o capital é o que menos importa, já que se trata de qualidade de vida negada. Liberdade que poderia ser propiciada com o desenvolvimento.

Retruco aqui o seu posicionamento, a começar pelo conceito de ilusão. Entendi que ele o utilizou para desmerecer, de forma pejorativa, o nosso movimento.

Recorro à literatura.

Há tantos significados inspiradores para a palavra ilusão. É repetidamente entoada pelos poetas. A literatura nos ensina o quão é encantador o dom de iludir. Iludir é uma arte. É o ganha pão do artista, iludir. Fingir a dor, exagerar a dor, a lá Pessoa.

Acontece que toda pessoa que tem alma de artista sabe muito bem que as palavras saltam do dicionário, correm, fluem, dançam. E nesse balé que dançamos atualmente sob o comando de alguns maestros, a música já não entoa mais.

Para a população de Marabá não é difícil sentir a dor, vivemo-la diariamente.

De tão imersa nesse sofrimento a população viveu por muito tempo sem refleti-la. Hoje percebemos que o pão há muito tempo deixou de sustentar e o circo não diverte mais.

    A dor está nas mazelas mal administradas, na ausência de investimentos em serviços básicos em todas as esferas.

Assim como não é difícil uma música romântica tocar o coração de uma alma apaixonada, também não é difícil fazer uma população carente enxergar suas necessidades. E viver, seguindo o conselho de Lispector, ultrapassa qualquer entendimento.  

Hoje mais do que nunca quero viver para ver na minha geração a venda de ilusão de Carajás alcançar mais mercadores e se concretizar.

E eu continuarei a ser vendedora de ilusões. 

 

(*) – Secretária Adjunta de Educação de Marabá, formada em Letras.