O jeito humano de Neuton

Publicado em 23 de fevereiro de 2010

   – Perco o cargo, mas não desonro minha biografia de luta pelo direito à terra.

Foi mais ou menos com essa expressão que o ex-deputado estadual Neuton Miranda (PCdoB) reagiu ao ser alcançado pelo poster, em abril de 1996, numa entrevista sobre a saída dele da presidência da Cohab, depois da chacina na Curva do S, em Eldorado dos Carajás.

À época, publicávamos coluna no jornal Opinião.

Então auxiliar de Almir Gabriel, governador que determinou a retirada à força dos sem-terra da PA-150, culminando com o assassinato de 19 manifestantes, Neuton Miranda não pensou duas vezes em entregar seu pedido de demissão da Cohab, caracterizando, em ato explícito, sua indignação com as cenas de violência que ganharam o mundo, no maior escândalo ocorrido contra direitos humanos praticado por um governante paraense.

Presidência do PCdoB

Ano passado, o poster publicou na coluna do Diário do Pará, a seguinte nota: 

Quando a executiva estadual do PPS se reunir, próxima semana, para eleger sua nova diretoria, o deputado estadual Arnaldo Jordy deverá bater o recorde presidindo o partido, no Pará. Contando na ponta dos dedos, se aproximará de 20 anos à frente da legenda, após a renovação do atual mandato. Outro longevo dirigente partidário é o marabaense Neuton Miranda, presidente do PCdoB. Como se vê, os camaradas esquerdistas exibem belíssimos discursos de renovação partidária, desde que seja da porta pra fora.

Dois dias depois, além de nota enviada ao colunista por Vinicius Hesketh, esclarecendo que Neuton Miranda não havia mais de 20 anos presidindo o PCdoB, havendo algumas gestões sob a direção de Leila Márcia Santos e Socorro Gomes, o próprio Neuton, num telefonema demorado e recheado de suprema educação, pediu ao blogueiro para não ser exposto como mandatário de duas décadas, já que aquilo não condizia com a verdade.

Solicitado para que ouvisse o pôster ler o teor da nota publicada (acima), Neuton admitiu exercer forte influência nas decisões do partido, mas que havia voltado para presidi-lo devido a sua experiência para manter a unidade do PCdoB após a saída de Paulo Fonteles e Sandra Batista.

Em nenhum momento, durante o bate-papo pelo telefone, o líder comunista levantou a voz ou proferiu expressões de exasperação. Ao contrário, disse que o surgimento de novas lideranças era uma de suas preocupações para que a chama da luta pelas liberdades e direitos humanos continuasse acesa.

Bandeira comunista

Na caixa de comentários, anônimo conta também um pouco de como pensava Neuton para revigorar o ideal comunista, sem sectarismo:

“Não ao esquerdismo.Tal inclinação, nos leva ao debate estéril.É preciso fortalecer o PC do B, nos pautando por alianças pontuais e estratégicas. A globalização torpedeou a legenda no mundo todo.Ser comunista, deixou de ser um propósito. Da bandeira, fica a luta por justiça social,pela qualidade de vida,pela dignidade humana”, trecho de um discurso de Neuton Miranda, morto em pleno trabalho nas barrancas do Tapajós. Ironia do destino, em terras que pertenceu a Henry Ford, Belterra, ícone do capitalismo, exemplo de apropriação do capital e da mais valia.