O cabrito, o garçom e algumas considerações filosóficas

Publicado em 23 de agosto de 2011

 

 

Não sou religioso. Mas faço algumas coisas religiosamente. Dentre as quais, vou ao Capela da Lapa, comer cabrito com arroz de brócolis, todas às vezes que visito o Rio.

O Capela é mais que um restaurante. O nome faz-lhe justiça: naquele lugar não há clientes, há crentes. Nós, os freqüentadores d´O Capela, rezamos. E com esta conclusão, desminto-me solenemente: eu sou religioso!

Quando adentrei aquele pequeno salão pela primeira vez, corriam dias do ano de 1984. Fomos uma turma, depois de uma reunião do Comitê Pró-Diretas. Ao abrir aquela pequena porta, a Avenida Mem de Sá transformou-se na Praça de São Pedro. E nós, fiéis, ficamos inebriados.

Neste momento crivou-se em meu sistema nervoso central uma referência olfativa única e perene. Uma singular mistura de odores. Basta abrir o “templo epicurista” para que toda a cozinha d´O Capela chegue ao mundo de asfalto. Um sopro divino, então, envolve os pagãos.

Quando repito a liturgia, aquele primeiro dia me vem à cabeça. Aliás, vinha à cabeça, porque na penúltima vez que fui ao Capela algo na magia do lugar havia se modificado definitivamente. Neste dia, contrariando vinte sete anos de tradição, não fui recebido pelo “Dom” José, o “cardeal” dos garçons.

Por quase três décadas sentei-me à mesa à esquerda do salão – cujas dimensões são de uma modéstia monástica – sempre conduzido por José, um cearense que aportara no Rio, e desde então aprendera a arte do servir. Um enfarto fulminante matou-nos. A ele, clinicamente; a mim, etereamente.

Naquela noite, comi cabrito e bebi chopp com Steinhaeger em homenagem ao José, mas, confesso, nada desceu bem. O substituto foi simpático; contou o ocorrido; deu detalhes e serviu-me corretamente. Mas nada consegue animar uma alma destroçada. Naquela noite cometi outro pecado: tive raiva do pobre do garçom. – O que aquele cara estava fazendo ali, cuidando da praça que por toda uma vida foi do outro?

José morrera uma semana antes daquele dia, e todos ainda estavam impactados. Afinal, naquele lugar nada é novo, e velhice é sinônimo de cumplicidade. Tudo ali foi construído por décadas. Há n´O Capela garçons com mais de 40 anos de serviço na casa, e todos haviam sido surpreendidos com a notícia, algumas horas depois de terem partilhado os últimos momentos de vida do Zé. É como diria meu pai: para morrer basta estar vivo. Meu velho tinha inclinações filosóficas.

Por falta de oportunidade, voltei apenas uma vez ao Capela da Lapa depois da fatídica notícia. Marquei com amigos da confraria de freqüentadores do lugar. Cheguei cedo. Sentei-me à mesma mesa. Sozinho, enquanto esperava a turma, pude produzir meu filme alla Tornattore.

Fiz com os olhos uma panorâmica do salão. Estavam todos lá. A mesma mistura de tribos que sempre freqüentam a casa. São artistas, escritores, muitos jornalistas, profissionais liberais e uma turma jovem e renovada que garante o moto-contínuo da história. Observei as paredes repletas de prêmios e notícias de jornais que fazem justiça ao restaurante. Um dos proprietários estava no mesmo lugar de sempre, próximo àquela porta vai-vem que separa o balcão do salão. Ele continua com a mesma cara do Amigo da Onça: cabelo engomado, bigode simetricamente aparado, calça impecavelmente alinhada à cintura; um clássico!

Minha câmera imaginária, depois de percorrer todas as entranhas do lugar, voltou-se ao ponto de partida, flagrando-me em profunda reflexão: – tudo aqui dá sinais de que o tempo nunca envelhece. Mas, no fundo, sem o José do Ceará, o Capela não é mais o mesmo.

Como podem notar, herdei do velho as inclinações filosóficas.

PS: Apesar das indeléveis mudanças, n´O Capela da Lapa o cabrito continua ótimo!

 

Texto: Cláudio Feitosa, Secretário de Cultura de Parauapebas