Nas ondas do rádio

Fazia tempo este poster não sintonizava uma estação AM de fora do Estado. Sem sono, nesta madrugada, o velho hábito construído nas noites amazonidas foi reativado. Com dificuldade, o dial firmou numa emissora do Nordeste que tocava somente músicas regionais. Que sensação prazerosa, querendo dormir sem conseguir, e o som da estação indo e vindo embalado pela voz de Luiz Gonzaga.
Rádio só presta ouvir do jeito que voltei a ouvir: chiadeiras, de repente o som vai fugindo, fugindo, parece não voltar, mas aos poucos vem, e com seu retorno passando a sensação de bem estar na alma.
Foi tão gostoso que preferi brigar com o sono quando ele ensaiou dominar os sentidos. Tava bom demais ouvir Gonzaga, Quinteto Violado, Jackson do Pandeiro xaxando “Sebastiana” (quem gosta vai ficar com inveja); e não sei quem entrou (voz de mulher, parecia Marinêz – os mais novos nem sabem por onde começar!) cantando “Menino de Braçanã”, da dupla Arnaldo Passos/Luiz Vieira.

“É tarde, eu já vou indo / preciso ir embora / até amanhã / mamãe quando eu saí disse: filho,não demore em Braçanã..”


Já era tarde. Ou cedo? E eu pensava estar no meio da mata às margens do rio Vermelho, debaixo de um barraco ouvindo o barulho de chuva caindo sobre a palha, enquanto da cozinha, iluminada por lamparina, vinha o cheiro inesquecível do café feito pelo pai João Bogéa.
O sono chegou e não ouvi o final de uma toada em ritmo de maracatu cantada também não sei por quem.

“Vai boiadeiro que a noite já vem / Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem…”