Hiroshi Bogéa On line

Sem endereço

Próximo a Jacundá, às margens da Pa-150, toda vez a passar por ali, observamos o acampamento de lonas crescendo.
A vitrine social do MST expõe a miséria esvoaçante expandindo-se sem que haja algo de novo. De bom.
Não há escola para as crianças. Não há roupa. Comida, muito pouca.
Se dependesse de dona Osmarina, mãe de cinco pirralos, sua família estaria em Cururupu, de onde veio do Maranhão em busca de canto pra morar.

– Estou cansada dessa vida. Mas quando peço a meu marido para voltarmos, ele vira bicho. Nem pensar em dar meia volta.

É isso. Estamos vivendo uma situação no país que só havia no mundo primitivo: a maioria dos brasileiros é nômade, sem endereço. O apartheid social consegue nos distanciar cada vez mais.

O acampamento não é apenas dos sem-terra.
É dos sem-pão, sem-saúde, sem-transporte, sem-educação. Sem endereço limpo.

O blogger observa mais abaixo, à margem direita de quem segue rumo a Marabá, magote de crianças brincando numa imensa poça d’água formada pelas chuvas das ultimas 48 horas. Água parada.

Dona Osmarina, ao lado do poster, é uma mulher triste. No peito e no olhar, não revela nenhuma razão de contentamento. Não é mau-humorada, mas é triste.
Já disseram que não são apenas os humores que fazem o mundo bom ou ruim, mas ela considera sua alegria localizada em lugar bem distante daquela pocilga.

– Não, não sei. Só sei assinar meu nome em cruz.

Analfabeta, o rosto da senhora de 45 anos (fisicamente, parece ter 60), plácido, não se altera quando seus olhos denunciam duas lágrimas francas, pensativas.

– Meus filhos só vivem doentes. Faz tempo não sabem o que é pegar num livro…

Acampamento extenso. Barracos de palha e lonas. Pessoas tristes como se apodrecessem ao sol -, quando é tempo de sol. Ou sob chuva, no inverno.

As crianças continuam a brincar na poça d´água. Há dúvidas se é mesmo brincadeira, aquela fanática tentativa de mergulhar num espaço raso, malmente a cobrir-lhes às canelas, num mar de melechete.

Meninos cheios de vermes, carecendo urgentemente da presença de médicos.

Até quando permanecerão em acampamentos?

– Até morrer. Isso escuto todo dia aqui. O João é cabeçudo, quer ser herói, arrumar o mundo, sem pensar na nossa vida.

Declaração de dona Osmarina faz lembrar personagens de Antonio Callado: Nando, Levindo, Francisca, Januário…
Quarup não se organiza em beira de estrada, é verdade. Mas podemos parodiar a famosa frase de Francisca:

– “Por isso é que margem de estrada não consola. Eu tenho medo de começar a fingir que consola”.

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3 Comentários

  1. João Salame

    16 de janeiro de 2008 - 02:53 - 2:53
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    Hiroshy

    É preciso colocar o dedo na ferida. Está certo o Ricardo quando critica os governos tucanos no que se refere à reforma agrária. Nada de significativo foi feito pelo burocrático Iterpa e os anos FHC foram o de criação de favelas rurais.
    Mas é necessário dizer que nada de sigificativo avançou sob o governo Lula no ítem reforma agrária. O próprio MST denuncia que em 2007 as metas de assentamento atingidas foram menores do que nos governos tucanos. Você vai ver acampamentos próximo a Jacundá, Goianésia, Canaã dos Carajás, Eldorado, Xinguara e vários outros municípios. Se fosse nos governos tucanos nossos companheiros do PT, com justiça, estavam a denunciar o governo por voltar as costas para a reforma agrária. E agora?
    Aliás, é preciso ir mais fundo nessa questão da reforma agrária. Existe um estudo muito sério sendo concluído que demonstra: a maior devastação ambiental dos últimos anos ocorreu nos assentamentos. Nas antigas fazendas Bamerindus e Macaxeira, por exemplo, foram-se as castanheiras, aos milhares.
    É isso que precisa ser debatido e encarado a sério. Não me importa sob que governo, sob que ideologia, os sem-tudo das beira de estradas serão os mesmos: filhos de uma pátria que não os conhece.

    João Salame

  2. Anonymous

    15 de janeiro de 2008 - 18:59 - 18:59
    Reply

    Engraçado o Ronaldo Barata vir agora discordar de tudo: do Lula, do Delfim, concordando apenas com a lógica de que “a margem da estrada não consola”.
    Senhor Barata, com o respeito que o tema exige, por que nao fizeste tua parte, durante os governos tucanos, à frente do Iterpa, apresentando algo que desamarrasse o nó da Reforma Agrária no Pará? Ou vais dizer também que essa questão é exclusiva do governo federal? Voces ficaram doze anos, oito sob a égide de FHC, à frente dos dois governos.. O senhor, particularmente, nao conseguiu implantar um projeto sequer de legalização de áreas do Estado para fins de reforma agrária.
    Muito interessante agora, Ronaldo, apareceres aqui de crítico ferino dos tempos atuais, muito interessante.
    Ricardo Lima Santos
    Geólogo- Belém

  3. ronaldo barata

    14 de janeiro de 2008 - 20:22 - 20:22
    Reply

    CARO BOGÉA:
    Realmente a margem da estrada não consola. Ela faz perpetuar a desigualdade. Infelizmente ela é um retrato sombrio e perverso do nsso país. Infelizmente, o atual governo tenta desesperadamente colorir esta paisagem com a distribuição das bolsas miséria, numa política assistencialista que não resolve o problema e não encara com seriedade a implementação de uma reforma agrária. Discordo do professor Delfim, quando defende empolgadamente os programas sociais do governo. Não que eles são desnecessários. Devem, sim, ter uma melhor estrutura. Da forma como são, somente serve para engordar o eleitorado acrítico do Lula.O correto seria a adoção de políticas desenvolvimentistas capazer de gerar empregos e renda, evitando que essa massa de desempregados se localizem à margem da estrada e da vida.

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