Sócrates, que a grama lhe seja leve

Publicado em 5 de dezembro de 2011

Dói saber que o calcanhar de Sócrates não ficava na parte posterior do pé.

O seu calcanhar doente era diferente do Calcanhar de Aquiles – situava-se no fígado.

O Sócrates dono desse calcanhar doente passava pelo tempo e ninguém percebia que ele estava passando. Não recebia aplausos. Não se ouvia gritos de gol nem de olé.

Sócrates pensava que fora do campo continuaria usando o Calcanhar para presentear os colegas com belos passes, recebendo em troca os aplausos dos amigos e torcedores.

Sócrates foi um craque em toda plenitude, dentro de campo.

Fora dele, transformou-se num perna-de-pau para o jogo mais perfeito que deveria ter feito a si mesmo: preservar a vida.

À exceção do homem politizado evangelizando o gosto pela cidadania, fora de campo, fez muitas faltas desnecessárias, encurtando o tempo que os brasileiros gostariam de tê-lo ao lado, ajudando a construir o país democrático que ele tanto sonhou.

O álcool foi o Calcanhar de Aquiles do Dr. Sócrates.

Pior, diante da dependência etílica, ele não sabia onde guardava o seu calcanhar.

Em campo usando o próprio calcanhar, Sócrates disfarçava o Calcanhar de Aquiles que trazia escondido numa cabeça cheia de democracia, agora, totalmente inútil.

No fundo, ele já não tinha nem sonhava com a liberdade.

O seu caso era a independência do álcool ou a morte.

Para nossa tristeza, ele não conseguia a sua própria e salutar independência.

Os pés pequenos obrigavam-no a buscar o recurso do calcanhar – disse um dia.

Os pés continuavam pequenos, mas, para infortúnio do país, nosso Doutor mostrou que era menor do que eles.

Não mais conseguia neles se equilibrar.

Usando-os tão bem dentro de campo, para abatimento de seus fãs, entre eles me incluo, esqueceu de usar a cabeça quando dele se despediu.

Sócrates, assim como todo mundo, craques e pernas-de-pau na vida, tinha o seu Calcanhar de Aquiles.

O dele não precisava de chuteira para escondê-lo daqueles que preferiam o seu visível calcanhar.

Não precisava da bola para ser visto e admirado.

Os nossos ídolos , se não morrem de overdose, acabam na UTI dos hospitais. Uma droga!

Sócrates, infelizmente, também entrou para esse  clube.

Que a grama do campo onde agora desfila seu futebol elegante e não erra mais um só passe de calcanhar lhe seja leve.