Vale: o poder de quem decide

Publicado em 6 de abril de 2011

 

Para que não haja mais dúvidas: quem escolheu Murilo Ferreira para a presidência da Vale foi mesmo Dilma Roussef. E o esperneio do  senador Mário Couto pouca valerá nessa discussão.

Não cheira, nem fede.

A realidade é essa mesma.

O Brasil tem Presidente da República preocupada com a destinação de suas riquezas. O minério de Carajás é para ser transformado em aço, e não vendido in natura  sem qualquer agregação de  valor, como vem ocorrendo.

Para que não esqueçam, também:  hoje, governo e fundos de pensão estatais, por mais que não se reconheça, têm preponderância no controle da Vale, embora sem poder absoluto nas decisões estratégicas da companhia.

Os fundos de pensão  reunidos – Previ, Petros, Funcef e Funcesp –  e o governo, via BNDESPar, atingiram 60,5% do capital votante e 67,5% do capital total da Valepar. Logo após sua privatização, tinham, juntos, 35%.

Portanto, a Vale é do governo, também. E como tal, o governo tem obrigação de agir quando estão em jogo os interesses maiores do país.

Como sobremesa para esse  papinho acima, o blog reproduz Paulo Henrique Amorim:

 —————–

 Presidenta decepciona o PiG e escolhe presidente da Vale

 

Lamentavelmente, o PiG (*) não conseguiu manter o Agnelli na Vale – clique aqui para ler “O Agnelli vale tudo isso ?”.

Lamentavelmente, a Folha (**) não teve a propriedade – prevista na Lei das SA – de escolher o sucessor do Agnelli.

A Folha, no uso das prerrogativas estatutárias da ANJ, Associação Nacional dos Jornais, escolheu Tito Martins.

O que levou o Bradesco a dizer que aquilo que a Folha dizia não tinha pé nem cabeça.

Característica anatômica que os leitores da Folha perceberam há muito tempo.

Inexplicavelmente, a JK de saias, que lidera o grupo majoritário da Vale – o conjunto de acionistas sob o controle do Governo Federal -, de forma autoritária, monocrática, imperial, a JK de saias resolveu decidir em nome da maioria.

Um absurdo !

Onde já se viu ?

A maioria querer mandar !

Isso nem na pior das ditaduras de inclinação estalinista.

Numa boa democracia, quem manda é a minoria, reunida em torno da imprensa conservadora (e incompetente).

Assim, como Catarina, a Grande, a Presidenta resolveu fazer o que sabe: mandar !

“Vale terá Murilo Ferreira no comando”, diz a Folha, às lágrimas, na pág. B1.

Informa a Folha que Dilma conheceu Ferreira quando era presidente da Albrás e ela, Ministra das Minas.

A sucessão de Agnelli se tornou uma questão de dogma teológico.

E o que a JK de saias faz, agora, em boa hora, é rever os termos da privatização – aquela em que o Padim Pade Cerra e o Farol de Alexandria entregaram a Vale na bacia das almas.

Clique aqui para ver o vídeo em que o Farol admite que vendeu a Vale docemente constrangido pelo Padim.

A Vale é uma conquista do povo brasileiro desde o Dr Getulio.

Vargas criou a Vale em 1942 para, enfim, depois de uma longa batalha política, tomar o minério de ferro do Brasil e Itabira Iron Ore Company.

A criação da Vale estava indissoluvelmente ligada à criação da Companhia Siderúrgica Nacional.

E, portanto, à industrialização do Brasil.

Vargas já sabia que exportar aço é melhor do que exportar minério de ferro.

E, como se sabe, quando o Agnelli ouve falar em siderúrgica tem coceira na palma a mão.

Um dia, as faculdades de economia do Brasil – que só formam quadros para os bancos – poderiam dar um curso sobre “Como o Brasil enfrentou e derrotou o empresário americano Percival Farquhar, aquele que mandava no minério de ferro da Iron Ore e,  portanto, mandava no Brasil.”

Seria um curso, por exemplo, a ser ministrado aos alunos do IBMEC.

Ou no Instituto Millenium.

A Vale é a maior mineradora do mundo.

E não faz sentido um CEO, de ideias próprias – e bônus próprios, com um jato Bombardier à disposição – decidir que esse patrimônio vai ser dilapidado na venda de um produto só, sem valor agregado – o minério de ferro -, e para um cliente só – a China.

Essa, aliás, é a critica à jestão Agnelli da desprestigiada revista inglesa The Economist, e que, aqui, em boa hora, o PiG desconsiderou.

A Presidenta não é de decepcionar o PiG (*).

Ao contrário.

Foi ao aniversário da Folha.

Fez uma omelete com a Ana Maria Braga.

E, agora, por exemplo, diz-se que ela vai a um seminário de empresários paulistanamente ultraconservadores.

Corro o risco de tomar uma vaia.

Mas, é da vida.

Só que, no caso da Vale, o Dr Getulio podia ficar chateado com ela.

E ela, surpreendentemente, fez o que o Nunca Dantes queria fazer desde que o Agnelli mandou comprar cargueiros em Cingapura; e demitiu mais de mil funcionários – ele e a diretora do Departamento de Pessoal, que, inexplicavelmente parecia ser a 2ª no comando – no auge da crise de 2008.

Vargas, Lula, Dilma.

Quem o Agnelli pensava que é ?

Paulo Henrique Amorim

 

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.