Hiroshi Bogéa On line

"Ramiro" : – "Se passar dos 15 anos, vivi muito"

Passava pouco mais das 19 horas de segunda-feira, 7.

Um lugar feio, bem no canto do canto do bairro, escuro.

Em toda a extensão da rua, apenas dois postes espalham luz deficiente, clareando malmente o entorno dos próprios postes.

Desassistido pelo poder público, lugar ideal para proliferar não apenas doenças e intranqüilidade social, mas jovens revoltados com a própria exclusão.

Percorrendo a pés cinco quarteirões da rua quase intrafegável, algo chamou a atenção do poster: diversos casais de namorados entre abraços e beijos, na escuridão do bairro, sentados em calçadas ou sobre bicicletas.

Uma rua de merda, entre poças de lama e pequenos esgotos, no bairro Independência, próximo ao balneário Vavazão.

O carro ficou na rua principal que separa Liberdade e Independência, por exigência de um conhecido, responsável pela “negociação” do encontro do blog com “Ramiro”, pseudônimo, definido aqui pelo blogger, de um garoto delinquente de 13 anos, considerado um dos terrores do Núcleo Cidade Nova, em Marabá

Enquanto caminhamos na escuridão da via pública, o poster pensava, ao ver casais de jovens namorando, que é preciso estar muito apaixonado para conseguir se sentir bem em meio a tanta imundice.

Alcançamos nosso personagem sentado a uma moto, minutos depois da nervosa caminhada, pisando em lama e desviando-se de buracos. 

Depois das apresentações de praxe, o garoto permanece por bom tempo usando um capacete, retirando-o somente após lhe sugerir ficar à vontade, ao largo de longa explicação sobre o real motivo do pedido da entrevista.

“Ramiro” conversa com a cabeça mirando o chão, não encara o interlocutor. Tem uma cara magra, escura e angulosa, um daqueles arquétipos de gente que se deve evitar.

Ele é um menino desse território onde honra e respeito não são dados pelo dinheiro, mas pelo modo como ele é obtido.

“Que diabo eu tenho a ver com esse negócio de estudo sobre violência?”, pergunta, diante do MP3 ligado para gravação do depoimento.

                – Jovens como você deveriam receber mais atenção, mais cuidado dos governantes. Quem sabe, um dia, uma publicação na imprensa mais detalhada, explicando a forma como vivem você e sua família -, e as razões que o levaram a essa vida, pode ajudar a mudar muita coisa.

O primeiro assalto de “Ramiro” foi com um revolver de brinquedo. Uma daquelas reproduções usadas no fundo de quintal para afugentar ladrões de galinha.

Na garupa de uma moto, ele sacou a imitação de arma, na porta da Escola Elinda Costa, colocando-a na nuca de um rapaz que falava ao celular. Levou telefone e relógio da vítima.

“Numa aventura em Novo Repartimento, ano passado, chumbei um coroa que se meteu a macho. Dei um tiro no ombro dele, errei o tiro, era pra ser no peito”, conta, ao descrever a primeira tentativa de assassinato.

Disparar para matar primeiro e depois pensar para não ser morto. Essa a lógica juvenil do garoto criminoso

“Ramiro” é um menino que age como se fosse um homem maduro, olhar assustado, vontade de ganhar algum troco para fingir ser desejo de riqueza.

13 anos, dois dos quais na delinquência vendendo merla – a droga chique na periferia dessas terras de periferia.

A vida bandida, verdadeiramente, começou aos dez anos roubando bugigangas nos tabuleiros dos camelôs que povoam a praça São Francisco (um dos principais logradouros de lazer de Marabá), durante o dia,  levado por um primo que já morreu com balaço no peito.

Passava correndo, metia a mão no tabuleiro e se soltava ao vento, correndo entre esquinas e becos.

Para se atirar em alguém, basta ter treze anos. Ou onze.

“Ramiro” mal completou treze.

E diz saber de sua morte precoce.

                  – “A qualquer hora uma máquina me apaga. A bala não tem pena quando sai fumaçando do revólver dos “home” ou das gangues. Se passar dos 15 anos, vivi muito “.

Dá para perceber o uso de uma arma sob a camisa polo listrada, colocada na cintura. “Ramiro” não se faz de rogado quando o poster lhe pergunta se usa pistola ou revólver.

                – Ainda não consegui a ponto quarenta (calibre de pistola). Tenho esse “38”, responde, retirando o revólver escondido à cintura.

13 anos, em alguns lugares do mundo , são apenas um número.

Morrer aos 13 anos nessa periferia parece o cumprimento de uma sentença de morte, mais do que ser privado da vida.

“Ramiro” faz parte da Independência, lá  no canto do bairro, divisa com a Liberdade.

E não há erro ou crime que possa apagar a marca de pertencer a certos lugares que marcam com fogo.

———–
NB:  “Ramiro” abre a série de depoimentos que o poster trabalha na tentativa de levantar o perfil de jovens criminosos. Na agenda, mais cinco adolescentes residentes em núcleos distintos do município de Marabá.

Post de 

7 Comentários

  1. Anonymous

    9 de fevereiro de 2011 - 10:49 - 10:49
    Reply

    Nenhuma sociedade tem o dever de ser complacente com quem anda com um revólver na cintura, tenha ele 5anos, 13 anos, 20 anos, 40 anos, 59 anos. Não se trata de posição política, sociológica, mercadológica, filosófica!

    Cerca de 240 tribos praticam o infanticídio, por diversos motivos, cito um deles, o fato de nascidos gêmeos. É uma questão cultural que não torna aquelas culturas pior ou melhor que a nossa.

    A tolerância com uma figura que nem RAMIRO, não se limita apenas a uma questão sócio-econômica como equivocadamente vocifera o jornalista que titulariza este blog.

    O jornalista defende RAMIRO da mesma forma que defende SARNEY, JÁDER, MAURINO,DARCI e CHAMONZINHO, nisso somos obrigado a reconhecer que há coerência, pois se defendes os criadores, claro, tens que defender a criatura.

    Porém, extrapolas a incoerência quando, igual uma barata tonta, "arrota" preconceito e intolerância com a Sen. MARTA, política que mais atua em defesa dessas figuras vulneráveis de nossa injusta sociedade. Ao meu ver, também equivocadamente.

    João Carlos

  2. Anonymous

    9 de fevereiro de 2011 - 00:31 - 0:31
    Reply

    Com 59 anos de idade lembro que quando tinha meus 13 anos passava uma vida de sufoco com a fome sempre rondando em minha casa (barraco de madeira) e nem por isto enveredei pelos caminhos do crime,lembro que na epoca a palavra adolescente nao existia.
    Ser pobre e miseravel nao e justificativa para virar criminoso.
    Torco que todos aqueles que defendem o maldito ECA sejam vitimas do mesmo.

  3. Hiroshi Bogéa

    8 de fevereiro de 2011 - 23:55 - 23:55
    Reply

    É isso, Eleutério. Essas pessoas citadas são parte do problema. Talvez elas gerem tudo isso. Pelo menos a reação psicótica pró-violência é um sinal.

  4. Eleutério

    8 de fevereiro de 2011 - 23:37 - 23:37
    Reply

    Belo texto, Hiroshi, e execlente intenção, mas é uma grande pena que ainda existam pessoas – e não são poucas – que acteditam que é matando o doente que se erradica a doença!
    Abs!

  5. José Coruja da Silva

    8 de fevereiro de 2011 - 22:49 - 22:49
    Reply

    Bem se vê, pelos comentários dos anônimos da 15h37 e das 17h39, a graaaaaaaaaaaaaaande preocupação das pessoas quanto ao futuro da excluída juventude marabaense!

  6. Anonymous

    8 de fevereiro de 2011 - 20:39 - 20:39
    Reply

    Poderia comentar sobre a violência em Marabá, que está apenas em estágio primário. Aliás, o pior ainda estar por vir, diante da falta de políticos comprometidos em melhorar a educação a saúde e etc.

    Mas, a narrativa revela traquejo com o empolgante texto. Prenúncio de obra literária? Espero que sim.

  7. Anonymous

    8 de fevereiro de 2011 - 18:37 - 18:37
    Reply

    RAMIRO, meu caro menino, também acho que vc passar dos 15 (quinze) anos é muito, por isso que a morte te encontre rapidamente. Acaba teu sofrimento e o de muitos! Tudo pelo social, como diria o "maranhensu".

Leave a Reply to Eleutério

Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *