A genialidade de Messi fazendo arte

Publicado em 10 de abril de 2013

 

 

 

MessiJogando apenas com meia perna, já que estava em campo sentindo uma lesão muscular em tratamento, bastou um lance para a gente entender porque Messi é único.

Foi aos  26 minutos do segundo tempo, numa de suas primeiras jogadas, quando o Barcelona perdia para o PSG por 1 X 0.

Messi passou por dois marcadores e achou David Villa na grande área. O atacante rolou para Pedro  concluir e selar o resultado que classificou o clube catalão.

Messi é sempre assim.

Vai para decidir parada, com as duas pernas, ou meia perna – não importa.

Únicos jogos que costumo gravar na Sky, os jogos do Barcelona, com Messi em Campo.

Assisto uma, duas, três vezes a mesma jogada, voltando a imagem do receptor digital, para entender a conceituação de sua arte.

Observá-las atentamente, em slow-motion, apaixonando-se por cada lance que ele cria ou estimula os companheiros em campo a fazê-los.

E tudo aos pés de um garoto que mede pouco mais de 1,60.

Contento-me até em olhar os dois times alinhados antes do apito inicial, o olho enquadra todas as cabeças dos jogadores mais ou menos da mesma altura, ao passo que, para encontrar a de Messi,  se deve descer pelo menos ao nível dos ombros dos companheiros.

Para um esporte  em que a potência  conta cada vez mais e, para um atacante – os quase dois metros de Ibrahimovic e o metro e 85 de Cristiano Ronaldo se tornaram a norma -, Lionel continua a parecer perigosamente uma “pulga” – seu apelido batizado quando chegou ao Barcelona, aos 12 anos.

Olhando outra imagem, antes do jogo Barcelona e Milan, pela Liga Champion, chega-se a definitiva conclusão de que é preciso calcular que as probabilidades de Messi sair derrotado de um impacto corpo a corpo são elevadas, como elevado é o risco de ele ser totalmente atropelado  pelos defensores. Mas somente com uma condição: antes devem conseguir alcançá-lo.

Ninguém consegue manter-se em seu encalço.

O centro de gravidade é baixo, os defensores o atacam, mas ele não cai nem se desloca. Continua a manter a corrida, vai chutando a bola, não para, dribla, pula, desliza, foge, finta. Ninguém consegue pegá-lo.

Ele é um velocista, corre como uma flecha com seus pés pequenos, que parecem mãos pelo modo  como consegue segurar a bola e controlar cada movimento dela. Por causa de seus dribles, os adversários tropeçam no estorvo inútil  de seus pés numero 45.

O grande jogador não é aquele que faz com que se cometam faltas contra ele (igual a Neymar), mas aquele que não se consegue passar nenhuma rasteira. E nisso, Messi é inigualável.

Evidente que Messi tem nos pés um talento único, algo que vai além  do próprio futebol: vê-lo jogar é como ouvir uma música, como se, em um mosaico descolado, toda pecinha voltasse ao seu lugar.

Na partida Barcelona 4 X Milan 0, foi um desses dias de belezura ao extremo.

Segundo tempo, eis que Messi pega uma bola no meio de campo, mais para a direita e, de repente, desloca-se em estabanada velocidade,  buscando o lado esquerdo do time milanês.

Ao ouvir o  cronista da televisão espanhola narrando sua cavalgada é o bastante para definir sua epopeia  de marabarista: Messia deixa pra trás, o meia Muntari , livra-se de Abate, Mexés, Zapata, e  Constant, sempre buscando a esquerda.

Ao vê-lo assediado por tentativas de faltas, o narrador espanhol, descrevendo a cena, inicia uma emocionada e satisfeita exclamação: “Não cai, não cai, não caiiii”.

E Messi se livra de todas as tentativas de falta, com a bola colada aos pés, ora o direito, ora o esquerdo, e não cai.

A narrativa do jogo transforma-se  numa graça zombeteira de suas avançadas, com a estupefação quase mística que seu jogo suscita.

Contra a Venezuela (Eliminatórias do Mundial), o craque aparece mais como servidor dos colegas, “açucarando” passes em maravilhosos lances de extrema construção artística.

Ver Messi significa observar alguma coisa que vai além do futebol e coincide com a beleza em si.

Algo semelhante a um arrebatamento, quase um arrepio de consciência, uma epifania que permite a quem está presente, vendo-o correr a passos miúdos e brincar com a bola, já não perceber  nenhuma separação entre si e o espetáculo a que está assistindo, confundir-se plenamente com o que se vê, a ponto de sentir-se uma coisa só com esse movimento desigual, mas harmônico.

Felizmente, diante de tantos “cabeças-de-bagre”,  e de outros endeusados precocemente pela imprensa especializada, até agora não confirmadas  suas genialidades (vide  Neymar,  Robinho e alguns idênticos brasileiros  “cai-cai”), Messi salva o esporte bretão, cuja fase épica parece ter ficado para trás.

Lionel parece o contrário do que se espera de um jogador.

Numa  recente entrevista que ele concedeu ao Esporte Espetacular, da Globo, deu para perceber sua timidez ao extremo.

Não é seguro de si, não usa as frases costumeiras que lhe aconselham dizer, fica vermelho,  e fixa os pés, ou então começa a roer as unhas do indicador e do polegar, aproximando-a dos lábios quando não sabe o que quer dizer e está pensando.

Mas a história do genial argentino é como a lenda do zangão.

Dizem que o zangão não poderia voar porque o peso do seu corpo é desproporcional à envergadura de suas asas. Mas o zangão não sabe disso e voa!

Messi, com seu pequeno corpo, com aqueles pés diminutos, com aquelas pernas pequenas, o tronco pequeno e todos os seus problemas de crescimento, não poderia jogar no futebol moderno, que é todo feito de músculos, massa e potência.

Só que Messi não sabe disso.

E é por isso que é o maior de todos.