Os “galegos”, também, ajudaram a escrever os 100 anos de Marabá

Publicado em 16 de agosto de 2017

 

 

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Foto cedida por Hellem Silvia Amoury, neta de Youssef Salomon Amoury – nosso saudoso Zé Amoury.

 

Meu avô, Tufy Gaby, nasceu no Líbano, mais precisamente na cidade de Tiro, à beira do Mediterrâneo.

Veio para o Brasil quando nem completara ainda 12 anos, aportando, inicialmente, no porto de Santos, por volta de 1920.

Conseguiu a passagem, para atravessar o Atlântico,   como ajudante de porão de um velho navio.

Depois, esticou a viagem até Belém, vindo a ficar em definitivo, anos depois, em Marabá.

Ele juntou-se a dezenas de outros libaneses e sírios aqui já residentes.

A colônia, ao longo dos anos, cultivou hábitos alimentares e  comerciais.

Por causa deles, a cidade  teve grande parte de sua vida econômica alimentada pelo suor e trabalho dos chamados “galegos”.

Já contei aqui neste blog, a história de que foi meu saudoso Tufy quem praticamente me criou, e dele agradeço a mania  de fazer o neto praticar hábitos saudáveis como ouvir rádio, ao lado dele, ler jornais bem cedinho, se interessar pelos noticiários que ele sintonizava das emissoras libanesas e sírias

Não esqueço o prazer dos “galegos”, reunidos ao final das tardes, na casa de meus avós, na rua Marechal Deodoro, chamada também de “Marabazinho”, conversando em árabe.

Amava tudo aquilo, pequeno na minha infância.

Pena que não tenha aprendido a falar árabe.

A língua estranha de suas conversas seduzia meu curioso jeito de a tudo observar.

Mais sedutora, era a imagem de alguns dos integrantes da “Colônia Libanesa” usando trajes de suas culturas.

Vovô quase não usava turbante, se o vi alguma vez, o tempo  cuidou de esfarelar em imagens quase desconexas.

Mas a colônia sempre usava, turbantes e túnicas, quando se encontravam para o bate papo do final de tarde.

Achava  divinamente belo a forma como os amigos libaneses de meu avô ajustavam a vestimenta, que consistia em uma longa tira de pano, enrolada sobre a cabeça. Às vezes, amarravam de formas diferentes, e aquilo me intrigava.

Tempos depois,  já adulto, conversando com meu primo Bichara Gaby,  consagrado arquiteto paraense residente em Belém, filho do irmão de meu avô,  Chiclara  Gaby, ele matou minha curiosidade.

As inúmeras formas de amarrar o turbante na cabeça compõem uma linguagem: o turbante indica  a posição social, a tribo a que a pessoa pertence e até o humor naquele momento.

Na inocência de minha pré-adolescência, morando numa cidade totalmente isolada do mundo, que nos permitia praticamente ter apenas o rio como via de peregrinação, jamais imaginei que um dia, como hoje, lamentaria não ter uma máquina fotográfica para registrar tudo aquilo.

E não foi por menos que fiquei encantado, no almoço de sexta-feira, 5 de abril, na churrascaria Tertúlia, quando o advogado Plínio Pinheiro me mostrou uma fotografia de um libanês histórico, tradicionalmente vestido de árabe: “seu” José Amoury, um dos mais antigos integrantes da Colônia Libanesa marabaense, que viria morar em Marabá para exercitar a arte da pesca, formando bela família.

Seu Zé Amoury (foto) , pai de Salomão Amoury,  primeiro locutor do município, que desenvolve sua profissão até os dias de hoje, tocando um carro-volante de propaganda, preservou seus hábitos, enquanto pode fazê-lo.

Escrevendo na primeira pessoa ( estilo que não gosto), presto minha respeitosa homenagem ao saudoso Zé Amoury e, em nome dele, abraço todos os outros valentes e destemidos  “galegos” , que fizeram de Marabá sua terra natal-adotiva, muitos deles sendo enterrados aqui ou em Belém – como meu velho avô Tufy.

Os “galegos”, embora sofrendo porque distantes da terra natal, ajudaram a fincar tijolos, com muita determinação,  na construção dos 100 anos de Marabá.