João Chamon propõe reabilitação da biografia humanizada de Raymundo Rosa

Publicado em 13 de maio de 2015

 

Raimundo 2O deputado estadual João Chamon (PMDB) tomou uma atitude de digno representantes dos marabaenses.

Em plenário, o parlamentar apresentou Decreto Legislativo para a concessão do título honorífico de “Honra ao Mérito Post-Morten” a Raymundo Rosa.

Justa homenagem a uma personalidade que se preocupava com a exclusão social, combateu a ditadura e, por estes motivos, foi perseguido pelas forças do regime militar.

Declaradamente comunista, Raymundo Rosa jamais vergou as costas como forma de desistência.

Combateu o bom  combate até o fim de sua vida, em 1990.

Raimundo Rosa é pai da vereadora Júlia Rosa e do empresário Carlos Rosa.

Eu  o conheci de dentro de sua casa, ao lado de sua querida esposa, “mãezinha” Afif, como carinhosamente a chamava, convivendo com Carlos, Júlia, Zezé, Rui e demais familiares

Raimundo Rosa estava à frente de seu tempo.

Anos-luz adiantando.

Era praticamente a única voz tupiniquim que combatia de forma explícita a truculência dos coronéis da província e dos generais de Planalto.

Nunca esqueço de uma conversa que tive com ele, em Belém, à porta da casa de meus avós, na Generalíssimo Deodoro, quando ele me flagrou lendo O Capital, de Karl Marx.

Rosa foi fazer uma visita ao meu avô Tufy, que se encontrava doente.

Ao sair, ele sentou-se ao meu lado, num  sofá de balanço que ficava na entrada da garagem de casa.

Ficou olhando para a capa do livro aberto, e depois começou indagações.

Nunca esqueço de uma frase dele:

É a primeira vez que vejo um marabaense lendo Marx. Ainda bem que você não é mais aquele “boyzinho” que conheci farreando com o Carlos (filho dele). Leia quantas vezes puder esse livro e leia muito outros que tem preocupações com os mais pobres. Defenda uma ideologia e se posicione sempre ao lado dos mais fracos. A indiferença é confortável, mas paga-se um preço muito alto por ela.

Não tenho dúvidas: hoje,  eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude (como na canção de Belchior), foi Raimundo Rosa, com essas simples palavras.

A frase “a indiferença é confortável, mas paga-se um preço muito alto por ela”, dita por ele nem sei qual ano, ainda segue firme em minha cabeça.

E no coração.

O blog agradece, comovido, a iniciativa de Chamon.

A seguir,  release da assessoria do parlamentar narrando o discurso dele na AL.

 

 

RaimundoOs erros cometidos durante a ditadura militar estão sendo corrigidos em várias esferas do poder público em todo o Brasil. Em marabá, no início do mês de maio, a Câmara Municipal realizou uma cerimônia para devolução de forma simbólica de alguns mandatos, entre eles o do ex-vereador Raymundo Cardoso Rosa, eleito em 1963 e deposto do cargo pelos generais da ditadura militar em 13 de junho de 1964. Nesta terça-feira, 12, o deputado estadual João Chamon, apresentou na Assembleia Legislativa do Estado do Pará, um Decreto Legislativo para a concessão do título honorífico de “Honra ao Mérito Post-Morten” a Raymundo Rosa, como forma de reconhecendo os relevantes serviços prestados em vida ao Estado do Pará.

Raymundo Rosa era jornalista, poeta e escritor. Natural do Maranhão, chegou em Marabá em 1964, casou-se e teve cinco filhos. Rosa foi perseguido por comungar de ideias inovadoras para melhoria do País. “Ele foi humilhado, perseguido, preso, privado da presença de seus familiares e, depois, perdeu o mandato parlamentar que havia sido dado pelo povo” lembrou o deputado João Chamon sobrinho de Raymundo. Como jornalista e escritor, Rosa era muito próximo de Benedicto Monteiro, que na época era deputado estadual paraense. Com o movimento militar de 31 de março de 1964, ambos começaram a ser perseguidos pelo Regime e acabaram presos na mesma semana.

Após à cassação de seu mandato por dez anos, Raymundo Rosa nunca mais voltou à política. Faleceu em 6 de abril de 1990, um dia depois de promulgada a Lei Orgânica do município de Marabá. De acordo com registros jornalísticos da época, como os dados do Jornal O Liberal e da Folha do Norte, de abril 1964, cerca de 300 pessoas foram presas no Pará por comungar das ideais do Partido Comunista Brasileiro, o PC do B.

Outro registro importante, datado de 19 de abril de 1964, o Jornal Folha do Norte publicou um texto com o seguinte título: “Vereadores de Marabá são comunistas fichados no DOPS”. Da lista, constavam Augusto Bastos Morbach, Walter Sampaio, Raul Amorim, Honório Pereira de Moraes, João Sá e Souza, Alcides Gomes, Luiz Gonzaga de Freitas e o próprio Raymundo Rosa.

O Jornal O Liberal na mesmo período, ainda estampou na primeira página a manchete: “Agitador Comunista preso em Marabá: outros sendo procurados”. No texto, outras palavras duras classificaram o vereador Raymundo, “contra o qual e suas atividades, existem certidões comprovadoras que atestam sua criminosa ligação com líderes comunistas”.

Entre as obras de Raymundo Rosa, destaca-se o poema “Poentes de Fogo”, que foi lido por João Chamon, na planária da Alepa. Em seguida Chamon fez questão de destacar “Não resta a menor dúvida acerca dos relevantes serviços prestados em vida por Raymundo Rosa. Sua trajetória pessoal é motivo de orgulho a toda população marabaense, servindo de modelo de honra e luta pelo progresso social de todas as gerações” finalizou o parlamentar. O projeto ainda será apreciado em plenário pelos demais deputados estaduais, antes de ser aprovado.

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Nota do blog:  o grifo no texto é do poster, para vocês atentarem à forma como o jornal O Liberal, no frescor de atacar opositores ao regime militar, se referia a Raymundo Rosa.

Amanhã, voltarei a abordar essa questão.

Fotos de arquivo ilustram dois momentos da vida de Raymundo Rosa.