Hiroshi Bogéa  – A ordem natural das coisas traz uma promessa implícita, um pacto silencioso que assinamos ao colocar um filho no mundo: nos cabe ir primeiro. Somos nós, os pais e avôs, que deveríamos abrir o caminho para o desconhecido, deixando para trás a certeza de que a vida continua pulsando nos passos daqueles que geramos. Quando essa ordem se rompe, o mundo sai do eixo. A gramática da vida perde o sentido, porque não existe palavra na língua portuguesa para definir a dor de um pai que precisa enterrar o seu próprio filho.

A notícia que vem da estrada vicinal 14, nas proximidades da Vila Cajazeiras, às margens da BR-230, município de Itupiranga, corta como lâmina afiada. Quatro jovens tiveram suas vidas ceifadas de forma abrupta, e um quinto luta pela sobrevivência após uma trágica descarga elétrica.

Não eram jovens perambulando pelo perigo ou pela irresponsabilidade; eram meninos e meninas reunidos em um acampamento da Igreja Católica, com os corações aquecidos pela fé, dedicados a propagar a palavra de Jesus.

Jovens que ofertavam o vigor da sua juventude para construir um mundo mais humano, amoroso e esperançoso.

É essa ironia cruel que torna o desespero ainda mais sufocante. A vida nos acena com surpresas doces, mas, num piscar de olhos, nos golpeia com o absurdo.

Como assimilar que o mesmo zelo em buscar a Deus culminou em uma partida tão precoce e devastadora?

Neste exato momento, enquanto estas linhas são escritas, lares estão mergulhados na penumbra do luto. Pais e mães vivem o pior pesadelo realizável: o preparativo para o adeus definitivo, a roupa que não será mais vestida, o quarto que se tornará um templo de memórias, o abraço que ficou pendente.

Há um choro que ecoa naquelas casas que nenhum conselho humano é capaz de estancar.

Como pai e como avô, trago o peito apertado.

Olho para os meus e sinto a dimensão exata do abismo que se abriu sob os pés daquelas famílias. É uma dor que se sente por empatia, por amor, por humanidade.

A tragédia nos lembra da nossa assustadora fragilidade, mas também da urgência de nós nos solidarizarmos com o sofrimento do outro.

Às famílias atingidas por essa tempestade devastadora, não há palavras que curem, mas há uma prece sincera que se levanta dos nossos corações. Que a fé que esses jovens tanto professavam possa, de alguma forma inexplicável, ser o sustento para quem fica.

Rogamos por consolo, por força e pela recuperação do jovem que ainda batalha pela vida.

Que o silêncio da terra, hoje tão pesado na BR-230, encontre acolhimento no mistério da eternidade. E que a memória desses jovens permaneça viva como luz para os que agora precisam aprender a caminhar na escuridão da saudade. (Foto: Reproduzida do Correio de Carajás)