Putas de nossa vida

Publicado em 10 de abril de 2012

 

 

Essa lei que criminaliza donos de cabarés e prostíbulos é um dos absurdos mais medievais do Brasil.

Um país com a solidez democrática do nosso não pode, definitivamente, conviver mais com essa aberração.

Mulheres que sobrevivem vendendo o corpo, nossas putas de tempos antigos, merecem respeito tanto quanto as madames socialites plantadas no café society das celebridades.

Quem já conviveu com prostitutas saboreando suas agradáveis e respeitosas companhias noturnas, sabe o quanto elas são doces, sofridas e imensamente humanas.

Na juventude, o pôster teve casos inesquecíveis com belas mulheres da vida – como chamavam.

E é bom ir logo dizendo: a palavra “puta” não pode ser vista como expressão ferina da dignidade implícita na vastidão da substância Mulher, nem diminui o ser maravilhoso que lhe habita.

Uma prostituta, como todos bem o sabem, é a mulher que cobra seus serviços, é a profissional. Necessária e útil em muitos segmentos e não cabe a nenhuma legislação julgá-la.

Ser puta é entender a fêmea em sua mais profunda essência; é não estar ao vínculo, justamente, de ter que explicar sua conduta. É livrar-se de etiquetas -, é simplesmente sentir.

O importante, em princípio, é o ser humana: comportar-se como Mulher, Fêmea, Guerreira, porque tudo misturado vira puta – no sentido mais poético e musicalizante.

Feliz da mulher a encontrar um homem que lhe desperte a puta existente dentro de toda fêmea, permitindo sua dança, sua beleza, seu cheiro exalado.

Metade das mulheres do planeta mantém a parte puta adormecida por não ter o seu ‘cafajeste’.

E quem é esse?

É o ‘puta-masculino’, o devasso, o homem sem preconceitos e sem travas, o que se deita e aproveita tudo o que seu corpo pode proporcionar sem ficar preocupado com a hipocrisia reinante na alma de terceiros. .

E no mais, é preciso ter graça nesse viver. Não imaginar apenas a Ave-Maria recheada de graciosidade

Por muito tempo, até seus 20 anos, o pôster andou em cabarés, dormiu com muitas prostitutas, chafurdado, apaixonando-se aqui e ali por algumas delas a ponto de achar que a vida terminava com o término de cada relação.

E nessas andanças, o sadio exercício do aprendizado.

Quantas cenas memorizadas ao longo dos anos de cafetinas bebendo a noite inteira, enquanto aguardavam “suas meninas” copulando até vinte vezes por dia; imagens da sucessão de maus tratos, surras que recebiam do cafetão e dos meganhas, as brigas, a insegurança, o medo e a permanente violência, e pelo fato de estarem sujeitas a contrair todo tipo de doença venérea, com poucos anos de “profissão”, viravam molambos humanos.

Nos cabarés, de tudo um muito.

Velhas putas. Cinquentonas. Quarentonas. Trintonas.

No ponto oposto do tempo, mocinhas de 14 a 20 anos, as preferidas dos coronéis de então, assim como dos oligarcas contemporâneos, ´donos´ dos lugares onde moravam – que sempre as priorizavam, pagando valores altíssimos por algumas horas de prazer.

Recém-chegadas ao ofício, as meninas logo perderiam o viço da pele, o brilho dos olhos, o brilho da vida, que em tais criaturas se esvai com velocidade espantosa – e logo também estariam descartadas – como descrita no bolero de Chico Buarque, imortalizada pela maciez da voz de Gal.

Nos bordéis é assim: em poucos anos a mocinha dadeira vira velha rameira, tão sôfrega e, selvagemente, sugados viço e a seiva da juventude.

Algumas dessas mocinhas, assim como chegavam, abruptamente, desapareciam sem deixar vestígios.

Outras putas envelheciam na casa de origem, aguardando, lentamente, a hora da morte.

Algumas morriam em vida, lentamente, como fruta que amadurece, e a mão de Deus ou dos homens não têm a piedade de estender, para colher um gesto inaugural de ternura.

Ficavam ali desidratando-se, encroando como frutas mal amadas, depois de extraídas de suas almas todo o suco e essência que nelas pudessem ter existido um dia – expostas à curiosidade pública, como espécie rara numa vitrine.

De lá para cá, nada deve ter mudado. Apenas os personagens.

O modus operadi se repete. E as estórias individuais dos cabarés e de suas putas, idem.

Quem entrasse num prostíbulo qualquer para transar o sexo pago, ou quem apenas se entregava ao convívio seresteiro com a boêmia, e ficasse na sala, a ouvir as vozes, numa vitrola, de Nelson Gonçalves ou Carlos Gardel, compartilhava, também, gemidos vindos de quartos próximos – não podendo identificar se eram gemidos da dor de morrer em vida, ou se eram produzidos pela máquina de esfolar e fazer gozar pessoas mortalmente vivas, tristes e solitárias.

Até hoje, quando escuto eventualmente “A volta do boêmio” (sucesso de Nelson Gonçalves), vem à memória, ao mesmo tempo, como sinos da agonia, os gemidos de Rita, a prostituta mais velha de um cabaré que existia no “Jadão”, zona boêmia mais animada de Marabá, nos anos 70 (a turma de então marabaense sabe de quem estamos falando).

Coroa simpática, mas que passava de seus 50 anos, Rita gostava de ensinar menino novo a fazer sexo, pegava os afoitos garotos sem pena, fazendo questão, elucidativa e didaticamente experiente, de mostra-lhes o caminho das pedras. Ou do gozo.

Rita me fez entender porque as putas e os boêmios voltam sempre, a procurar, sedentos, os sítios do perigo e da perdição .

Poderoso magnetismo, fascínio pela queda, e a sede de mergulhar na vertigem, faziam a gente retornar aos puteiros em busca daquelas envolventes “mulheres da vida”.

Rita e seus gemidos. E  ais.

Mas, no fundo, ela acumulava também suas dores. Havia pedra de solidão em seu olhar.

Não sei que fim tomou aquela cafetina, só sei, de repente, aqui e agora, de uma baita saudades desses tempos de cabarés à meia luz, a luzinha vermelha à porta anunciando “aqui tem gozo”

 

O Blog endossa a campanha pela regulamentação, URGENTE, da profissão mais antiga do Planeta.

 

Viva as putas do Brasil!!!