No meio do rio Guamá

Publicado em 24 de outubro de 2011

 

 

As águas dos rios Araguaia e Tocantins, suas praias e igarapés afluentes, fazem parte de um mundo inapagável na memória do poster.

Desde menino, a partir dos cinco anos virando “piaba” mais que destemido quando aprendia a nadar, os encantos ribeirinhos já atiçavam aventuras e ousadias no menino de ribanceiras.

Impossível pensar em prazeres juvenis sem as curvas e o sobe e desce das águas de nossos rios.

Sábado passado, cruzando todo o dia as água do rio Guamá, percorrendo “furos” e ilhas que circundam Belém foi que entendemos perfeitamente o quanto a capital paraense padece da falta de acesso ao dia a dia ribeirinho.

Uma cidade cercada de águas, cruzada por igarapés que sofrem  tortura ambiental pelo desprezo de sua população, não pode viver eternamente voltada para seus esgotos.

Revoltante imaginar Belém distanciada de tanta beleza.

Do outro lado da cidade, na ilha do Combú, o lugar não se resume aos seus barzinhos constantemente lotados – Saudosa Maloca e Portal da Ilha.

Os pequenos igarapés e “furos” cortando a ilha preservam a simplicidade das famílias marajoaras.

Guarás e garças sobrevoando o verde intocado ainda existente.

Na Saudosa Maloca, imperdível conversar com o Zé (foto), simplesmente Zé. Um septuagenário residente no local desde o início dos anos 50.

Residindo na Saudosa Maloca, construída  “pau-a-pique”, como ele diz, já se vão quase 40 anos.

Causos inéditos de personagens importantes da vida de Belém, ele conhece. E conta com a autenticidade dos ribeirinhos.

Histórias interessantes da vida boêmia do velho Rômulo Maiorana, no auge do poderio editorial do jornal O Liberal, de quem o dono da Saudosa Maloca foi amigo.

Hoje, Zé conversa mais do que trabalha. Ou apenas anima conversas junto a visitantes de sua tradicional casa. O duro do batente ficou por conta da filha, formada em turismo.

Num fim de tarde, quando as primeiras estrelas surgem no céu, olhando Belém da Combú, as imagens se embaralham: parte é civilização, parte é a selvagem entranha de uma vegetação em sintonia com as águas – constantemente molhada.

Misturam-se luzes artificiais e o reflexo do belo sol no poente.

Caminhos e estradas de águas que nos levam até ali, fazendo enveredar para a literatura. Momento de pura literatura.

Muitos dos pontos da Combu, pessoas e histórias ainda resistem ao tempo e mantêm a essência de sua beleza.

É naquele mundo de águas que o valente ribeirinho encontra refletido seu mundo interior.

As veredas, locais alagadiços, com vegetação abundante e obrigatória presença de água, é um lugar comum. Oásis para ilhéus que, para identificá-los, basta procurar nos açaizais entre a vegetação.

O rio Guamá, apesar de sujo, pode fazer Belém apressar seu futuro com melhor qualidade de vida

Basta sabê-lo usar. E admirá-lo, com o respeito que merece.

 

 

Visto do meio do Guamá, conjunto harmonioso de resíduos históricos da Belém quase quatrocentos anos.