No Ano Novo, a reforma ortográfica

Publicado em 30 de dezembro de 2008

Você é um daqueles que têm dificuldade para utilizar o trema, não sabe onde e quando colocar um hífen, nunca ouviu falar em hiato, homógrafas abertas e acento diferencial? Se for o caso, não desanime, afinal, você faz parte da imensa maioria da população brasileira que não domina a própria língua falada, quanto mais a escrita.

Como diria um reclame das Organizações Tabajara “Seus problemas acabaram! Vem aí a reforma ortográfica para cumprir a missão de alterar boa parte de tudo aquilo que você ainda não aprendeu totalmente!”

Todo mundo – ou a grande maioria das pessoas – já está sabendo que tudo isso é conseqüência (êpa, consequencia, a partir da próxima quinta-feira, não leva mais trema!) de anos e anos de discussão dos integrantes da chamada Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), defendendo a unificação das ortografias do idioma pátrio. Salvo engano, a transação vem desde 1980, quando as Academias de Letras do Brasil e Portugal começaram a trabalhar em torno do assunto.

Foram 28 anos de idas e vindas, até que Lisboa aprovou as mudanças, ano passado. Lula, pelo Brasil, assinou o decreto para a implantação do novo acordo em setembro último, dia do centenário do escritor Machado de Assis.

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, elaborado para uniformizar a grafia das palavras dos países lusófonos, ou seja, os que têm o português como língua oficial, entrará em vigor dia 1º. de janeiro de 2009. Quinta-feira!

Os objetivos das mudanças visam facilitar o intercâmbio de informações, aproximar as oito nações da CPLP (Portugal, Brasil, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor Leste e Cabo Verde), reduzir os custos de produção e adaptação de livros e facilitar a difusão bibliográfica de novas tecnologias, bem como simplificar algumas regras (que suscitam dúvidas até entre especialistas).

O português, fluído por algo em torno de 210 milhões de pessoas, é a quinta língua mais falada no mundo. Como tem duas grafias oficiais, seu estabelecimento como um dos idiomas da ONU fica dificultado.

Com as alterações adotadas, a lógica pressupõe facilitar o intercâmbio cultural entre os países que falam português. Livros, inclusive os científicos, e materiais didáticos poderão circular livremente entre os países, sem necessidade de revisão, como já acontece em países que falam espanhol. Além disso, haverá padronização do ensino de português ao redor do mundo.

Um dos principais problemas que as novas regras vão acarretar, no entanto, será o custo da reimpressão de livros.

Além da unificação da grafia, o acordo propõe simplificar o idioma, no mesmo espírito do que ocorreu na década de 1910, quando uma reforma semelhante alterou o modo de escrever palavras como pharmacia e christallino (para farmácia e cristalino, sem o ph, o ch e o ll). Na época, porém, as mudanças foram encabeçadas por Portugal, que não consultou o Brasil e acabou aprofundando algumas diferenças ortográficas. Aqui no Brasil, a última grande reforma do idioma foi realizada em 1971, a fim de aproximar mais nosso jeito de escrever do de Portugal

Se a proposta do MEC for cumprida, todos os textos produzidos a partir de 2009 terão de ser impressos segundo as novas regras lingüísticas. Os brasileiros teremos quatro anos para dominar as novas regras. Durante esse tempo, tanto a grafia hoje vigente como a nova serão aceitas oficialmente.

A partir de 2010 os alunos de 1º a 5º ano do Ensino Fundamental receberão os livros dentro da nova norma – o que deve ocorrer com as turmas de 6º a 9º ano e de Ensino Médio, respectivamente, em 2011 e 2012.

Vestibulares, concursos e avaliações poderão aceitar as duas grafias como corretas até 31 de dezembro de 2011. Quanto aos livros didáticos, deve haver um escalonamento. A partir de 1º. de janeiro de 2013, a grafia correta da língua portuguesa será a prevista no Novo Acordo.

Nós que vivemos pendurados ao computador, cabe a pergunta: o que vai acontecer com o corretor ortográfico dos programas de textos? Os fabricantes já estão pensando no problema. A Microsoft, por exemplo, trabalha para adequar o corretor ortográfico do Pacote Office às novas regras. Segundo a empresa, os usuários não terão de pagar nada a mais por isso, pois a atualização poderá ser “baixada” pela internet. E o que acontecerá com os dicionários? As editoras que publicam os principais dicionários da Língua Portuguesa no Brasil já lançaram edições reduzidas de seus livros com a nova ortografia.

O acordo prevê simplificações, mas tem inúmeros pontos obscuros, que só serão esclarecidos com o lançamento de gramáticas atualizadas e um novo Vocabulário Ortográfico oficial (tarefa a cargo da Academia Brasileira de Letras). O professor Pasquale Cipro Neto é um dos que se manifestaram contra o documento. “Ele não se limita a uniformizar a grafia: estabelece outras alterações no sistema ortográfico, várias delas para pior.”

Polêmicas à parte, o que muda, afinal?

Para nós, brasileiros, muito pouco em relação aos nossos patrícios de além-mar.

Aqui vai um resumo das principais mudanças para os brasileiros:

Fim do trema – para quem nunca reparou são aqueles dois pontinhos que ficam sobre o 6 no teclado do computador.

Antes: lingüiça, tranqüilo, cinqüenta.

Agora: linguiça, tranquilo, cinquenta.

Hífen do esquecimento – aquele que quase ninguém sabe quando utilizar em palavras compostas. Ele some em palavras que o falante percebe como uma só.

Antes: pára-quedas, pára-raio, manda-chuva.

Agora: paraquedas, pararraio, mandachuva.

Agora iguais – caíram alguns acentos que diferenciavam palavras com a mesma grafia.

Antes: pára (verbo)
Agora: para

Antes: pêlo (substantivo)
Agora: pelo

Degola pelo alto – várias paroxítonas vão perder seu acento.

Antes: idéia, jibóia – crêem, lêem – enjôos, vôos.

Agora: ideia, jiboia – creem, leem – enjoos, voos.

Simples, não? Antes fosse! Quase ninguém ainda tem idéia de quanto isso vai mexer com a cabeça dos brasileiros e, pior ainda, com a dos portugueses, a ponto de fazer dilatar o olho cego de Camões! Felizmente, línguas são metamorfoses ambulantes, moldadas pelas necessidades dos usuários – não pelas regras gramaticais. Brasileiros de hoje dificilmente se entenderiam com os do ano 2500 – ou com os portugueses de 1500. Palavras nascem, crescem ou se encurtam, se combinam, mudam de sentido e de pronúncia e, um dia, morrem.

Indicamos as seguintes fontes, para quem quiser se aprofundar no assunto:

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http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/Esp_021/aberto/novo-jeito-escrever-306810.shtml

http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/novas-regras-lingua-portuguesa-349895.shtml?print

http://www.abril.com.br/reforma-ortografica/index.shtml