Sacudindo no avião: Por que é tão difícil prever e domar uma turbulência aérea?

Publicado em 15 de março de 2016

Turbulência

 

Ele levou pancadas fortes quando jogava futebol americano como “quarterback” do Ottawa Rough Riders, na liga canadense de futebol.

Mas quando o voo da American Airlines de Miami para Milo em que ele embarcou em 25 de janeiro foi arrancado de sua trajetória pelo vento e forçado  a voar de lado, Jordan Case pensou que sua hora (e a de 192 passageiros do Boeing 767) havia chegado.

“Voar sempre me deixou nervoso, e você se acostuma com as sacudidas causadas pela turbulência”, ele disse. “Tudo aconteceu de repente, um arranque fortíssimo. O barulho foi forte, e fomos arrastados duas vezes”.

Case, que estava voando na classe executiva com sua mulher, Karen, disse que a experiência foi “horripilante”.

O voo, que enfrentou diversos trechos de turbulência apesar do céu aberto, em altitude de 8.900 metros a 780 quilômetros do aeroporto de St John, na Terra Nova (Canadá), foi desviado para lá, e dois passageiros e três comissários de bordo encaminhados ao hospital local para observação.

O casal seguiu adiante em novo voo para Milão no dia seguinte, e Case, dono de três concessionárias de carros de luxo em Plano, Texas, fez diversas viagens aéreas depois disso.

A turbulência a principal causa de ferimentos em passageiros e tripulantes de jatos comerciais, de acordo com a Administração Federal da Aviação norte-americana.

Em 2015, 21 pessoas –14 tripulantes e sete passageiros– foram feridas pela turbulência, de acordo com a FAA; em 2014, o número de feridos foi de 31, nove tripulantes e 22 passageiros. O pior ano, no passado recente, foi 2010, quando 76 pessoas –25 tripulantes e 51 passageiros– foram feridas por turbulência.

H muitos tipos de turbulência, e a mais problemática de prever e evitar a turbulência em céu limpo (que é muito difícil de detectar usando um sistema de radar convencional). Boa parte dela costuma ser experimentada quando o avião está em altitude de cruzeiro.

Nos últimos meses, pelo menos três voos comerciais, dois da American Airlines e um da Air Canada, experimentaram turbulência severa que resultou em ferimentos para passageiros ou tripulantes. Em dois casos, os voos foram desviados para aeroportos próximos para que os feridos pudessem receber tratamento.

Os profissionais da aviação classificam a turbulência em uma escala que vai de “leve” a “extrema”, com esta última sendo uma forma que eles definem como rara. O desafio quanto a reportar turbulência, disseram diversos pilotos, é que os próprios relatórios são subjetivos.

Quando em voo, pilotos fazem Relatórios de Piloto (conhecidos como Pireps, no jargão do setor) para o controle de voo e outros aviões na área quanto áreas de turbulência que tenham encontrado; o que um piloto considera ameno pode ser visto como moderado por outro.

O que os profissionais da avião sabem é que uma rede mundial que opera em terra também ajuda a orientar cada voo.

“Eu a chamo de rede de segurança”, disse John Lanicci, professor de meteorologia na Universidade Aeronáutica Embry-Riddle, em Daytona Beach, Flórida. “Temos pilotos em voo conversando, controladores de tráfego aéreo e os expedidores de voo das companhias de avião”.

Se um voo passa por turbulência severa o suficiente para causar ferimentos, um profissional médico em terra também é consultado para que uma decisão seja rapidamente tomada sobre desviar o voo, pousar e conduzir o ferido ao hospital.

Quando voos como o American Airlines 206, aquele em que Case estava embarcado, são forçados a desviar sua rota por causa de ferimentos causados por turbulência, há custos financeiros e de prestígio envolvidos, para a companhia de avião, segundo Mark Miller, vice-presidente senior e diretor geral de apoio a decisões na Weather Co., empresa da IBM.

Miller é meteorologista e diz que a turbulência pode forçar aviões a optar por rotas menos ideais, que resultam em maior consumo de combustível e oferecem menos eficiência, e que voos cheios de percalços podem requerer verificações e manutenção adicional para os aviões envolvidos.

A percepção de marca também é um problema, ele acrescenta. ”É um grande problema em mercados emergentes se novos passageiros veem pessoas desembarcando de um avião com o pescoço imobilizado”, ele disse. E no entanto, concordam Miller e Lanicci, algumas rotas, especialmente na região Ásia-Pacífico, apresentam maior probabilidade de solavancos.

”É um grande problema”, disse Miller. Se existe a percepção de que o voo será difícil, “ela pode afetar a demanda por viagens aéreas”.

Um estudo sobre turbulência em altitudes elevadas, que examinou 2 milhões de relatórios de pilotos entre janeiro de 1994 e dezembro de 2005, demonstra um pico nesse tipo de informação nos relatórios entre 1997 e 1998, de acordo com Lanicci, o que os autores do estudo sugerem que pode ser atribuído ao fenômeno meteorológico El Nino.

Neste ano, El Nino voltou a afetar os padrões meteorológicos em todo o mundo.

”Uma questão interessante”, disse Lanicci quando perguntado se o El Nino vem causando turbulências mais frequentes ou mais severas. “Inconclusivo”, disse David Hosansky, porta-voz do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica norte-americano, um centro de pesquisa e desenvolvimento bancado pelo governo federal.

Passageiros que voam com frequência podem se descuidar e esquecer de manter os cintos apertados, ou começar a ignorar alertas quando a turbulência antecipada não se concretiza, dizem tripulantes de aviões. É um risco a evitar.

O problema com a turbulência leve é que ela pode se tornar turbulência severa em questão de segundos. As pessoas que não estiverem presas firmemente pelo cinto de segurança podem ser arremessadas contra carrinhos de comida, braços de poltronas ou o teto do avião – e às vezes o são–, o que resulta em braços, bacias e narizes quebrados, bem como em risco de concussão.

O setor é altamente competitivo, e as tripulações dos voos precisam oferecer um equilíbrio entre serviço aos passageiros e preservar a segurança destes e a dos tripulantes. Quando surge um anúncio que instrui os tripulantes a se manterem sentados –o que sinaliza a expectativa de turbulência intensa– quem quer que não esteja usando um cinto de segurança corre risco.

Cada companhia de aviação conta com dezenas de meteorologistas em suas equipes para ajudar a planejar e orientar os voos, a fim de evitar turbulência sempre que possível, e os pilotos têm acesso a grande volume de informações meteorológicas em tempo real.

Mais de 700 aviões, entre os quais Boeings 737, 757, 767 e 777, e Airbus A319 e A321, estão equipados com o Total Turbulence, software desenvolvido pela Weather Co. há quatro anos para recolher e compartilhar dados sobre o problema com todos os pilotos que estejam usando o sistema.

 

Texto:  Caitlin Kelly,  New York Times (Tradução: Paulo Migliacci)