Um domingo com Arthur na casa de campo

Publicado em 20 de agosto de 2013

 

No final de semana retrasada, passei o domingo na chácara de meu cunhado, mistura de chácara, roça e fazenda de pequeno porte.

Eu, minha filha e o neto Arthur, ao lado dos anfitriões familiares.

Na casa avarandada da propriedade, distante 35 km de Marabá,  deitado numa rede, a observação definitiva de como mudaram as estações – e os hábitos do homem sertanejo.

As estações, instáveis em suas quatro fases, neste época do ano -,  o verão brabo dá noção de estarmos no verdadeiro sertão nordestino, de tão seco, chão esturricado.

A cultura da roça cada vez mais rara de se ver.

Os filhos dos vaqueiros e capatazes das fazendas buscam os computadores.

Os cavalos rareiam, substituídos por motos.

Em verdade, os cavalos já não causam mais euforia nos jovens, nem o relinchar de um jumento foi possível ouvir na mansidão da terra calma às 2 horas da tarde.

Numa chácara nos arredores da localidade Ponta de Pedras, por onde acessa a propriedade do cunhado, espraiado no centro da sala da casa, um oratório pontifica como nicho de imagem de Nossa Senhora do perpétuo Socorro.

“É aqui que a gente faz nossas orações”, explicou dona Eva, dona do lugar, apontando, feliz da vida, para o ponto de devoção particular.

O oratório ainda existe, pelo menos, diante de tantas transformações de hábitos  gerais.

Embora o lugar seja cercado de pelo menos três igrejas evangélicas, o oratório, ali, resiste.

Não deu para registrar, mas diante de tantas mutações de costumes, provavelmente, ao invés de jargões comuns e palavras viciadas de um português bem regional, já estejam sendo ouvidos pelos rincões da zona rural,  “modernos sertanejos” falando palavras comuns aos chats digitais.

Também, não deu para  ver vaqueiro tangendo boi, no final da tarde, aboiando no meio do pasto.

Quando perguntei se dava ainda para enxergar, perdido no que sobrou de alguma mata, o cedro ou o jacarandá, todos riram.

A madeira que tem aqui, a gente compra na cidade, disseram, entre gargalhadas.

Embora sentisse falta de todos esses valores, vivemos horas agradáveis.

Eu, apegado demais a Arthur, senti a energia de sua incontida satisfação, ao conhecer, e pegar, galinhas e patos.

A “Galinha Pintadinha”  dos vídeos de ninar, deu lugar ao poleiro – e à vida real da ave em suas mãos, estimulado pelo bisavô João (fotos).

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A sensação da vida no campo, sentida na pele, deve ter construído algo novo em sua alma de bebê.

O efeito multiplicador de se relacionar com os animais, afoito e sem nenhum receio.

Quanto ao desaparecimento das “modas sertanejas”, ninguém, vivendo em pleno século XXI, pode exigir legado cultural diante do avanço tecnológico a nos sufocar, a cada dia,  mas pelo menos unzinho de cada qual costume deveria ser mantido, para que a memória de nossa história não seja totalmente enterrada.

Pelo menos, na chácara de minha irmã, a cozinha inventada pelos antepassados está de pé.

Lá é perfeitamente possível saborear cuscus com leite, buchada, cocada de rapadura,  baião-de-dois, carne de bode, manteiga da terra, paçoca de carne de sol, queijo de coalho com goiabada.

Se for mais exigente, consegue, também,  feijão de corda misturado ao arroz, pamonha, canjica, fuçura de bode, doce de banana, pé-de-moleque,  doce de caju, seriguela, mocotó no feijão, broa, milho assado, galinha guisada, doce de jerimum.

Quer mais?