Sem serem ouvidas pelo governo, comunidades do entorno do Pedral do Lourenção realizam protesto

Publicado em 23 de maio de 2021

Na primeira imagem, comunidades reunidas respeitando distanciamento social.
Na outra foto, Índios Atkum celebram protesto com danças de suas tribos.

Em Itupiranga, sudeste do Pará , no final de semana, um ato público foi realizado na comunidade do Tauyri, com muita discussão em torno das obras de derrocamento do Pedral do Lourenção.

Centenas de pessoas expuseram  a indignação dos povos das águas e da floresta contra os representantes responsáveis pela implantação da Hidrovia Araguaia Tocantins .

A manifestação reuniu 19 comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas .

Canal do Lourenção

 

Foi um protesto por ainda não terem sido ouvidos pelo governo, no protocolo que autoriza a derrocarem do Pedral do Lourenço o que segundo eles, viola o tratado internacional 169, do qual o Brasil é signatário .

Os manifestantes dizem ainda que o ato é uma forma de dizer que eles existem e querem ter seus direitos  respeitados.

O blog ouviu lideranças, resumindo a fala de algumas delas, a seguir:

 

Carlos, comunidade Urubu, no Lourenção.

– Já reivindicamos, mais de uma vez, a Consulta Livre, Prévia, Informada e de Consentimento -, nas audiências públicas que participamos em 2019.  Não concordamos com os procedimentos do Dnit e do Ibama  e da DTA Engenharia (empresa que venceu a licitação para realizar a derrocagem), que não têm reconhecido  nossas comunidades ribeirinhas  e de pescadores no entorno do Pedral do Lourenção, e a Ilha do Bogés como públicos tradicionais que somos, só reconhecem os indígenas e quilombolas. Essa maravilha (e aponta para a dimensão do rio Tocantins e suas belezas) estão querendo destruir -, além do pão de cada dia de cada família.

 

Elis, comunidade Urubu

-“Nós somos comunidades  tradicionais, temos nosso modo de vida -, mas nem o Dnit,  o Ibama e muito menos a DTA Engenharia vieram à nossa comunidade  nos conhecer. Não sabem da nossa vida e nem de nossa cultura. Temos nossos direitos garantidos na Convenção 169 das OIT (Organização Internacional do Trabalho) e Decreto Presidencial  6.040 ( este decreto instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais)

 

Iramar, uma das lideranças da comunidade Vila do Tauri.

-“O que nós vamos  fazer depois desse empreendimento de derrocagem do pedral do Lourenção? A nossa pesca é mais ao meio do rio, nossa pesca depende de atravessar o rio de um lado a outro, procurar onde se encontra o peixe… Como nós vamos se locomover com as barcaças descendo e subindo o Tocantins? Nós queremos saber, das nossas autoridades,  se elas irão olhar para nós como  comunidades tradicionais e ribeirinhas, formadas por 19  comunidades no entorno do Lourenção”.

 

Nilton,  da comunidade de Santo Antonino do Tauri.

– “Observamos que as respostas para nossas propostas  para garantir a segurança de nossas famílias que serão impactadas,  são imorais. Reivindicamos  que seja aprovada uma proposta justa, que seja discutida com as nossas lideranças através das associações ribeirinhas no entorno do Pedral do Lourenção até a Ilha do Bogéa, para assegurar a alimentação das nossas comunidades enquanto  as obras de derrocagem e dragagem durarem em nossos teritórios”.

 

Rafael, comunidade Vila Belém.

“ Sobre a aprovação pelo Ibama do EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), denunciamos que não fomos consultados sobre seu teor. Queremos também fazer a seguinte pergunta:  como vão ficar os nossos pontos de pesca, aqui no nosso canal do Lourenção?  Nossas comunidades estão aqui unidas e organizadas em torno da luta pela preservação de nossos direitos, defendendo a nossa cultura ribeirinha e nosso modo de viver. Esse projeto, da forma que este sendo concebido, vem para tentar  acabar com a cultura da nossa população. Queremos deixar bem claro que existimos, queremos mostrar que estamos aqui firmes. Não aceitaremos acabar com nossos pontos de pesca de onde tiramos o sustento de nossas famílias. Não queremos deixar que isso aconteça com a nossa sociedade”.