Hiroshi Bogéa On line

Pelos becos da Cidade Velha

Samoel foi a melhor pessoa que conheci. (Ele escrevia Samuel, mas assim como digo fica mais terno.) Conheci-o no Colégio Moderno, em Belém, onde estudei por cinco anos seguidos.

Aconteceram dessas coisas vulgares, inúteis de narrar, que nos separaram. Cada qual tomou seu rumo. Dele o que persistiu comigo foi aquela sensação  de bondade total, inteiriça, sem costuras. Bondade que só não chegava à monotonia  porque o sorriso de Samoel punha tudo uma doçura de amaciar pedras, de nos deixar parando acima de qualquer análise.

Ido, ele ficou sempre comigo. Companheiro de todas as horas, principalmente as de amarguras ou de intensas alegrias quando derrotávamos nossos adversários jogando pela seleção colegial.

Samoel era incapaz de ferir um colega com uma expressão minimamente dura.  Se lhe brotassem asas dos ombros  levemente curvos, levemente arredondados, como se a bondade pesasse  nele como um fardo, haveria – eu pensava,  às vezes – certo ridículo; os anjos não são deste mundo. Nenhuma surpresa, porém. Nem, o que era principal, qualquer quebra de bondade.

Tão capaz de querer bem, pareceu-me sempre que Samoel fosse incapaz de amar.

Explico: amar como nós outros, os sem iluminação nem massa angélica, amor com ganga carnal, perturbado na essência divina primitiva.

Podia-se imaginar Samoel suspirando, escrevendo soneto ou simplesmente esperando numa esquina, ramo de flores pendendo da mão, olhos no relógio esquecido de caminhar?

Samoel, no entanto, amou. Amou como nenhum de nós conseguiria amar.  Só que sua bondade tirou o gosto ao amor, não lhe deu a porção indispensável de pecado, de coisa terrena, humana e defeituosa, pitada de imperfeição necessária  à perfeição do amor.

Isso eu soube na tarde deste sábado, 20, através de um primo do querido personagem, casualmente encontrado no aeroporto de Marabá.

Contemos.

Um dia do ano 2000, sentado num barzinho da Praça do Carmo – a Cidade Velha era ponto de nossas andanças, de bar em bar, bastava sairmos  do Moderno -, Samoel se encontraria.  Não no sentido do cotidiano, pois ele jamais se perdeu de si, era inseparável dele mesmo, a bondade lhe dava uma segurança que estamos longe de sentir, nós mortais comuns.

Foi quando entrou Arlete. Capaz de invocar Samoel, bouliversá-lo,  hipnotizá-lo. Capaz de fazer dos céus se misturarem com a terra, o espírito de Deus voltando a se mover sobre a face das águas do Porto do Sal.

Achada naquele momento único, quando a ternura de Samoel  foi mais ternura, quando a bondade de Samoel  foi bondade mais que a sua própria bondade, a maior até então existente.

Um superar-se. 

Nessa ternura se banhou Arlete. Que passou, daí por diante, a banhar-se com sais perfumosos, a vestir-se nas lojas finas, a comer nos restaurantes de luxo. 

Nem nas boates a bondade de Samoel se ajeitava menos. Percorreu-as todas, puxado pelas mãos ávidas e insaciáveis de Arlete. 

Foi feito por Samoel, o circuito da futilidade elegante, e nem um minuto sua ternura se sentiu deslocada. Com o sorriso e as ocultas asas abria as portas mais difíceis. Liquidou com a lenda da porta estreita. Passou por todas. Perdoavam-lhe até que as transpusesse levando Arlete. 

Mas também o dinheiro das criaturas angelicais acaba. Acabou-se o de Samoel. 

Imediatamente, a lenda voltou a vigorar. Foram-se estreitando as portas, terminaram por fechar-se, às vezes em sua cara e com violência. 

Quando viu Samoel, terno como sempre, bondoso mais que nunca, de novo sentado ao meio-dia de sábado num botequim da Cidade Velha, Arlete retomou suas asas e voou, em companhia de Ivaldinho, que se brevetara havia pouco. 

As asas de Arlete, inútil esclarecer, eram de borboletas, embora ela pedisse, aos mais íntimos, em categoria de favor especial, que não a mencionasse como mariposa. 

Samoel passou a sofrer, sofreu com intensidade jamais experimentada por qualquer de nós, e nós a cada passo perdemos a nossa Arlete, nossas borboletas, nossos sonhos amados. 

O que Samoel não perdeu foi a bondade, foi a ternura. Sofreu fundo e desgraçado, mas com ternura, com bondade. Não perdeu também o sorriso. Deste, conforme o declarou às autoridades competentes, durante o inquérito, jamais se esqueceria  o garçom que lhe serviu o guaraná, ao qual adicionou violento tóxico, ganhando, em conseqüência, nos jornais do dia seguinte, o título de tresloucado. Esse sorriso haveria de perseguir  o garçom através das horas e dias e semanas e meses, até que também ele, em desespero de causa e privação de sentidos, embreou-se com Samoel na generosa distribuição de títulos nos jornais. (Disso, Samoel nunca soube. O fato seria capaz de lhe abalar a ternura e mesmo de lhe empanar o brilho manso do sorriso.) 

Depois de um longo tempo que para ele não houve, com tudo branco em redor, paredes, roupas, caras, Samoel se sentiu suspenso no ar. 

Olhando pelo rasgão dourado da janela, compreendeu. Lá fora, o Irmão Sol esplendia. Não o quente e abafado da Cidade Velha, mas o de uma primavera sem fim e nem começo. Era o reinicio do mundo, a promessa de outros encontros, de outras probabilidades e possibilidades de sorrir para a vida e para as primas-donas. 

Foi quando o anjo apareceu. Voava lá fora, fazia piruetas graciosas no ar, nada de loopings secos e  brutos, tudo em harmonia e ritmo. Não surpreendeu a Samoel  que aquele fosse exatamente como os dos quadros renascentistas e das estampas coloridas que o vigário lhe dava na infância.

Jamais os concebera de modo diverso. Viu-lhe mesmo no rosto aquela expressão mista de leve tristeza e luminosidade. 

Acompanhando, pela janela, as evoluções do anjo, Samoel não percebeu o par de asas que, sub-reptício, ia crescendo em suas próprias costas. Quando deu por si, estava branco, diáfano, difuso, tinha um rosto suavemente triste e violentamente luminoso. O corpo era mais leve que o ar, as mãos servindo de âncoras no rebordo da cama. 

Sua ternura e sua bondade mudaram de tom, desligaram-se da terra, do peso da terra, da sujidade da terra. Sorriu, e sorriu luz, o que em absoluto o espantou.

Sem saber que o esperava, esperava por isso. 

Caminhou então, deslizou ate a janela. Galgou, sem o mínimo esforço, a sacada. Sentia-se, sobre ela, como balão que se vai inflando de gás, prestes a largar no rumo do infinito.

Largou. 

Apesar  de todas as transformações, não pôde deixar de surpreender-se um pouco, o que o fez ficar parado no ar, como um helicóptero sem motor, domando leis físicas que então conheceu irreais e enganosas, em prejuízo dos compêndios lidos no ginásio. Entendeu enfim – e aí foi um novo-riquíssimo angélico. 

Samoel dançando no ar, em ritmos redondos e sutis, rabiscando rondós no espaço, desenhando geometrias inventadas na hora, de harmonia absoluta, mensuráveis por metros que não eram deste mundo. 

Seguro de si, experimentou várias direções, voltou ao ponto inicial, avançou, volveu, desceu, subiu. Manobrava com uma perícia  que lhe parecia adquirida antes dos séculos. Como que nascera apto para todos os movimentos, todas as tênues acrobacias.  

Tomou, levado por uma súbita inspiração, o rumo da Cidade Velha, saindo da Pedreiras, bairro de sua última morada. 

Antes, apreciou do alto o Ver-o-Peso, onde invariavelmente terminávamos a madrugada tomando caldo na baiúca de Dona Glória, sobrevoou o Porto do Sal e seus pecados, isento deles, puro lá em cima, enquanto o pó, o sangue, o suor e o esperma campeavam aqui em baixo. 

Medroso de ver tocada a fímbria de sua túnica pelos eflúvios que subiam do bairro, arrancou, célere, em direção às nuvens, aos astros, às constelações, ao céu que havia por trás das constelações, por trás do céu. 

De repente, no entanto, paralisado pelo pasmo e pelo terror, viu que alguma coisa – o quê? – não funcionava mais. Caiu, numa vertical não ortodoxa, direto sobre o negrume do asfalto.  Durante o trajeto, por indiscritivelmente rápido que este fosse, teve tempo de arrepender-se da bondade e da ternura e também renegar o sorriso, o velho companheiro de sempre. 

Em seguida, esborrachou-se, balofamente sólido, de encontro ao solo – massa sanguinolenta e ainda palpitante.

Por mera coincidência, passava, naquele momento, o último ônibus para a Cidade Velha.

 

          PS-  Minha homenagem à família e a todos os amigos que tiveram o privilégio de conviver com Samuel. Com atraso de oito anos, mas saudosa. 

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1 Comentário

  1. Juvencio de Arruda

    21 de dezembro de 2008 - 23:48 - 23:48
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    Tocante. Parabéns, mestre.

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