"Ramiro" : – "Se passar dos 15 anos, vivi muito"

Publicado em 8 de fevereiro de 2011

Passava pouco mais das 19 horas de segunda-feira, 7.

Um lugar feio, bem no canto do canto do bairro, escuro.

Em toda a extensão da rua, apenas dois postes espalham luz deficiente, clareando malmente o entorno dos próprios postes.

Desassistido pelo poder público, lugar ideal para proliferar não apenas doenças e intranqüilidade social, mas jovens revoltados com a própria exclusão.

Percorrendo a pés cinco quarteirões da rua quase intrafegável, algo chamou a atenção do poster: diversos casais de namorados entre abraços e beijos, na escuridão do bairro, sentados em calçadas ou sobre bicicletas.

Uma rua de merda, entre poças de lama e pequenos esgotos, no bairro Independência, próximo ao balneário Vavazão.

O carro ficou na rua principal que separa Liberdade e Independência, por exigência de um conhecido, responsável pela “negociação” do encontro do blog com “Ramiro”, pseudônimo, definido aqui pelo blogger, de um garoto delinquente de 13 anos, considerado um dos terrores do Núcleo Cidade Nova, em Marabá

Enquanto caminhamos na escuridão da via pública, o poster pensava, ao ver casais de jovens namorando, que é preciso estar muito apaixonado para conseguir se sentir bem em meio a tanta imundice.

Alcançamos nosso personagem sentado a uma moto, minutos depois da nervosa caminhada, pisando em lama e desviando-se de buracos. 

Depois das apresentações de praxe, o garoto permanece por bom tempo usando um capacete, retirando-o somente após lhe sugerir ficar à vontade, ao largo de longa explicação sobre o real motivo do pedido da entrevista.

“Ramiro” conversa com a cabeça mirando o chão, não encara o interlocutor. Tem uma cara magra, escura e angulosa, um daqueles arquétipos de gente que se deve evitar.

Ele é um menino desse território onde honra e respeito não são dados pelo dinheiro, mas pelo modo como ele é obtido.

“Que diabo eu tenho a ver com esse negócio de estudo sobre violência?”, pergunta, diante do MP3 ligado para gravação do depoimento.

                – Jovens como você deveriam receber mais atenção, mais cuidado dos governantes. Quem sabe, um dia, uma publicação na imprensa mais detalhada, explicando a forma como vivem você e sua família -, e as razões que o levaram a essa vida, pode ajudar a mudar muita coisa.

O primeiro assalto de “Ramiro” foi com um revolver de brinquedo. Uma daquelas reproduções usadas no fundo de quintal para afugentar ladrões de galinha.

Na garupa de uma moto, ele sacou a imitação de arma, na porta da Escola Elinda Costa, colocando-a na nuca de um rapaz que falava ao celular. Levou telefone e relógio da vítima.

“Numa aventura em Novo Repartimento, ano passado, chumbei um coroa que se meteu a macho. Dei um tiro no ombro dele, errei o tiro, era pra ser no peito”, conta, ao descrever a primeira tentativa de assassinato.

Disparar para matar primeiro e depois pensar para não ser morto. Essa a lógica juvenil do garoto criminoso

“Ramiro” é um menino que age como se fosse um homem maduro, olhar assustado, vontade de ganhar algum troco para fingir ser desejo de riqueza.

13 anos, dois dos quais na delinquência vendendo merla – a droga chique na periferia dessas terras de periferia.

A vida bandida, verdadeiramente, começou aos dez anos roubando bugigangas nos tabuleiros dos camelôs que povoam a praça São Francisco (um dos principais logradouros de lazer de Marabá), durante o dia,  levado por um primo que já morreu com balaço no peito.

Passava correndo, metia a mão no tabuleiro e se soltava ao vento, correndo entre esquinas e becos.

Para se atirar em alguém, basta ter treze anos. Ou onze.

“Ramiro” mal completou treze.

E diz saber de sua morte precoce.

                  – “A qualquer hora uma máquina me apaga. A bala não tem pena quando sai fumaçando do revólver dos “home” ou das gangues. Se passar dos 15 anos, vivi muito “.

Dá para perceber o uso de uma arma sob a camisa polo listrada, colocada na cintura. “Ramiro” não se faz de rogado quando o poster lhe pergunta se usa pistola ou revólver.

                – Ainda não consegui a ponto quarenta (calibre de pistola). Tenho esse “38”, responde, retirando o revólver escondido à cintura.

13 anos, em alguns lugares do mundo , são apenas um número.

Morrer aos 13 anos nessa periferia parece o cumprimento de uma sentença de morte, mais do que ser privado da vida.

“Ramiro” faz parte da Independência, lá  no canto do bairro, divisa com a Liberdade.

E não há erro ou crime que possa apagar a marca de pertencer a certos lugares que marcam com fogo.

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NB:  “Ramiro” abre a série de depoimentos que o poster trabalha na tentativa de levantar o perfil de jovens criminosos. Na agenda, mais cinco adolescentes residentes em núcleos distintos do município de Marabá.