Sem endereço

Publicado em 14 de janeiro de 2008

Próximo a Jacundá, às margens da Pa-150, toda vez a passar por ali, observamos o acampamento de lonas crescendo.
A vitrine social do MST expõe a miséria esvoaçante expandindo-se sem que haja algo de novo. De bom.
Não há escola para as crianças. Não há roupa. Comida, muito pouca.
Se dependesse de dona Osmarina, mãe de cinco pirralos, sua família estaria em Cururupu, de onde veio do Maranhão em busca de canto pra morar.

– Estou cansada dessa vida. Mas quando peço a meu marido para voltarmos, ele vira bicho. Nem pensar em dar meia volta.

É isso. Estamos vivendo uma situação no país que só havia no mundo primitivo: a maioria dos brasileiros é nômade, sem endereço. O apartheid social consegue nos distanciar cada vez mais.

O acampamento não é apenas dos sem-terra.
É dos sem-pão, sem-saúde, sem-transporte, sem-educação. Sem endereço limpo.

O blogger observa mais abaixo, à margem direita de quem segue rumo a Marabá, magote de crianças brincando numa imensa poça d’água formada pelas chuvas das ultimas 48 horas. Água parada.

Dona Osmarina, ao lado do poster, é uma mulher triste. No peito e no olhar, não revela nenhuma razão de contentamento. Não é mau-humorada, mas é triste.
Já disseram que não são apenas os humores que fazem o mundo bom ou ruim, mas ela considera sua alegria localizada em lugar bem distante daquela pocilga.

– Não, não sei. Só sei assinar meu nome em cruz.

Analfabeta, o rosto da senhora de 45 anos (fisicamente, parece ter 60), plácido, não se altera quando seus olhos denunciam duas lágrimas francas, pensativas.

– Meus filhos só vivem doentes. Faz tempo não sabem o que é pegar num livro…

Acampamento extenso. Barracos de palha e lonas. Pessoas tristes como se apodrecessem ao sol -, quando é tempo de sol. Ou sob chuva, no inverno.

As crianças continuam a brincar na poça d´água. Há dúvidas se é mesmo brincadeira, aquela fanática tentativa de mergulhar num espaço raso, malmente a cobrir-lhes às canelas, num mar de melechete.

Meninos cheios de vermes, carecendo urgentemente da presença de médicos.

Até quando permanecerão em acampamentos?

– Até morrer. Isso escuto todo dia aqui. O João é cabeçudo, quer ser herói, arrumar o mundo, sem pensar na nossa vida.

Declaração de dona Osmarina faz lembrar personagens de Antonio Callado: Nando, Levindo, Francisca, Januário…
Quarup não se organiza em beira de estrada, é verdade. Mas podemos parodiar a famosa frase de Francisca:

– “Por isso é que margem de estrada não consola. Eu tenho medo de começar a fingir que consola”.