Unindo os contrários.

Publicado em 5 de março de 2012

 

Unindo os contrários.

(*) – Evilângela Lima

 

Existem palavras que grudam na gente, que nos fazem pensar e repensar, definir e redefinir conceitos. Andrógino, palavra estranha na pronúncia e no significado, grudou em mim.

E fui tratando de transmiti-la às pessoas que me cercam diariamente, enquanto tentava transpô-la para minhas experiências de mãe, professora, amiga e mulher.

Grudou em todo mundo.

Tentarei conceitua-la do meu jeito, em três cenas, ou atos, para que seja melhor compreendida.

 

1ª Cena:

Durante a ministração de uma aula para turma de Ensino Médio, a professora repassa no quadro branco exercícios sobre o assunto estudado, enquanto  um grupo de três alunos, todos homens, travam o seguinte diálogo:

– Vamos combinar: amanhã a gente vai lá no cursinho de manhã fazer a inscrição para o simulado.

Outro aluno, o mais sisudo do grupo, rebateu:

– Não dá. De manhã tenho que arrumar a casa e fazer o almoço.

Nesse momento a sala toda silenciou, ouviam discretamente a conversa, a professora, mesmo prosseguindo com a escrita, ficou mais atenta.

– Qual é cara, todo mundo na tua casa tá grande. Precisam fazer como faço lá em casa: arrumo um dia sim e outro não, é só manter as coisas organizadas.

O outro colega, que até o momento ficara calado, completou:

– Lá em casa fazemos a faxina no final de semana, já que todo mundo trabalha a semana toda. Minha mãe lava a roupa e eu com minha irmã cuidamos da casa. Durante a semana só mantemos a limpeza.

Em seguida uma serie de sugestões de limpeza foram sendo proferidas pelos dois doutores no assunto ao colega que se enrolava com a limpeza da casa.

A professora virou-se para fitar melhor os meninos donos de casa, percebeu que as meninas estavam olhando-os com admiração. Não se segurou e exclamou:

– Gente, que lindo! Homens com conversa de mulheres. Meninas, casem com esses meninos: eles serão excelentes maridos.

A turma toda sorriu.

 

2º cena;

Platão (429 a.C. – 347 a.C.) no livro “ O Banquete”, afirma que no princípio havia três espécies de homens: Andros ( personifica a masculinidade), Gynos (a parte feminina) e Androgynos ( ser que unia a masculinidade e a feminilidade). Os Androgynos eram poderosos justamente por conseguirem reunir os contrários. Resolveram travar uma guerra contra os deuses do Olimpo, e Zeus os castigou separando-os, colocando-os em corpos diferentes.

Platonicamente cada ser humano é apenas metade, necessitando encontrar seu fragmento para existir por completo.

 

3º cena:

Observando um grupo de adolescentes discutindo, percebi que um chamou o outro de “andrógino”. Fiquei curiosa, seria um novo palavrão? Perguntei a eles o que essa palavra significava, obtive a seguinte resposta:

– Ora andrógino é andrógino. A gente escuta isso em um seriado que passa na televisão.

– Mas vocês não sabem o que é? Como chamam o outro do que não sabem? Será que é ser robô?

Sorriram de mim, percebi que não queriam falar como entendiam o significado da palavra. Continuei instigando, como professora gosto de estar atenta às palavras que os alunos internalizam, pois demonstram possíveis  tendências, que tanto podem ser positivas como negativas.

Enfim, um mais atirado resolveu me falar:

– Andrógino é gay.

Muitas interrogações surgiram na minha cabeça. Sai da conversa direto para o Google, ele resolve quase todos os meus problemas.

Foi assim que cheguei até a uma heroína contemporânea, Lisbeth Salander, personagem da trilogia Millennium ( os livros: O homem que não amava as mulheres, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar), do jornalista sueco Stieg Larsson.

A melhor descrição que encontrei da personagem foi em um artigo de Eliane Brum à Revista Época: “Nossa heroína não acredita em (quase) nada. Nem em (quase) ninguém. Ela não tem ilusões: Lisbeth sabe que está sozinha.(…) Com uma profunda e justificada desconfiança dos homens – a começar pelo próprio pai – e com uma profunda pena das mulheres – a começar pela própria mãe –, Lisbeth Salander cria um homem e uma mulher, um nem homem nem mulher para si. Radical em sua androginia, Lisbeth poderia ser definida como uma bissexual, não fosse esta uma definição superada e que já não dá mais conta da complexidade da sexualidade humana. Lisbeth, também sexualmente, só pode ser definida pela indefinição. Como o mundo que prefere habitar, o da internet, nossa heroína é fluida e sem fronteiras.”

Através desta personagem consegui conceituar, do meu jeito, a palavra que tem ganhado espaço nas conversas dos adolescentes. Andrógino não é ser gay ou lésbica, é conseguir reunir os contrários dentro de si, é reunir os fragmentos homem/mulher de cada um. Um conceito mitológico que encontrou aceitação na vida contemporânea.

Conceito que não se situa apenas na sexualidade do individuo. Corro o risco de afirmar que ser andrógino é ser homem e mulher ao mesmo tempo sem perder sua sexualidade, continuaremos sendo homem ou mulher.

Preocupo-me quando nossos adolescentes e jovens utilizam palavras em sentido pejorativo, deixando de desfrutar da beleza do seu verdadeiro significado.

Atualmente, criamos nossos filhos homens com mais feminilidade. Logo cedo acostumam-se aos afazeres domésticos e não perdem sua masculinidade por isso, ao contrário, tornam-se homens mais completos, mais companheiros de suas mulheres, quer sejam mães, irmãs, namoradas, esposas.

Nossas meninas são mais descoladas, praticam esportes masculinos, algumas, até, seguem profissões antes exclusiva dos homens, sem perderem sua sensualidade feminina.

Somos seres andróginos tentando conciliar os contrários. Nossa complexidade humana não cabe em definições pré-concebidas.

Enquanto educadores, devemos expandir nossos olhos para além dos comportamentos ditados pelo modismo da mídia, construindo com nossos alunos ou filhos conceitos inovadores, que os auxiliarão a se encontrarem enquanto homem/mulher, andróginos.

 

 

(*) Evilângela Lima, Educadora, Diretora da Escola de Ensino Fundamental São José.