Porque a conta do Disque Denúncia não bate

Publicado em 20 de dezembro de 2012

 

 

Antes de ir aos números, fique bem entendido: eu não sou contra o Disque Denúncia, jamais seria.

Se o fosse, estaria cometendo terrível incongruência diante de toda uma luta que tenho provado aqui neste blog a favor de uma sociedade mais justa, menos desigual -, e  contra qualquer tipo de violência.

Coerente com minhas posições, só tenho acumulado  processos nas costas por combater a parte podre da nossa malha social.

De tão favorável ao Disque Denúncia, adiei viagem para participar da  reunião realizada no quartel do 4º Batalhão de Polícia Militar destinada a discutir o futuro do serviço, naquele dia anunciado como se  estivesse numa UTI – de tão combalida a distância entre receita e seus custos.

Fiz todo um esforço para participar da reunião, disposto a mobilizar o blog em busca de alternativas que salvassem de morte o DD.

Em verdade, estou descobrindo agora, ao mergulhar na tal planilha de custos apresentadas a ACIM, que o serviço passa tão somente por um passivo disfarçado.

Então que não venham tentar postar comentários em sentido contrário.

Aos fatos.

 

Valores repassados ao Disque Denúncia

 

Um ano atrás, quando a Vale concordou em participar do chamado “movimento solidário”, comumente assim batizado o Disque Denúncia pelo seu ideólogo, Edson Calil de Almeida, a mineradora concordou em alocar investimentos na implantação do callcenter e na parceria pela sua manutenção, desde que o serviço buscasse outros meios de sobrevivência  até um ano depois de sua ativação.

Nesse período de doze meses, a Vale fez os seguintes aportes  no Disque Denúncia:

 

R$ 300 mil –  Investimento na implantação do callcenter.

R$  1, 2 milhão –  Valor repassado à manutenção.

 

Ou seja, em um ano, o DD do Edson Calil  recebeu, somente da Vale, R$ 1,5 milhão.

Números foram fornecidos por representante da Vale durante reunião com a diretoria da Associação Comercial e Industrial de Marabá.

Só que durante a reunião realizada no quartel do 4º. BPM, Calil afirmara receber da Vale, mensalmente R$ 59 mil.

Portanto, pelo seu fluxograma de caixa, em um ano, descontado o valor de R$ 300 mil para investimento, a mineradora repassou R$ 100 mil por mês. E não apenas R$ 59 mil.

Como a Sinobrás repassa mensalmente R$ 10 mil e a Leolar R$ 4 mil, a soma mensal de aporte ao callcenter da ONG foi de R$ 114 mil – isto sem contar o valor de R$ R$ 37.480 que o IBCC diz serem recursos próprios, repassados para completar os custos do serviço.

Somando toda a gororoba, temos ai um total de R$ 151.480,00 – bem acima dos custos apontados pelo Calil, da ordem de R$ 110.480,00.

Se assim for, está sobrando dinheiro.

A soma de R$ 110.480,00 foi apresentada,  repito, na reunião do quartel, convocada pelo prefeito diplomado João Salame, chamado ao meio da confusão pelo próprio Edson Calil, para que intermediasse a situação, descrita pelo dono da ONG como “preocupante” e a caminho de uma “insolvência”.

 

Prazo dado pela Vale

 

Antes, devo esclarecer, de novo,  que a Vale, ao topar financiar o serviço e participar de sua manutenção pelo período de um ano, foi bem clara ao recomentar ao IBCC a busca de novos parceiros, já que passados os doze meses, não poderia mais estar incluída nas parcerias estabelecidas.

Muito bem, no dia 8 de novembro de 2012 o convênio entre a Vale e o IBCC venceu, um ano após sua assinatura.

Nesse período, Calil não moveu uma palha para discutir, com antecedência,  o futuro do Disque Denúncia ou alinhavasse novas parcerias, apesar de apontar em sua planilha salário de R$ 8 mil mensal a uma consultoria de captação de recursos (depois trataremos disso).

O que se sabe em Marabá é que a ONG só veio tentar contornar “a crise” mantendo breves reuniões com alguns setores representativos, em cima do prazo de vencimento do convênio com a Vale.

No período de um ano, não se tem conhecimento de que Calil tenha tentado sensibilizar o governo do Estado a participar do projeto, ou pelo menos ele não espelha quais contatos foram mantidos, em Belém.

Limita-se a dizer, em sua nota de esclarecimentos enviada ao blog, que  “procurei o Estado do Pará e o Secretário de Segurança Pública tornou-se um companheiro a (sic) afirma as dificuldades do Estado”

 

Quanto pior, melhor

 

O sócio do IBCC considerou “oportuno” chamar a turma “pro limpo” em pleno dezembro de 2012, alguns dias da posse do novo prefeito.

O chamamento de João Salame, a essa altura do campeonato,  pode ter sido estratégico.

Afinal, nada melhor do que enfiar um pepino da envergadura social do Disque Denúncia  no….  olho de um prefeito, às vésperas de sua posse.

Cenário típico de quanto pior, melhor -, para se contrair dividendos.

Como não é de fugir de responsabilidade, mesmo aquelas que não sejam de sua jurisdição constitucional,  Salame puxou a bronca pra si, convocando empresários e o setor de segurança. Ele sabe que o Disque Denúncia é uma ferramenta útil de combate ao crime – em meio à instabilidade que se instalou no município, quer de ordem administrativa, quer no campo da insegurança pública, com os índices alarmantes de violência chegando aos píncaros, neste final de ano.

Estimulados pelo futuro prefeito a descortinar saída para o problema, os empresários passaram a manter  reuniões pautando o assunto, até que, finalmente, a tal planilha apareceu no meio das discussões com alguns itens merecedores do direito a dúvidas.

 

Esquesitices & Extravagâncias

 

Por exemplo: no chamado “Custo Mensal da Equipe Local”,  que a planilha expõe (essa equipe local, em outras palavras, refere-se a manutenção do callcenter que atende as chamadas telefônicas, em Marabá), há esquesitices bem mesmo estranhas.

O callcenter da ONG funciona em prédio que não lhe custa um centavo. Nem aluguel nem energia, mas com tudo isso, a despesa mensal chega a R$ 80 mil, mais precisamente R$ 79.020,95, com 28 funcionários.

Até aí tudo bem.

Só que o valor do salário mensal do Coordenador do telemarketing é de R$ 6.500,00, chegando a R$ 14.773.,  incluindo encargos.

Em Belém, três dos maiores callcenter do Norte pagam salário médio de R$ 1.500,00, a um coordenador -, para atendimento de setores que acumulam cerca de  30 PAs, pontos de atendimento. Ou 30 telefonistas.

O do Disque Denúncia tem apenas  quatro pontos de atendimento.

Com encargos, o coordenador de um callcenter do mercado soma cerca de R$ 3 mil, cobrindo trinta telefonistas, por setor.

O DD de Marabá é uma generosa mãe, comparando seu salário aos valores praticados no mercado.

No chamado  “Custo Mensal Demais Insumos”, o IBCC deita e rola em disposição de itens, no mínimo, estranhos.

Vamos lá, enumerando os mais “cavernosos”:

Destinação Valor /Mês Valor / Ano
Consultoria suporte para inteligência policial (?) R$ 4.000, R$  48.000,
Consultoria captação de recursos (?) R$ 8.000, R$  96.000,
Premiação Gol R$ 3.000, R$ 36.000,
Prêmio Tim Lopes R$    800, R$  9.600,

 

A soma dos valores acima é de R$ 15.800,00/mês.

Ao ano, esse valor bate em R$ 189.600,00

Como atua a chamada “consultoria suporte para Inteligência policial”? Ninguém sabe.

De concreto mesmo, apenas seu valor mensal de R$ 4 mil.

Nem os próprios policiais civis e militares tem conhecimento desse suporte.

Não sabem se é utilizado como software (e se o fosse, o valor é fora da realidade) ou destinado a oxigenar a preparação da área de inteligência da polícia.

Quanto a isto, diz representante da área de segurança local, nunca receberam qualquer tipo de informação a respeito.

Ao ano, a “consultoria de suporte para Inteligência Policial” abocanhou a bagatela de R$ 48 mil.

E a tal de “consultoria de captação de recursos”, como resume a denominação, deveria ser destinada a se articular para buscar grana para manter o serviço. Mas, se em um ano essa  “consultoria”, ao valor mensal de R$ 8 mil,  não conseguiu viabilizar o caixa da ONG,  a função não existe, ou se ela atua, deveria ser extinta – porque incompetente.

Em qualquer empresa, tal situação seria combatida no nascedouro, com distrato automático.

Anualmente, o exótico cargo embolsou R$ 96.000,00

Ou seja, praticamente o valor total de um mês do  DD.

Salário de executivo de empresa média.

O mais enigmático  está nos quesitos “Premiação Gol”    e   “Prêmio Tim Lopes”.

A que se destinam tais premiações?

Segundo  texto explicativo da ONG, a Premiação Gol  “oferece premiações aos policiais responsáveis por ações com êxito e sem vítimas que tenham sido operacionalizadas com a ajuda do Disque Denúncia”.

E o “Prêmio Tim Lopes (homenagem ao jornalista morto no Rio de Janeiro), segundo explicação  do IBCC, é para “premiar o talento do jornalismo investigativo de alto nível”.

O valor mensal  da Premiação Gol é, vejam bem!,  R$ 3 mil.

O Prêmio Tim Lopes oferece R$ 800,00,  por mês,  ao “jornalismo investigativo”.

A soma anual do Prêmio Gol é de R$ 36 mil, enquanto a do Prêmio Tim Lopes chega a R$ 9.600,00

Beleza! Nada mais justo!

Reconhecer, principalmente, os esforços dos policiais marabaenses que se sacrificam para desvendar as denúncias anônimas.

Só tem um detalhe, triste detalhe!

Apenas duas vezes,  equipes de policiais da cidade receberam tal premiação, em UM ANO DE FUNCIONAMENTO DO SERVIÇO.

Na primeira vez, a soma de R$ 1.200,00; e em uma segunda oportunidade, R$ 400,00. E  “toda essa grana” foi dividida entre seis policiais, integrantes da equipe de investigadores. Ou seja, R$ 133,00 por policial.

Somando: R$ 1.600, ao ano, desembolsada a favor da polícia.

A soma anual das duas premiações é de R$ 45.600,00

Não se tem conhecimento, pelo menos em Marabá, de que, a cada mês, algum jornalista tenha recebido o “Tim Lopes”. Afinal, já daria para algum coleguinha torrar 800 mangos na orla – ou lá no Cantão.

Hãn?!! Hãn?!!

 

Novas proposta apresentadas

 

No meio  a essa polêmica, a ACIM recebeu informação da Vale de que a direção do IBCC apresentou três novas propostas à mineradora, para continuar tocando o Disque Denúncia, em Marabá.

Numa proposta considerada “péssima”, pela direção da ONG, o serviço poderia sair ao preço mensal de R$ 54.000,00, atuando em apenas dois turnos, e contando com oito operadores de callcenter.

Na segunda proposta, denominada de “conservadora”, o valor se elevaria para R$ 74 mil/mês, pois assim já teria 12 operadores.

E, naquilo que o IBCC considera situação “Ótima”, o serviço custaria, mensalmente, R$ 84 mil, atendido por 12 operadores e um coordenador.

Só que de cada dos valores acima listados (R$ 54 mil/ R$ 74 mil / R$ 84 mil), 30% dos custos seriam destinados a Consultoria. Ou seja, a alguém do IBCC.

Dentro dessa configuração “renegociada”, o Disque denúncia, pegando-se o cenário “ótimo” de R$ 84 mil/mês, teria seu custo operacional em exatos R$ 58.800, descontados 30% de consultoria.

Exatamente o preço que os callcenter consultados pelo blog, em Belém, cotaram, numa configuração de  quatro pontos de atendimento e um coordenador, que atuaria mais como supervisor.

Resumindo: o callcenter do Disque Denúncia nada mais é do que um elo entre o público e a polícia. Serve apenas para atender as ligações telefônicas de pessoas anônimas, processá-las automaticamente através do software e encaminhá-las às autoridades envolvidas no processo, para início de investigação.

Nada mais.

Não tem a função de treinar polícia, nem de inventar a roda.

Ninguém que acabar com o Disque Denúncia, a sociedade exige apenas que a ONG responsável pelo serviço mostre transparência, apresente números reais, para que as entidades representativas possam atuar no sentido de alocar recursos à sua manutenção.

Mais olho no olho, e menos jogo de cena para impressionar incautos.

A comunidade, ao contrário do que afirma Edson Calil, nunca ficou “indiferente” aos seus problemas, porque é ela quem  sofre, no fim da ponta, as consequências da violência.

Nossa população sempre participa de movimentos que requer solidariedade, desde que garantida em ações de real interesse publico, onde o publico não seja confundido com o privado, e, em algumas situações exóticas,  até privadíssimas!