Sobre bodes expiatórios

Publicado em 7 de novembro de 2010

Sempre que um governo é destronado pelo voto popular, a secretaria de Comunicação do mesmo é quem  paga o pato.

Não  está sendo diferente, agora, com a derrota de Ana Júlia para Simão Jatene.

Em algumas oportunidades, o poster tem lido em jornais e na blogosfera afirmativas naquele sentido.

O tema recorrente de buscar bodes expiatórios para responsabilizá-los de uma calamidade  que não lhes cabe qualquer culpa, no fundo é um importante instrumento de propaganda para esconder os verdadeiros responsáveis pela derrota.

Isso já ocorreu no período nazista quando os judeus foram apontados como culpados pelo colapso político e pelos problemas econômicos da Alemanha.

Ao longo da História, os grupos usados como bode expiatórios variavam de acordo com o local e o período. Os negros, os imigrantes, os comunistas, os capitalistas, os “nordestinos no Brasil”, as “bruxas”, as mulheres, os pobres, os judeus, os leprosos, os homossexuais, os deficientes, os ciganos etc.

Agora, aqui no Pará, quando alguns dedos se voltam para responsabilizar a Secom pela derrota de AJ, o uso desse costume é rejeitado, de forma cristalina e convicta, pelo publicitário Chico Cavalcante, um dos mais consagrados marqueiros da região.

Em entrevista a Rita Soares, no Diário do Pará, Chico analisa os equívocos do governo Ana Júlia e rejeita, coberto de razão, erros de comunicação dos três secretários que passaram pela Secom:
               
                  – Fátima Gonçalves, Fávio Castro e Paulo Roberto não têm qualquer responsabilidade por esse resultado. A linha, se é que havia, era definida pelo comando próximo à governadora, especialmente pelo gaúcho Paulo Heineck, ex-assessor de Ana no Senado, que trouxe a Link (agência da Bahia) para cá no começo de 2010,como salvação da lavoura, a partir do entendimento e que nós, os índios, não teríamos capacidade para afzer comunicação “profissional”.

Em outra parte da entrevista, Chico Cavalcante vai ao ponto nevrálgico de erros de comunicação da campanha eleitoral dirigida pela agência baiana:

               – Enquanto insistia em falar da Siderúrgica de Marabá, a campanha da Link deixava descobertas outras regiões, parecendo que privilegiou uma cidade ou região em detrimento de outras. Isso explica a derrota acachapante em Santarém. especialmente para um candidato do PT, um partido com origem no movimento social, o centro do discurso tem que ser o fator humano, que é universal; Ana teria de insistir no sicial. Esse é um reduto. De costas para ele e guiada por estranhos, se perdeu. Já o erro de posicionamento de imagem foi o que fez consolidar a rejeição da governadora, A imagem apresentada ao eleitor aumentava a rejeição. Era a entítese da guerreira, da lutadora, da mulher destemida, da mulher sintonizada com o povo, da mulher que fez uma trajetória a partir dos movimentos sociais.

É uma leitura recomendável, a  entrevista de Chico Cavalcante.

Na edição de domingo do Diário do Pará.