Para combater o trânsito louco, ações integradas

Publicado em 1 de fevereiro de 2012

 

Na parte final do artigo abordando violência no trânsito, Lívia Mesquita vai além da leitura que faz sobre causas e efeitos.

Propõe um plano de ação integrada entre os órgãos de segurança do município, para combater o mal.

A seguir, o texto da colaboradora:

 

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A morte pede passagem no trânsito louco das cidades –  Final

 

(*) – Lívia Rodrigues Mesquita

 

Marabá não nos distancia dessa realidade infeliz, representada pelo trânsito caótico e violento que caracteriza a cidade, diariamente.

Com percentual de crescimento de frota de veículos superior ao de Belém, o município já conta com 5.8 % da frota de todo o Estado, graças ao seu crescimento de 20%. Acontece que, esse aumento disparado já vem sido percebido por “todos” há muito tempo, embora alguns ainda insistam na brincadeira da cobra cega. E assim, os 16.042 automóveis e as 22.515 motocicletas, ambos emplacados em Marabá (dados de 2010), tornam-se verdadeiros pesadelos para a Saúde Pública, tendo em vista os números trágicos apurados.

Deve-se observar também, a quantidade exorbitante de veículos emplacados em outros Estados, mas que trafegam aqui, numa cidade de vias públicas precárias, onde por muitas vezes, o pedestre precisa disputar espaço com automóveis e motos, motivado pela ausência de passarelas e deficiência das calçadas, parecendo ficar brincando “Amarelinha”.

Assim, embora estejamos vivendo um acelerado crescimento e desenvolvimento da cidade, somos obrigados a conviver em meio a comportamentos provincianos, onde pouco se veem incentivos e parcerias do setor público com o setor privado, visando ações de instrução comportamental no trânsito -,  e incentivos à prática da Regra Geral de Circulação e Conduta.

Hoje, com o trânsito municipalizado, Marabá conta com o Departamento Municipal de Trânsito e Transporte Urbano, sendo que, é sabido,  todos os recursos obtidos mediante multas decorrentes de infrações devem ser convertidos e repassados para prover ações voltadas para melhoria do trânsito do próprio Município, tais como, campanhas de educação no trânsito, políticas para prevenção de acidentes, provimento de sinalizações, dentre outros.

Porém, pouco se dirige ao progresso do trânsito os recursos procedentes desse aparelho de arrecadação.

Calçadas esburacadas, ruas escuras, carência de ciclovias e passarelas, placas de sinalização escondidas entre árvores, e, como se não bastasse, impunidade daqueles que mancham dolosamente nossas vias de sangue.

No dia 4 de dezembro de 2011, Marcelo Morhry teve sua carreira de músico findada por uma caminhonete desgovernada na Avenida Transmangueira, conhecida ironicamente como “Avenida da Morte”. Uma colisão de tamanha brutalidade e justificada pelo excesso de velocidade tirou “Marcelão” de nossa convivência, obrigando-o a encerrar seus sonhos,  aos 39 anos.

Somente depois de oito dias (12/01), José Alexandre Bernardes de Souza, acusado por conduzir o veículo, apresentou-se á Delegacia Civil, onde nem sequer mandado de prisão o esperava.

 

“A justiça só é cega
Quando não quer ver
Quando a lei se nega
A se fazer valer
Para uns implacável
Para outros maleável
Ou até negociável
Ter leis em questão
É o mesmo que não
Leis sem efeito, que abrem exceção
Abrem precedentes a dúbia aplicação…” (Impunidade – Tribo de Jah).

 

…E assim, a lei da impunidade desdenha a lei da vida.

Alguém que usa imprudentemente uma via pública, transformando seu veículo numa arma,  e de prontidão a mudar a história de qualquer um que cruzar seu caminho, não pode ser recepcionado por autoridades sem o devido comprometimento em fazê-lo responder pelos seus atos.

O acusado, sob efeito de álcool e municiando uma velocidade bem acima da permitida para o trecho, vitimou além de Marcelo, o mototaxista Alcides Pereira da Silva Filho (36), ambos no mesmo acidente. Sem pensar duas vezes, José Alexandre nem sequer prestou socorros, e, evadindo-se do local do atropelamento, deixou suas vítimas agonizando no mato frio e molhado e à espera de ajuda.

Todo condutor tem a obrigação de conhecer e cumprir a legislação. É essa obrigação que determina seu ônus de zelar por um trânsito seguro e pela vida. Porém, José Alexandre optou por sua inobservância, e, cumulando álcool e direção, que é o mesmo que “caminhar numa verdadeira contra mão”, esvaneceu vidas, dissipando os sonhos de três famílias.

Quanto à Avenida Transmangueira, ainda que determinado em lei, é desprovida de acostamento, tornando-se um trecho de potencial risco para todos. Uma via que nasceu para desafogar o trânsito de Marabá vem colecionando mortes provocadas por motoristas que aproveitam da precária iluminação e ausência de fiscalização desse segmento para o cometimento de várias infrações, sendo a mais comum o excesso de velocidade.

Para combater esse calamitoso estado de descontrole de  mortes no trânsito de Marabá, urge às autoridades  sentarem à mesa para discutir a aplicação de um plano integrado entre forças do Detran, DMTU, Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal, além de outros órgãos,  para o combate à violência nas ruas da cidade.

Não vislumbramos outra saída diante da preocupante e grave situação das estatísticas de mortes.

A parceria dos órgãos citados na aplicação do  plano integrado pode ajudar a reduzir a violência no trânsito por meio de atividades educativas, inclusão dos cidadãos na melhoria da segurança viária e maior fiscalização nas áreas críticas.

Previamente, as autoridades envolvidas no plano emergencial definiriam locais e os horários para a realização desse trabalho de maneira integrada com todos os órgãos da Segurança Pública, mapeando os pontos onde o índice de violência está mais elevado, e com isso viabilizar um combate pontual nas localidades.

Inicialmente, numa situação experimental. Depois, aventando a possibilidade das ações se tornarem permanentes.

As forças de segurança, numa estratégia bem elaborada, poderiam atuar na operação sem prejuízo às atribuições individuais de cada força.

Além disso, as polícias Civil e Militar poderiam, aproveitando a união de todos os órgãos, atuar também no combate à criminalidade nos locais da operação. Quem sabe poderíamos estar diante de uma operação pioneira, que poderia gerar resultados grandiosos.

Como forma de conscientização dos motoristas, campanhas educativas deveriam ser colocadas em prática com distribuição de panfletos e instruções em bares, restaurantes, postos de gasolina e nas adjacências dos locais da operação.

Alguma ação lógica e decidida precisa ser feita, urgentemente.

O que não pode continuar é essa onda de mortes descontrolada no trânsito da cidade, sob o beneplácito quase  geral das autoridades.

“Segurança púbica é dever do Estado”. Então, devemos ser vigilantes, esforçarmos como em verdadeiras guaritas, e, mobilizar os vários segmentos da Sociedade, de modo a cobrar providências de caráter imediato quando nos referimos ao trânsito.

Trânsito sadio requer metas audaciosas.

 

(*)- Lívia Rodrigues Mesquita é Bacharel em Direito.