Hiroshi Bogéa On line

Barulho de chuva, quando chove

Bastava cair chuva de volume um pouco mais intenso para a avó materna do poster sair à procura de alguma lata vazia, no quintal de nossa casa. Era infalível: ela sempre largava suas prendas domésticas para buscar a vasilha.

Com cerca de oito anos de idade, via aquele gesto como algo enigmático, misteriosamente intrigante.

Bastava cair chuva de volume um pouco mais intenso, o poster também largava todo tipo de brincadeira que eventualmente o ocupava para ir até a cozinha constatar se vovó “Tunica” havia descido a escada que ligava a casa ao quintal, em busca do vasilhame -, que ela colocava-o sempre numa posição a aparar a água descendo de uma bica sobre o telhado da casa.

Logo em seguida, o barulho da chuva misturava-se ao som gostoso de água caindo em bacia.

Num dia de chuva qualquer, ao acompanhar um daqueles rituais que ela sempre fazia, molhando vestimentas e cabelos escuros de mestiça descendente de índia, o blogger perguntou-lhe a razão daquilo:

Chuva sem barulho de chuva não é chuva, meu filho -, respondeu, misteriosa.

Na noite se terça-feira, chovia forte em Marabá. Vindo do quintal de casa, o poster ouviu o som de águas caindo numa vasilha. Ouviu e viu, nitidamente, numa rebuscada de memória, a imagem de vovó procurando a sua lata preferida.

Ela tinha razão:

Chuva sem barulho de chuva não é chuva.

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3 Comentários

  1. Ronaldo Barata

    20 de abril de 2008 - 17:05 - 17:05
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    Caro Bogéa
    Delicioso o teu texto sobre chuva e barulho de chuva.Eu que sou citadino, com incursões no telúrico mundo do nosso interior, também tenho enorme e afetivo facínio pelo monocórdio barulho da chva, principalmente quano ela se precipita sobre uma coberta de palha. Melhor fica deitado em uma rede a espera que a sinfonia da natureza te faça adormecer.
    Abraços do Ronaldo Barata

  2. William Bayerl

    17 de abril de 2008 - 23:18 - 23:18
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    Engraçado que não é sua vozinha não caro Hiroshi…

    Boa parte da população de Parauapebas ainda hj fazem o mesmo ritual, afinal é a única forma de ter o precioso líquido em casa.

    Pobre ‘garota’ rica.

  3. Roberto C. Limeira de Castro

    17 de abril de 2008 - 18:12 - 18:12
    Reply

    No significado e na sabedoria do gesto de sua avó Tunica, meu Caro Hiroshi, está a solução para agruras de todas as cidades do mundo, no que diz respeito ao flagelo das enchentes urbanas, ao transbordamento periódico dos rios, à erosão do solo e das ruas, ao fim dos terríveis deslizamentos de áreas de risco, à seca e à escassez de água nos continentes.
    Essas águas pluviais que fazem barulho nos telhados e nos vazilhames, equivalem a 60% de todo o líquido precioso que se precipita sobre as cidades do planeta.
    Infelizmente, os imprevidentes humanos as desperdiçam nas enxurradas que infernizam a vida dos habitantes das cidades e do meio rural na seqüencia entre uma cidade e outra.
    Mais detalhes você pode ler em: http://www.obrasilnovo.blogspot.com/

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