Hiroshi Bogéa – O Brasil atravessa um dos momentos mais paradoxais e perigosos de sua história republicana. Enquanto as instituições formais operam sob uma aparente normalidade ruidosa, o tecido democrático é corroído por dentro por um Congresso Nacional que, hoje, se consolida como o epicentro de uma agenda reacionária sem precedentes no continente. O cenário atual não é apenas de oposição política, mas de uma contraofensiva institucional que visa desmantelar os pilares da justiça e da memória.
O domínio das pautas legislativas por bancadas historicamente ligadas a setores ultra-conservadores e, em casos sob investigação, a comandos milicianos, alterou a correlação de forças em Brasília. O que vemos não é o equilíbrio entre Poderes, mas uma tentativa de hegemonia sobre o Executivo e o Judiciário.
A resistência a indicações técnicas e republicanas para o STF não se baseia mais em notável saber jurídico, mas em uma medição de forças ideológica que tenta subjugar a Corte Suprema aos interesses de ocasião.
O movimento mais audacioso, contudo, ocorre na penumbra das comissões.
A articulação para derrubar vetos presidenciais que regulam a dosimetria das penas não é um debate jurídico abstrato. É uma estratégia deliberada para pavimentar o caminho de uma anistia velada. Ao flexibilizar punições, o Congresso envia uma mensagem clara: o 8 de janeiro não foi um crime contra a democracia, mas um percalço administrativo que pode ser perdoado.
A tentativa de anistiar os líderes da tentativa de golpe — incluindo a figura de Jair Bolsonaro — representa a institucionalização do esquecimento. Quando o Parlamento conspira abertamente contra o rigor da lei para proteger insurgentes, ele abdica de sua função de guardião da Constituição para se tornar um porto seguro para o autoritarismo.
O risco imediato é a criação de um precedente onde a tentativa de ruptura institucional deixa de ser um crime capital para se tornar uma tática política legítima, passível de perdão por conveniência parlamentar.
Apatia: o inimigo silencioso
O aspecto mais dramático dessa conjuntura, no entanto, não reside apenas nas cúpulas de poder, mas na base da pirâmide. O Brasil assiste a essa “barbárie institucional” em um estado de apatia profunda.
A ausência de vozes capazes de articular uma frente democrática ampla e popular é evidente. Os movimentos sociais e a oposição democrática parecem paralisados, incapazes de converter a indignação em mobilização de rua.
Para quem atua na linha de frente da informação e do pensamento crítico, o sentimento de “querer desistir” é um sintoma do isolamento. A luta contra o desmando parece, por vezes, um esforço hercúleo contra uma maré de desinteresse e desinformação.
A expectativa de reeleição dessas mesmas forças nas eleiçõe de 2026 reforça a tese de que a sociedade brasileira pode estar optando, pelo voto ou pela omissão, por um modelo de país que flerta com o próprio abismo.
A tentação de abandonar a luta e deixar que o país “se quebre” sob um novo ciclo bolsonarista é o último estágio do desespero cívico. Entretanto, a história ensina que o vácuo deixado pela desistência dos democratas é rapidamente preenchido pelo autoritarismo mais abjeto.
O projeto de uma nação humanizada não é uma construção de curto prazo, mas um processo de resistência constante.
O desafio do momento não é apenas denunciar o Congresso reacionário, mas reencontrar o fio da meada que reconecte a política institucional ao anseio popular por justiça e dignidade. Se as ruas silenciarem definitivamente, o rugido dos tratores legislativos terminará por soterrar o que resta desta República que até dia desses era chamada de Nova. (Foto: Reuters)



