Projeto de lei pode acabar com o circo

Publicado em 10 de janeiro de 2015

Circo 2

 

Proibir crianças de trabalhar no circo tira delas chance de aprender

 

 – Marlene Olimpia Querubin (*)

 

Há registros de que o circo existe há mais de 5 mil anos. Suas atividades foram iniciadas na China e firmadas como arte popular na Europa. Até hoje, em todo o mundo, o circo continua encantando com sua linguagem única e generosa, pois dialoga com todas as artes: o teatro, a dança e a música. E foi dentro do picadeiro que todas essas expressões artísticas deram seus primeiros passos.

Também não podemos esquecer que, dentre tantas artes, o circo foi o único que chegou com suas caravanas há lugares longínquos e esquecidos do nosso país. Um circo traz consigo um enorme aparato – lonas, trailers e caminhões. Por isso, o gestor circense não pode esquecer nenhum detalhe, precisa ser como um regente de orquestra. Todos os movimentos precisam estar afinados e sincronizados.

A vida do circense é, portanto, uma verdadeira odisseia, que vai desde a preparação dos terrenos para a chegada da “cidade circo”, até o voo do trapezista para os braços de seu aparador. No dia a dia, nossos filhos aprendem esse estilo de vida, acompanham os ensaios de cada número e, eventualmente, vão decidir quais querem executar.

Fora do picadeiro, as crianças observam a montagem de um espetáculo e como se tornar um artista profissional. Sonham com os aplausos da plateia, mas não deixam de frequentar a escola.

Com o novo projeto de lei do deputado Jean Wyllys (PL 4968/2013), que cria inúmeras barreiras burocráticas para a participação artística antes dos 14 anos, os mais jovens poderão perder esta preciosa experiência dos saberes circenses.

A lei simplesmente tira das crianças de circo a oportunidade de aprender. Afinal, como uma contorcionista vai iniciar suas atividades na fase adulta? É o mesmo que uma ginasta iniciar sua carreira aos 20 anos, tremenda incoerência, no mínimo. É de conhecimento geral que esse aprendizado deve ser iniciado ainda na infância.

Falo daqueles que buscam o circo como um estilo de vida. Eu mesma larguei minha cidade quando conheci e me encantei pelo circo. A cada dia que passa, esse número é crescente. Mais e mais, os alunos de escolas de circo social ou profissionalizante escolhem o circo para viver, trabalhar e construir suas famílias.

Hoje, o circo sofre grandes transformações, nas cidades perdemos nossa identidade de circo, e somos chamados pelas prefeituras de eventos. Senhores, não somos “evento”, esperemos que entendam que nossa atividade é constante, permanente e cultural, só mudamos de lugar. Em quase 30 anos de Circo Spacial, por exemplo, estamos em atividade ininterruptamente.

Como classe, estamos preocupados e procurando pensar no futuro do circo como um todo: como linguagem artística e como empreendimento. Atualmente, o circo é uma atividade autossustentável. Existem mais de 2500 circos itinerantes no país, que formam uma cadeia produtiva com mais de 30 mil empregos diretos.

Trata-se de uma estrutura firme, organizada, que incrivelmente resistiu aos mais diversos planos econômicos e convive diariamente com uma enorme carga burocrática, com leis que não foram pensadas em suas peculiaridades.

Gente de circo é criativa, resiliente e muito crítica com si mesma, mas possui uma sensibilidade nata, ao ponto de saber que é hora de mudanças. Sabemos o que é necessário para perpetuar nossa descendência milenar, e como preencher as expectativas do respeitável público quanto ao espetáculo e às acomodações.

Com entidades organizadas, a exemplo da UBCI (União Brasileira de Circos Itinerantes), vamos reivindicar leis próprias para o circo. Sendo assim, queremos a aprovação de uma lei nacional do circo, que nos garanta o direito de trabalhar em local próprio e adequado nos municípios, eliminando os entraves burocráticos que vem aprisionando e onerando os circenses.

Reivindicamos novas linhas de créditos, editais e financiamentos para produção e circulação dos espetáculos. Queremos também acesso a isenções de taxas de importação para a renovação dos nossos equipamentos e a valorização da arte circense como um todo.

Respeitável público, depende de nós, pois o espetáculo não pode e não deve parar!

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(*) presidente da UBCI (União Brasileira de Circos Itinerantes) do Circo Spacial