PIX e o Mix Brasil

O publicitário Glauco Lima assina o texto que leva o título do post.

Publicado originalmente nas redes sociais de Lima, o texto retrata  os dois Brasis, da base e do alto da pirâmide social – extremos que a cada dia se distanciam, formando um país de pessoas estraçalhadas, sem rumo. 

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Os fatos em torno  da plataforma online de transações financeiras PIX no Brasil dão um retrato exato e exemplar da aberração de desigualdade que é este imenso país.

Os números do PIX e alguns ajustes que a plataforma precisou receber em função da realidade socioeconômica do Brasil são simbólicos de nossas muitas dores e poucas delícias. Só no mês de fevereiro de 2022, foram realizadas 1,1 bilhão de transações via PIX.

Em dezembro do ano de 2021 o número de transações ultrapassou 1,4 bilhão.

Mesmo com muita gente ainda fora do mercado bancário e longe do sistema financeiro, estes números mostram um país no século 21, vivendo o futuro da modernidade e das agilidades/facilidades proporcionadas pela tecnologia de vanguarda.

Mas por outro lado, o PIX teve que fazer adaptações de limites de saques noturnos e limitações de transferências em curtos períodos, para fugir do grande número de assaltos, sequestros relâmpagos, roubos, latrocínios e outros crimes que se multiplicaram muito depois que a plataforma passou a ser adotada por grande parte da população.

Se o PIX é o século 21, essa rendição a uma realidade violenta e assimilada de crimes é a pré-história, é barbárie, é o amanhã tentando conviver com o eterno ontem que é a vida brasileira.

Um país onde, nos últimos 5 anos, se vê cada vez mais miseráveis fazendo luxuosas agências bancárias de albergue noturno.

Muitos Caixas Eletrônicos 24 horas ficam inacessíveis logo de manhã, devido ao fedor de fezes e urina deixados durante a madrugada pelos sem-teto, sem-dinheiro, sem-perspectivas.

Enquanto o empobrecimento das famílias cresce alucinadamente, principalmente desde 2016, os bancos divulgam lucros cada vez mais estrondosos.

O Brasil do PIX é terceiro milênio tecno e a treva humanitária na mesma transação.

O PIX é a cara do Brasil, cara de moderninho e corpo corroído por grave câncer da desigualdade agressiva.