O baião que sai do fundo da terra

Publicado em 15 de novembro de 2012

 

Publicitário Glauco Lima, durante sua  última andança pelo Sul do Pará,  foi contaminado pelo efervescente furor do vai e vem de pessoas nas rodoviárias, terminais de trem, centros comerciais e fuça-fuça de personagens cotidianos.

“Associou-se” a Gilberto Gil pela explicar o “grande baile”, que já tem hora para acabar, porque não é renovável.

O texto de Glauco.

 

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De onde vem a explosão?

 

 

–  Glauco Lima (*) 

 

 

O di­vino Gil­berto Gil tem uma canção onde ele per­gunta “De onde vem o baião, o xote e o xa­xado?” e ele mesmo res­ponde “Vêm de­baixo do barro do chão”. Em outro trecho ele per­gunta de novo: “De onde vem a es­pe­rança, a sus­tança es­pa­lhando o verde dos teus olhos pela plan­tação?” E res­ponde sem pes­ta­nejar: “Vem de­baixo do barro do chão”. É mais ou menos nessa linha que vem a per­gunta e a res­posta quando a gente se de­para com a ebu­lição que acon­tece na re­gião da maior pro­víncia mi­neral do mundo, lo­ca­li­zada no su­deste do Pará, no Norte do Brasil, na Amazônia bra­si­leira.

De onde vem essa ex­plosão? Vem de­baixo do chão. Vem do mi­nério que está em­baixo do chão da pista onde se dança, se tra­balha, se briga, se sonha, se con­flita, se perde e se vence. E como diz o mesmo ge­nial poema de Gil, “sus­pira uma sus­tança sus­ten­tada por um sopro di­vino, que sobe pelos pés da gente e de re­pente se lança…”

Nessa re­gião, nesse pe­daço de chão aben­çoado pelo di­vino ou pelo des­tino, está con­cen­trada uma va­ri­e­dade tri­lhi­o­nária de mi­né­rios. Tem muito ferro, tem cobre, tem ní­quel, tem ouro e talvez es­tejam des­co­brindo outra ri­queza mi­neral neste mo­mento. E a fe­li­ci­dade não é apenas a quan­ti­dade e a va­ri­e­dade de mi­né­rios. O que es­panta é a pu­reza destes mi­né­rios, que fazem com que sua alta qua­li­dade seja in­dis­pen­sável na pro­dução de in­sumos como o aço. Ou­tras re­giões do mundo têm muito mi­neral, mas nada podem fazer para que estas ri­quezas al­cancem o grau de pu­reza do mi­nério en­con­trado em abun­dância de­baixo do solo pa­ra­ense. E no­va­mente lem­brando a canção de Gil,  “É como se Deus ir­ra­di­asse uma forte energia, que sobe pelo chão…”

Em cima deste chão, essa ri­queza mi­neral pro­por­ciona talvez o mais alu­ci­nante baile econô­mico, po­lí­tico, so­cial, cul­tural, re­li­gioso e am­bi­ental da Amé­rica do Sul. Bra­si­leiros de todas as ori­gens chegam todos os dias mo­vidos por so­nhos de todos os for­matos, mas todos com o mesmo fun­da­mento: vencer na vida. Todos querem en­con­trar a pros­pe­ri­dade e a fe­li­ci­dade. Mudar o seu mundo. Chegam muitas pes­soas fí­sicas, fa­mí­lias, ca­sais, gente so­zinha, ani­mada, de­sen­can­tada,  mas também chegam muitas pes­soas ju­rí­dicas, de todos os portes, desde a mi­ne­ra­dora que cresceu e se tornou a se­gunda maior do mundo – grande parte deste cres­ci­mento de­vido ao que tira de­baixo do chão deste pe­daço de Brasil –, ao mi­cro­em­pre­sário que sonha fazer for­tuna ven­dendo pão, roupas ou cri­ando um jornal. Só em Pa­rau­a­pebas, mu­ni­cípio onde está a maior mina de ferro a céu aberto do mundo, são quase dez jor­nais em cir­cu­lação. Uns que­rendo dar in­for­mação, ou­tros que­rendo mesmo é fazer algum tipo de pressão.

Até a ge­o­grafia, o ecos­sis­tema da re­gião, em­bora es­teja na Amazônia, re­gião do­mi­nada por pla­ní­cies, neste pe­daço mi­ne­ra­li­zado do Brasil, é do­mi­nada por serra.

A Serra dos Ca­rajás, for­mando uma pai­sagem única, que une mon­ta­nhas, flo­restas, rios, calor, chuvas e al­guns meses do ano uma tem­pe­ra­tura amena no Nú­cleo Ur­bano de Ca­rajás, um quase frio sur­pre­en­dente numa re­gião aonde as tem­pe­ra­turas chegam a dar a im­pressão de que existe um sol para cada ha­bi­tante. A Serra, a mon­tanha, cri­aram uma imagem que pode ser muito re­ve­la­dora da re­a­li­dade local, a mina e o or­ga­ni­zado nú­cleo ur­bano dos que tra­ba­lham na mi­ne­ra­dora ficam lá em cima e a ma­ra­nhense Pa­rau­a­pebas em pleno Pará, com todas as suas dores e de­lí­cias, fica lá em­baixo.

Esse grande baile, que já vem aju­dando a equi­li­brar a ba­lança co­mer­cial bra­si­leira, tem dia e hora para acabar. Não é re­no­vável. É es­go­tável. Se o ritmo da eco­nomia mun­dial e prin­ci­pal­mente a chi­nesa con­ti­nuar exi­gindo mais e mais ma­téria-prima mi­neral, essa data final pode ser an­te­ci­pada em vá­rios anos. Se o ferro con­ti­nuar sendo im­por­tante como in­sumo na di­nâ­mica in­dus­trial e dos mer­cados, o baile con­tinua ani­mado. Se as danças e as con­tra­danças da eco­nomia me­xerem no seu valor, a re­gião pode al­ternar passos de xa­xado e de marcha fú­nebre.

A ver­dade é que o Brasil tem olhado su­per­fi­ci­al­mente para efeitos desse grande te­souro e seus im­pactos. São im­pli­ca­ções no meio am­bi­ente, mi­gra­tó­rias, na so­ci­e­dade, no di­nheiro, nos im­postos, nas po­lí­ticas, sa­ladas cul­tu­rais, ét­nicas, re­li­gi­osas, um barro denso que, com cer­teza, vai ficar por muitas dé­cadas in­flu­en­ci­ando de forma in­de­fi­nível a vida neste pe­daço do Brasil. A única cer­teza que se tem é que o mi­nério acaba. Mas mesmo de­pois que ele seja apenas uma lem­brança e uma cra­tera gi­gan­tesca, a festa con­tinua, le­van­tando po­eira, ques­ti­o­na­mentos e teses, talvez mais dra­má­tica ou quem sabe a in­ven­ti­vi­dade bra­si­leira ache um ritmo al­ter­na­tivo para essa louca fes­tança e que dê nova sus­tança ao que surgiu vindo de­baixo do barro do chão.

 

 (*)  – Glauco Lima é co­mu­ni­cador. For­mado em Co­mu­ni­cação So­cial, atua em pla­ne­ja­mento, cri­ação e re­dação de pro­pa­ganda, tanto para a ini­ci­a­tiva pri­vada, como ins­ti­tui­ções go­ver­na­men­tais e cam­pa­nhas elei­to­rais, tra­balha cam­pa­nhas po­lí­ticas em vá­rios Es­tados do Brasil.