Hiroshi Bogéa On line

Pesquisadora concede entrevista ao blog sobre a ação dos trollings nas redes sociais

 

 

Trolls são monstros do folclore escandinavo, criaturas  feias e antissociais comuns em histórias infantis.

Também dão nome a uma verdadeira praga, igualmente medonha e de comportamento inadequado, que surgiu nas caixas de comentários das redes sociais,  em fóruns e listas de discussões, mas que se espalhou após a popularização dos blogs.

Cada vez mais, são muitos os debates virtuais prejudicados por suas agressivas intervenções.

Qualquer pessoa pode se tornar um troll.

Com o – relativo – anonimato oferecido pela rede, nem é preciso criar pseudônimos para publicar comentários que escancaram, além do próprio semianalfabetismo, preconceitos, imoralidades e até crueldades verbais direcionadas a um blogueiro, a outro comentarista, a um político, ao proprietário de um site ou mesmo de um perfil num portal de relacionamentos.

É um fenômeno. Que sensibiliza não só os internautas comuns, mas também a  pesquisadores e estudiosos gerais, que aos poucos começam a se debruçar sobre o assunto.

Bem aos poucos, no entanto.

Sempre  aparece aqui no blog um desses mentecaptos desvalidos, ora me agredindo, ora  tentando plantar  acusações contra esta ou aquela pessoa, com a nítida intenção de esculhambar, desmoralizar e usar o espaço de audiência consagrada do blog como instrumento de propagação de ódio e interesses políticos duvidosos.

Há até os chantagistas, e em relação a estes  eu já me previno, copiando o IP de onde enviam mensagens criminosas, e ingressando na Justiça com pedido de averiguação da origem do identificador, para as providências necessárias.

Leva tempo, até o juiz autorizar a localização do IP, mas a gente chega lá, para saber de qual fossa fluem os vermes.

Pois bem, os Trolls passaram a ser alvo de estudos.

Na última terça-feira, depois de descobrir seu contato virtual, o pôster encaminhou pedido de entrevista a Sandra Montardo,  mestre em Inclusão Social e Acessibilidade e doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). que integra o conselho da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura, com o envio de sete perguntas.

Na manhã desta sexta-feira, 1, ao abrir meu Gmail, lá estava a resposta da jovem pesquisadora, que prontamente devolveu os questionamentos, reforçados por uma fotografia dela, também solicitada.

Sandra Montardo  confirma os avanços das pesquisas sobre o uso da internet, em âmbito universitário, mas especificamente sobre trolls, há poucos trabalhos, “embora o tema apareça,  cada vez com mais intensidade, em seminários e nas palestras proferidas pelo país”, diz.

A entrevista:

 

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Sandra MontardpO que as redes sociais como Facebook e Twitter revelam sobre o jovem contemporâneo?

Sandra – Sites de relacionamento em geral revelam que o mundo do jovem pode ser cada vez mais organizado, disponibilizado e acessado conforme seus interesses. Seja pelo fato de que essas ferramentas permitem que o jovem se mostre de acordo com seus gostos pessoais, através da expressão de suas preferências (entretenimento, informações, lazer), seja porque elas potencializam o acesso a pessoas que tenham interesses semelhantes aos seus, por meio de ferramentas de busca e do compartilhamento de conteúdos.

A senhora realizou uma pesquisa sobre a socialização on-line de pessoas com necessidades especiais. Em que sentido a interatividade através das redes sociais garante a inclusão social real?

Sandra –  Meu grupo de pesquisa entende a inclusão como promoção de autonomia em busca de qualidade de vida em um sentido amplo. Também entendemos que todos nós estamos, ao mesmo tempo, incluídos sob alguns aspectos, e excluídos sob outros. Por isso, falamos em inclusão como um processo que é permanente embora não constante. Até então, mapeamos e analisamos a estrutura de redes sociais sobre Autismo e Síndrome de Asperger  (em blogs), sobre Síndrome de Down (em fotologs) e sobre deficiência auditiva (em blogs). As duas primeiras redes eram mantidas pelos pais das crianças e a terceira, pelos próprios deficientes auditivos e por profissionais interessados na temática. Apesar de particularidades observadas em cada rede, seja pelo tema em si, seja pelas possibilidades de socialização permitidas pelas ferramentas on-line, notamos que em todos os casos há uma troca de informações sobre as necessidades especiais em questão (tratamentos, educação, dietas específicas) e de experiências em relação a elas. Por meio de questionários, verificamos que as pessoas que compõem essas redes se sentem amparadas em vários sentidos pelas outras, e isso, com certeza, reverte na qualidade de vida de todos os envolvidos.

Que fatores explicam a procura por redes sociais? As pessoas se sentem sozinhas no mundo real ou apenas buscam, através de programas como Twitter, Facebook, interagirem com seus pares?

Sandra – A internet potencializa as relações sociais e não as inibe. Com certeza, conseguimos manter mais relações, formais e informais com a internet do que sem ela.  Aliás, muitas vezes é por meio dessas ferramentas que agendamos encontros presenciais com as pessoas. Pessoas que limitam sua socialização à interações on-line e que, devido a isso, enfrentem problemas, devem ser consideradas em termos de questões individuais e não como uma generalização em torno do uso dessas ferramentas.

 

É “normal”, na blogosfera, aceitar o nível rasteiro de comentários, maioria de caráter maldosos e agressivos?

 Sandra – Pode parecer simples entender o que faz alguém ofender outras pessoas que sequer conhece, sem remorsos e, em tantas ocasiões, sem justificativas, mas às vistas dos acadêmicos se trata de algo um tanto mais complexo – o que tem levado a algumas respostas bem interessantes. Um certo instinto maldoso e a segurança oferecida pela falta de contato físico são apenas os aspectos mais básicos dos estudos sobre o assunto, todos ainda incipientes, alguns tocando o tema a partir de abordagens laterais.
Os sites de fofocas, ao lado dos de futebol – que mexem com rivalidades e paixões exacerbadas –  têm se destacado na prática do trolling. Mas e quanto a portais e blogs que oferecem outros tipos de conteúdo? E quanto à prática de ofensas em simples perfis de redes de relacionamento?

Sandra – Muitas vezes as reações mais extremadas vão contra as opiniões que contrariam o senso comum. Essas opiniões podem ser expressadas em um blog ou mesmo em um item de um perfil, como a revelação de um gosto inusitado, por exemplo. Quando alguém abala uma verdade estabelecida, a reação é contrária. A possibilidade de anonimato, ainda que fantasiosa, porque o rastreamento é sempre possível, potencializa a agressividade.

O que diferencia o bullying  do  trolling?

Sandra – A prática do bullying (atos de violência com o objetivo de intimidar), o popular “tirar para corinho”, é muito comum em escolas. Como o mundo virtual é relativamente novo, estamos numa fase de descoberta desse mundo, da mesma forma que crianças e adolescentes estão descobrindo a realidade. De fato, talvez faça sentido associar essa prática infantil ao trolling. Mas o importante nessa relação é não perdermos de vista que o mundo virtual também é real. Não é porque não estamos face a face que o mundo virtual não existe. Só somos capazes do trolling se também o formos do bullying.

Deletar comentários agressivos, é  agredir a liberdade de expressão, negando a livre manifestação do leitor?

Sandra – Não! Jamais. O sujeito que pratica ofensas na internet faz algo parecido com o que fazem meninos e meninas que ofendem os colegas pichando a porta do banheiro do colégio. Ambos os atos são absolutamente infantis. A solução para o problema? Quem pesquisou o assunto só encontrou uma: moderar intervenções e comentários dos leitores ou, até mesmo, excluí-los. Pelo menos até que eles reflitam mais maturidade da parte dos internautas.

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