Rasgando fantasias

Publicado em 20 de agosto de 2007

A blogueira Bia, também conhecida por Adelina Braglia, comentando o post “Em todos os sentidos”, acredita que o atual governo “não tem a menor generosidade política”. O que diz integralmente:

Talvez você seja a primeira pessoa a quem, publicamente, manifesto minha opinião. E ao fazer isto, depois de oito meses, não temo ser leviana.

Fiz parte do governo que você chama de império tucano e, assim como muitos, não me considerava parte do império. Deixei de ser “tucana” em 1992, mesmo tendo participado ativamente da fundação do PSDB no Pará. E não me envergonho disto, assim como não me envergonho de ter sido defensora e eleitora de Jader em 1982. Nós somos nós e as circunstâncias que nos envolvem, né?

Mas fiz parte, sem nenhum constrangimento, de um governo que me permitiu desenvolver um projeto democrático de política pública, desde 1996, e que hoje está abandonado,infelizmente. O atual governo não tem a menor generosidade política e partiu do arrogante princípio de que tudo o que era do governo anterior não merecia ser avaliado com seriedade para ser criticado, substituído ou aprimorado. Deu um del!

O PT no poder tem o vício de reinventar a roda, mas a reinventa quadrada. E até que ela tenha suas quinas abauladas, haja paralização e mesquinharia, para depois cair na mesmice!Veja o exemplo nacional: o PT quebrou o único patrimônio que até a direita respeitava. Acreditava-se numa esquerda onde a ética – e a honestidade – eram baluartes de um projeto de estado. Era um princípio intransigível. Mas, quem conviveu aqui no Pará com os esquemas petistas de aparelhamento de entidades sindicais e populares, com a proliferação de entidades divisionaistas quando não conseguiam a hegemonia do poder, não se surpreendeu tanto assim. Mas, eu tinha esperança num projeto de nação.

Sou eleitora de Lula desde a sua candidatura ao governo de São Paulo, em mil novecentos e nada e só não votei nele duas vezes: uma quando Mário Covas foi candidato à presidência(votei em Lula no segundo turno) e em 2006, quando não votei em ninguém, por decisão de consciência. Lula e Alckmin já eram o prenúncio de um Brasil infeliz.

Estamos aí há seis anos, com escândalos que se sucedem sem conclusões, a política econômica está mantida integralmente, o desemprego afeta diretamente cerca de 9 milhões de brasileiros e 25 milhões vivem no subemprego.O PT tem, na verdade, um frágil projeto de poder e não um projeto de estado. E ainda que permaneça no governo 30 anos, será sempre frágil, será sempre capitaneado pela mesma elite política e econômica que domina há décadas as rédeas. Aliás, devíamos parar de chamá-los de elite, conceito que traz em si o entendimento de uma coisa superior, mesmo que criticável. Eles são uma choldra e é com ela que o PT governa. Lá e cá.

Lula mantém o modelo concentrador de renda, o sistema financeiro jamais lucrou tanto e cristaliza-se no Brasil a idéia de que produzir é para os tolos. Os espertos, especulam. Ou locupletam-se.Para equilibrar o crescimento da miséria, num quadro de estagnação política, amplia-se o Bolsa Família, um acolchoado para evitar a crise maior. A cidadania amortece. Confunde-se direito com assistência. E espero que ninguém imagine que acho que não se deve fazer política social que atinja diretamente a miséria e a fome.Mas, sem investimentos produtivos, sem a crição de postos de trabalho, vamos conseguir manter as famílias na expectativa de um milagre? Econômico ou político?

Vejo hoje o Brasil como o país que aprofunda cada vez mais o fosso entre os que não comem e os que comem demais.Não vejo perpectiva diferente no estado do Pará. Infelizmente. Seremos alvo de muita pirotecnia ainda. E, como sei que você me conhece um pouco, jamais imagine que eu sou da turma do quanto pior melhor. Eu sou da turma que sempre acreditou que quanto pior, pior mesmo. O erro do outro jamais me estimula.