Saudade do tempo das lambretas

Publicado em 26 de janeiro de 2010

Na tarde desta terça-feira, 26, o blogger avistou um rapaz passando numa esquina aqui de Marabá montado numa lambreta. Fazia anos não via uma.

Aparentemente bem antiga, nem sei como o condutor da mesma a mantém funcionando dado a necessidade de reposição de peças para sua manutenção.

Ao avistar o veículo, um filme antigo rodou a cabeça.

O poster chegou a curtir a fase das motocicletas lambretas. E das vespas – grande maioria montada na Itália.

Não faz muitos anos, ainda tinha uma foto, preto e branco, claro, conduzindo um amigo na garupa. Não sei como, desapareceu, relíquia que faria um bem danado ao saudosismo dos anos dourados.

Andar de lambreta em Marabá era para poucos.

A namorada, agarradinha, sentava de lado, sem risco de queimar as pernas no escapamento – nem de ferir com os raios da roda traseira.

A roda, bem pequena, oculta sob o veículo, não podia ser tocada por alguém desatencioso.

O escapamento, bem curto, ficava oculto sob o veículo.

A bela namorada, hoje casada, evidente, nas noites de baile quase sempre na sede da ACROB, usava vestidos rodados que esvoaçavam literalmente, estimulado pelo vento da lambreta em alta velocidade, quando ia buscá-la, escondida dos pais, e saíamos aloprados pelas ruas estreitas da Velha Marabá, com raríssimos carros.

Se houvesse na cidade dez veículos quatro rodas, era muito.

Modéstia de lado, a época, essa namorada do blogger foi a mais cobiçada do pedaço, quase sempre causadora de frisson quando chegávamos aos ambientes freqüentados pela nossa tchurma.

Beleza singela, com pouco mais de 15 anos, adorava usar cabelos presos por um laço, sapatos delicados, sentada em pose provocante, que uma motocicleta dos dias atuais não permitiria.

Numa de tantas noites vividas nas ruas da cidade, saindo de baile e de festinhas na casa de amigos, a garota resolveu um dia aprender a dirigir a motocicleta, prontamente atendida pelo namorado em paparicos.

Foi maior aventura, porque a moça soltou a aceleração da moto antes que o poster sentasse na garupa para orientá-la, seguido de corre-corre por ruas e becos, de toda a turma tentando parar a namorada em radicais, e perigosas manobras, soltando risadas de felicidade sem medir o tamanho do perigo que corria.

Era cedo ainda, e na praça Duque de Caxias, única área de lazer existente, crianças, jovens e adultos conviviam pacificamente no ambiente, colocados, subitamente sob o risco de nossa adorável irresponsabilidade.

A imagem, guardadas proporções e cenários, lembra Roman Holiday, onde Gregory Peck e Audrey Hepburn detonam emoções deliciosamente loucas montados numa vespa.

Tem razão Paulo César Pinheiro ao recitar  que “o importante é que a nossa emoção sobreviva”.

Mas, em todo o caso, isso não passa de delírio saudosista.

Entendam.