Hiroshi Bogéa On line

Mulher, a leveza de existir

Bonita ou feia, toda mulher é bela. Dizem até que mulher linda demais é perigosa – maravilha e enlouquece ingênuos em noitadas de amor ou em ciladas de tormentosos vícios.

Homens com olhos normais não sabem vê-las. Não entendem a assinatura de Deus no infinito feminino. Ingênuos humanos, acham que elas são iguais a tantas outras coisas do Universo.

Na Vila Ponta de Pedras, a 25 km de Marabá, assentamento transformado numa pequena cidadela com mais de 500 moradores, dona Anastácia bate o pilão. Ao seu lado, estou tentando provocá-la, saber da vida feminina na labuta diária da agricultura de subsistência. Não tenho tempo nem de perguntar sua idade porque ela se avexa:

– Eu já tenho 52 anos, oito filhos e duas netas. Vivo com o mesmo marido desde 1971,e minha vida foi sempre assim. Acordo cinco da manha mas durmo cedo. Perto das oito da noite já estou na rede dormindo. Aquio todos dormem cedo.

Na vila caipira, faz um calor daqueles, a tarde vira uma imensidão de tempo na qual nada se move. Nem o ar. E estamos em pleno inverno. Calor de inverno apoquenta mais do que no verão.

A casa é simples, paredes sem reboco, um cachorro vira-lata e feliz sucumbe à hora da sesta. No quintal, sob um pé de limão, Anastácia fala desbocada, alegre, risonha, também feliz igual a seu cão.

– Não é preciso ser professor para perceber a preguiça dessa gente do ‘mato’. O senhor pensa que todos trabalham como eu?! Longe disso. Tenho vizinha aqui que só sabe pedir café e arroz emprestado. Não faz como eu que vou pra juquira cedinho com o meu “véi”. As pessoas não são realistas. Elas ficam assuntando sonhos demais e depois, ao perceberem que não vão nunca atingir o que sonham, começam a desanimar e então criam desculpas para seu fracasso. Aqui já teve mais de vinte famílias que largaram seus lotes, venderam pra outros e nunca mais voltaram.

Ao lhe perguntar sobre o Dia Internacional da Mulher, minha bela amiga dispara:

– Até me chamaram pra ir pra São Geraldo do Araguaia participar da festa que o sindicato (Sindicato dos Trabalhadores Rurais) vai fazer. Mas eu não sei ficar no meio de frege, todo mundo bebe demais, na volta tenho medo de acidente na estrada. Mas eu acho bom. A mulher tem que se valorizar, brigar pelo seu espaço. O mundo não é justo, eu sei, mas quem fica revoltado por isso e vai chorar na cama que é lugar quente, nunca chega aonde quer. Ninguém conquista tudo que sonha, vai a todo lugar que quer, é correspondido por todos a quem ama, aprende tudo que estuda ou possui tudo que ambiciona. Eu sei que não posso ter um carro, eu e meu marido. Pra que vou sonhar em ter um carro? A mulher tem que lutar, só isso. Lutar mesmo.

Nem lendo Dostoievski se entenderá porque dona Anastácia é assim.

Ela faz parte desse mistério que cerca o mundo feminino. Como resmunga Bob Dylan em um de seus versos: “Você nasceu com uma serpente em cada um de seus punhos enquanto soprava um furacão”.

Essas mulheres, assim mulheres. Porque mulheres.

Mulher sestrosa, às vezes escancaradamente indecorosa, em cujos pecados amantes se encontram. Porque é preciso amá-los: Pecados e Mulher. Mesmo sabendo de seus perigosos caminhos, insidiosos atalhos, às vezes iluminados de noite ou apagados no dia.

Assustadoramente antítese da lógica.

No Rio de Janeiro, dividi quase cinco meses o aluguel de um apartamento com um amigo baiano chamado Leonizar. Um dia, ao chegar à noite abatido pelo término do namoro com uma garota com quem estudava, escreveu à giz no quadro negro que tínhamos na sala:

“Quem nunca viu de tão perto uma mulher, e idealiza sua beleza exposta, tem um pé atrás do otimismo, achando que ela é bandida, traiçoeira como sereia que canta e encanta para atrair marinheiros desavisados”.

Quem melhor fala delas é Vinicius e Chico. Talvez por que num tempo em que foram, também, a dose certa do universo feminino.

Tê-las na mira e poder tocá-las, ainda que rapidamente, é sentir na memória da palma da mão o gosto indescritível da textura cálida e o calor de uma chama estelar.

Diante da Mulher, nada de ‘apressar o mundo’. Jamais deixá-la de molho.

Martinho da Vila diz que já amou todas as mulheres.

Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira felizJá tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz

Na musicalidade belíssima dos versos de nosso sambista Maior, algumas feministas detectaram preconceito. Ensaiaram até um processo contra Martinho. Não entenderam a alma do poeta.

O contrasenso aí, das feministas, é certo.

Mulheres sempre despertam sentimentos contrários, confusos e inseguros. E as regras não são simples para entender o mistério.

É bom ter sempre um mapa à mão, mas apenas como indicativo. Mapear a fêmea, é tarefa inconclusa.

A Coisa mais linda que Deus construiu.

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2 Comentários

  1. Hiroshi Bogéa

    10 de março de 2008 - 00:37 - 0:37
    Reply

    Cris, você também tem um lugarzinho aquilo ao lado esquerdo do peito.
    Em seu nome, Viva as Mulheres!
    Abs

  2. Cris Moreno

    9 de março de 2008 - 17:22 - 17:22
    Reply

    Caramba, fiquei emocionada. Obrigada. Você é demais, mesmo! Estás em meu coração!

    Beijos.
    Bom domingo.

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