Salame proporá mudanças na condução do processo de luta pela criação do Estado de Carajás

Publicado em 6 de abril de 2013

 

 

Nos próximo dias, o prefeito de Marabá, João Salame,  defenderá mudanças de estratégias e  reposicionamentos  em relação à luta pela criação do Estado de Carajás.  Na avaliação dele, o novo Estado jamais será criado se algumas ações de caráter geográfico e de convencimento junto às populações do que seria o Pará remanescente – não forem repensadas.

Salame entrará com toda a força no relançamento da campanha, mas, antes, defenderá, numa entrevista,  as mudanças consideradas “vitais” para o trabalho de campo.

Na minha visão, a primeira mudança a  ser adotada é conscientizar as populações  daquilo  que seria o Estado de Carajás, suspender toda forma de agressão  aos “paraenses” –  em última instância, quem decidirão, numa nova forma de consulta popular, o destino do projeto de emancipação.

Sensibilizar,  com argumentos coerentes, cada  habitante dos municípios das regiões Nordeste e Metropolitana, a tê-lo com aliado de uma mudança que visa beneficiar a todos.

Convidar jornalistas residentes em Belém, a percorrer o Sul do Pará,  e  envolvê-los em encontros municiais, para que nos escutem, e entendam a extensão dos motivos que levaram a região brigar pelo surgimento de novo estado.

Açoitar, puro e simplesmente, quem mora em Belém, é de burrice sem tamanho.

Belenenses e moradores de outros municípios daquela região precisam ser cativados,  dentro de um discurso que mostre nossas mazelas, as mazelas deles e o que poderemos, juntos, numa nova configuração geográfica, ganhar, melhorando vidas gerais.

Os argumentos de cada pessoa contrária à tese emancipacionista precisam ser conhecidos, e combatidos, respeitosamente.

A propósito, ano passado, ao completar um ano da realização do Plebiscito, jornalista Lúcio Flávio Pinto concedeu entrevista ao blog Nota de Rodapé, tratando da divisão. O texto foi reproduzido no Jornal Pessoal.

Um ano depois, os argumentos do jornalista são colocados aqui no blog para uma avaliação crítica.

———————–

 

Esta entrevista, inédita em versão impressa, que concedi por e-mail a Moritti Neto, foi publicada em blog da internet exatamente no dia em que se realizou o plebiscito sobre a criação dos Estados de Carajás e Tapajós, em 11 de dezembro de 2011. Reproduzo-a como estímulo a um debate que precisamos retomar urgentemente, sem preocupação imediata por sua utilidade política ou viabilidade legal, que deram uma imagem meramente plebiscitária à questão. É um dos temas mais candentes do Pará dos nossos dias, que se impõe a todos os paraenses conscientes da história que vivem — ou se limitam a presenciar.

 

 

NR – Como você analisa as reais motivações do plebiscito de domingo, que pode dividir o Pará em três estados?

Lúcio Flávio – Há muitos anos tramitam pelo Congresso Nacional vários projetos de redivisão do Pará. Os alvos foram, primeiro, Tapajós, em seguida, Carajás. Por ter maior articulação política, Carajás passou à frente. Aprovado, por uma manobra parlamentar, atraiu Tapajós. Ambos os projetos, de autoria de políticos que não têm base eleitoral no Pará, um, senador de Roraima; outro, do vizinho Tocantins, foram aprovados por votação simbólica de sete líderes de partidos, sem ir a plenário.

Há razões reais e fortes para a emancipação das duas regiões, mas os projetos são falhos e os interesses decisivos são políticos e empresariais. As duas novas unidades federativas são uma das expressões do atual modelo de ocupação econômica da Amazônia, colonial e explorador. Uma das maiores expressões é a destruição da floresta, processo que se expandiria com a aprovação dos projetos.

NR – Quem são os maiores interessados nessa divisão?

LFP – É interessante observar que são fazendeiros os autores dos dois projetos, Mozarildo Cavalcante (PTB-RR) e Eleomar Quintanilha (PMDB-TO), e os principais líderes do movimento pró-Carajás, como o deputado federal Giovanni Queiroz (PDT-PA). É a categoria mais influente nessa campanha, junto com os madeireiros. Eles formaram propriedades através do desmatamento, que se tornou possível pela abertura de estradas. É o modelo que querem continuar a desenvolver.

NR – Como ficará a formatação de território e população de cada estado se a proposta for aprovada?

LFP – O Tapajós se tornaria o terceiro maior estado da federação, atrás apenas do Amazonas e Mato Grosso. Com uma população de 1,2 milhão de habitantes, enfrentaria os mesmos problemas que levaram os habitantes a querer se desvencilhar do Pará. Teria as últimas grandes reservas florestais do Pará, mas as principais atividades econômicas na região oeste são justamente voltadas ao desmatamento e não à preservação ou ao uso inteligente. Provavelmente, Tapajós seria uma versão pouco menor, mas agravada, do atual Pará.

Quanto a Carajás, as características de enclave do Pará se tornariam ainda mais acentuadas nesse novo estado. Ele nasceria sob forte ingerência federal, já que boa parte das terras está sob o domínio da União, e da antiga Companhia Vale do Rio Doce, responsável por grande parte do PIB interno.

NR – Como e com quem fica o poder político em cada estado?

LFP – As elites políticas são as mesmas. Dividem-se apenas em função da disputa pelo poder e não por projetos para o estado. São muito mal preparadas. Não estão à altura dos desafios de um estado que é o quinto maior exportador do Brasil, o segundo com maior saldo de divisas, o segundo maior minerador, o quinto maior produtor de energia elétrica.

NR – E as relações econômicas, serão concentradas em quais grupos – e de que maneira – no formato proposto?

LFP – As novas atividades econômicas no Tapajós são a mineração, sobretudo de bauxita, a produção de soja e de madeira, que deverão abrir novas frentes. A atividade florestal ainda é incipiente e de futuro duvidoso. Carajás se concentra na mineração, na pecuária e na madeira, com o grande peso da Vale.

NR – Quais as consequências negativas que a população pode sofrer consideradas as especificidades de cada parte envolvida?

LFP – A grande massa da população já sofre bastante. Não só pela desassistência do poder público. Também por suas próprias deficiências e insuficiências estruturais. Só de minério de ferro, hoje o seu principal produto, o Pará exportou no ano passado cinco bilhões de dólares. Nenhum centavo de ICMS, a principal renda do Estado, foi recolhido.

Há apenas as compensações financeiras, que não chegam a representar 2% do que se podia arrecadar. Inversamente, o Pará é o 3º destino migratório do Brasil. Milhares de pessoas chegam todos os anos atrás das promessas de empregos, que inexistem. O resultado é uma enorme demanda social para recursos que não podem atendê-las.

O Pará, nono em população, é o 13º em IDH e o 21º por PIB per capita da federação. Um enorme descompasso entre valores quantitativos e qualitativos. E ainda há uma insuportável taxa de corrupção na administração pública. Com um ou três estados no território, a população paraense continuará na mesma.

NR – Pode ocorrer um abalo na estrutura cultural da população em geral? Por quê?

LFP – Sendo um estado de imigração, o Pará se torna cada vez mais diversificado culturalmente. O grande perigo é perder a cultura típica, uma das mais originais e de raízes mais profundas do país. É a cultura com maior influência indígena remanescente. Mas que é estranha à região que pretende se transformar no estado de Carajás. Nessa área as culturas predominantes são do Centro-Oeste e do Nordeste. Mas não é um problema apenas – nem principalmente – cultural.

A cultura reflete as mudanças econômicas e sociais. Onde havia floresta, uma civilização florestal, surgem as pastagens, as fazendas, o rodoviarismo. Mais sertão, menos Amazônia. Esta é uma realidade, que se aprofundará com a emancipação de Carajás. Não se pode fazer nada para pelo menos impedir o avanço? Acho que é possível. Mas o governo nada está fazendo nesse sentido.

“Infelizmente a cobertura da mídia tem sido deficiente. A maioria dos eleitores votará desinformada.”

NR – O que muda na Amazônia se a proposta for aprovada?

LFP – Vai se tornar mais favorável fazer o que se tem feito de predominante nas áreas dos dois estados propostos: ampliar o desmatamento, converter a cultural local pela importada, consolidar o colonialismo – interno e externo.

NR – Há aspectos positivos a serem ressaltados na proposta?

LFP – Agora não se pode mais colocar para baixo do tapete a questão da territorialidade no Pará, na Amazônia e, em certa medida, no Brasil. Os políticos, em cujas mãos foi colocado o monopólio da condução do debate, têm uma responsabilidade muito grande.

Não podem continuar a se comportar com a mesma leviandade que levou à aprovação do atual plebiscito. E o poder público tem que por fim a esse monopólio conferido aos políticos profissionais. Nos próximos plebiscitos é preciso que a sociedade civil participe do comando da campanha.

NR – A mídia corporativa, em âmbito nacional, trata a questão superficialmente. Na maioria das vezes, até a ignora. Por quê?

LFP – Porque a atenção à Amazônia é episódica, quase sempre restrita ao exótico, bizarro, escandaloso. O entendimento da Amazônia requer cuidado permanente e uma capacidade ampla de absorção de informações. Ao contrário do que o Brasil pensa, a Amazônia é a parte mais internacionalizada do país. Sempre foi. É brasileira tardiamente.

NR – E a mídia local, como tem se posicionado? A cobertura está a contento? Defende interesses de grupos específicos?

LFP – Infelizmente a cobertura da mídia tem sido deficiente. Como os principais veículos defendem posição política e interesses comerciais, não contribuíram como podiam para melhor esclarecer a população. A maioria dos eleitores votará desinformada.