Torturados na Guerrilha do Araguaia reconhecem “Casa Azul”

Publicado em 17 de setembro de 2014

 

Release enviado pela Assessoria de Imprensa da Comissão Nacional da Verdade:

 

 

Dois camponeses presos pelo Exército e um ex-soldado que atuou no combate à Guerrilha do Araguaia reconheceram na tarde de hoje um imóvel dentro de uma área do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), no Km 01 da rodovia Transamazônica, em Marabá, coma a Casa Azul, um dos mais violentos centros de prisões, tortura e morte de toda a repressão.

A diligência foi realizada pela Comissão Nacional da Verdade que enviou três membros à Marabá: Pedro Dallari (coordenador), José Carlos Dias e Maria Rita Kehl. Os trabalhos contaram com o apoio e a participação da recém-criada Comissão da Verdade do Pará e da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).

Os camponeses Pedro Matos do Nascimento, de 75 anos, e Raimundo de Souza Cruz, o Barbadinho, de 74 anos, presos pelo Exército nos anos 70 acusados de suposta colaboração com a guerrilha do Araguaia, foram ouvidos pela CNV dentro da Casa Azul. Ambos reconheceram o local imediatamente e apontaram uma sala da casa, hoje abandonada, como a cela em que estiveram presos no ano de 1973.

Cruz, que trabalhava como farmacêutico na comunidade rural de Brejo Grande, onde vivia, relatou que foi preso doente. Ele se recuperava de uma lesão causada por um tiro acidental e estava com infecção. Isso não impediu que ele fosse torturado com choques, socos e pauladas. “Passei nove dias na Casa Azul, nesse quarto”, afirmou, emocionado.

Soldado confirma – O ex-soldado Manuel Messias Guido Ribeiro, 60 anos, atuou no campanha do Exército contra a Guerrilha do Araguaia. Ele alistou-se em 1974 e após um curto treinamento foi enviado para a região de combate no sudeste do Pará. Ficou na corporação até 1980.

Guido afirma que soldados só participavam dos combates e não da tortura. Ele contou ter sido torturado durante o treinamento e que, por se apiedar dos presos, para quem procurava oferecer água, comida e cobertas, foi repreendido e ameaçado de morte. Guido, hoje pastor evangélico, reconheceu o cômodo da casa indicado por Pedro e Raimundo como prisão e local de tortura.

Ele contou que uma das ameaças de morte que sofreu aconteceu quando o viu o corpo do guerrilheiro Peri, e de um companheiro deste, em Xambioá, crivado de balas e ensanguentado, pronto para ser enterrado numa cova rasa. “Não suportei ver aquela imagem e chorei. E um dos doutores (oficial) que comandava o sepultamento me perguntou com rispidez se eu não queria me juntar a eles (aos mortos). ‘Faço o mesmo com você. Te mato e te jogo aí dentro’”, teria dito o superior, segundo Guido.

Ao final do depoimento de Guido, ele e Pedro deram uma volta no imóvel e localizaram uma alteração na casa: uma porta que foi vedada e transformada em parede. Ambos, apesar da mudanças no local não tiveram dúvida em reconhecer a Casa Azul.

AGENDA – Amanhã, a CNV fará uma diligência, às 9h, no Cemitério da Saudade, no bairro de Nova Marabá. Em seguida, ás 10h30, a Comissão Nacional da Verdade colherá depoimentos de vítimas em audiência pública que será realizada na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).