Hiroshi Bogéa On line

“Minha vida por um seio me pareceu uma troca excelente”

 

 

Desenvolvendo a campanha “Outubro Rosa”, que visa o combate ao câncer de mama, a  Marie Claire está publicando uma série de reportagens com  mulheres vítimas da doença, e o que tem eles tem feito para encarar a enfermidade.

O depoimento da recifense Andrea Gorenstein, de 37 anos,  diagnosticada há cinco anos com câncer e obrigada a retirar uma das mamas, serve como pano principal para se refletir cada vez mais sobre a extensão dessa doença perversa.

Atualmente, Andrea  tenta fazer a mesma cirurgia da atriz  Angelina Jolie (mastectomia profilática), esbarrando na pavorosa burocracia.

O blog reproduz o testemunho da jovem senhora, abrindo espaço para a contribuição de nosso site à campanha “Outubro Rosa”.

O texto é longo, mas compensador – sua leitura.

Não apenas mulheres deveriam lê-lo, mas os marmanjos que às vezes não levam muito a sério investir um pouco na saúde de suas companheiras – sejam casados ou namorados.

Cuidem de suas fêmeas com o cuidado que todas elas merecem!

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Cancer“Eu tinha TPM e, nesse período, as mamas ficavam inchadas. Só que daquela vez foi diferente. Tinha parado a pílula depois de 17 anos de uso contínuo e atribuí aos hormônios o fato de sentir as mamas tão doloridas. Coloquei um sutiã mais firme e esqueci. Dois dias depois, no meio da noite, senti uma mama muito dolorida. Ao apalpar, percebi um volume enorme, que tomava 3 quadrantes do seio esquerdo. Fiquei em pânico e acordei meu então marido, torcendo para que ele dissesse que não sentia nada e me acalmasse. Não foi assim. Ficamos os dois muito preocupados. Pela manhã, ele ligou para médicos da família e conseguiu um encaixe com um bom ginecologista no mesmo dia. À tarde, o médico me tranquilizou, explicando que o fato de o volume ter surgido subitamente, ser grande e doer falavam em favor de um cisto – ou seja, uma concentração de líquido, sem células no interior. Tumores malignos, em regra, seriam pequenos, indolores e teriam crescimento lento. Expliquei que tinha histórico familiar de câncer de mama e ele disse que eu não me preocupasse com isso, porque era muito nova para apresentar a doença. Saí do consultório tranquila. Todos os meus exames reforçavam essa confiança. O ultrassom confirmava a tese do cisto.

A mamografia já mostrava que não era um cisto, mas um nódulo com todas as características de benignidade. Naquela primeira noite, já estaria em um estágio IIIB, de quatro estágios possíveis. O diagnóstico só veio dois meses depois. Não bastava ser, de fato, um câncer, mas ele já estava localmente avançado e era particularmente agressivo. Tudo soa muito irreal, mas essa é a história mais comum entre as pacientes jovens. Em regra, desenvolvemos um câncer mais agressivo e a descoberta ocorre em estágios mais tardios. Perguntei para o médico se valeria à pena congelar meus óvulos. Ele disse que sim, se houvesse tempo – mas não era esse o meu caso. O tumor já media 8 cm.

Em virtude do tamanho, iniciaríamos o tratamento com a quimioterapia. Em seguida, eu faria uma mastectomia radical e, por último, radioterapia. Após a segunda sessão de quimio, meu tumor regrediu de 12 cm para um estágio que era impalpável. O ultrassom não mostrava nenhum traço do tumor. Diz-se que, quanto mais agressivo o câncer, melhor a resposta à quimio. Dei muita sorte e tenho consciência disso. A cirurgia, para mim, girava mais em torno da biópsia da mama, porque isso afetava a minha expectativa de sobrevida. Isso era mais importante do que a mutilação. Não quero minimizar o impacto da remoção do seio, que é algo difícil, mas ter a clareza do que estaria ganhando algo muito importante em troca da mastectomia colocava as coisas em perspectiva. Minha vida por um seio. Parecia uma troca excelente.

A CIRURGIA

Saí da sala de cirurgia com um expansor de pele, que proporcionava o mesmo volume da mama retirada. Uma semana depois da mastectomia, já estava usando decote normalmente e acompanhando amigos no show do Iron Maiden. Posteriormente, o expansor foi contaminado, tive duas infecções generalizadas, fiquei 28 dias internada e passei por duas cirurgias para retirá-lo. Dei festa de aniversário na unidade de terapia semi-intensiva. Sem o volume dado pelo expansor, tive que reaprender a me vestir. Não reconstruí a mama até hoje. Normalmente, saio de casa sem prótese alguma. Gostar de moda ajuda. Tops estampados ou com detalhes na altura do busto e o uso de colares e acessórios dissimulam a ausência da mama. Poucas pessoas percebem. E não tenho motivo algum para me envergonhar do meu corpo.

Ao fim dos ciclos de quimioterapia, meu oncologista resolveu que era o momento adequado para uma conversa franca. A quimioterapia era a minha única alternativa de tratamento, não havia opção medicamentosa de prevenção de metástase para o meu tipo de câncer e meu risco de recorrência era alto. Não era algo fácil de digerir, mas sou eternamente grata a ele por me dar a oportunidade de encarar a minha situação de frente. Tenho consciência de que minhas chances seriam ainda menores no sistema público de saúde e que ter acesso a um bom plano e excelentes médicos foi determinante para a minha sobrevida. Estou em terapia desde o início da químio, mas é para o meu oncologista a quem recorro nos momentos difíceis. É um grande privilégio ter um médico que te ouve, respeita e busca o que é melhor para cada paciente, respeitando sua personalidade, seus valores, seus desejos. Juntos, decidimos que fazer exames preventivos a cada 3 meses era uma rotina massacrante e que me deixava profundamente ansiosa. O melhor médico não é necessariamente o mais titulado. O melhor médico é aquele com quem você pode conversar abertamente. Encontrar as duas qualidades no mesmo oncologista é um golpe de sorte. Sei que conviverei por toda a vida com essa situação e que o temor da reincidência é uma constante na vida de todos os sobreviventes da doença.

FEMINILIDADE EM PAUTA

Sabe quem foi fundamental para me ajudar a lidar bem com a transição do tamanho do meu cabelo, que eram nos ombros, para nenhum fio? Meu cabeleireiro. Ele me propôs que fossemos cortando gradualmente, para eu nao sofrer com o choque. Cortei três vezes até chegar num chanel bem curtinho. Naquela noite, fui para a casa de uma amiga com uma mala cheia de roupas, perucas, adereços. Ela montou um estúdio fotográfico na sala, pusemos Madonna pra tocar e eu fiquei brincando de me fantasiar por horas, enquanto ela clicava. Ao final, fui me despindo enquanto cortava o cabelo. Terminei a sessão com todas as roupas e os cabelos no chão. Foi uma farra tão grande que, naquele dia, eu nem chorei. Acho que perder a sobrancelha me doeu mais: eu tenho que desenhar até hoje e elas me fazem muita falta.

COMO LIDAR

Quando soube que tinha câncer, não conseguia acreditar no que estava ouvindo e sucumbi ao desespero. Naquela hora, liguei para a minha avó, uma pessoa que passou por muitas situações difíceis na vida e nunca perdeu a alegria. Ela disse aquilo que marcou todo o meu tratamento: “querida, tu sabes que isso é muito comum na nossa família. Nos últimos 20 anos, as pessoas sobreviveram. Então, tu vais ter que passar por isso – mas, tu podes passar por isso bem ou mal. E essa escolha é só tua. Passar bem pelas situações é sempre mais fácil”. Claro que há os momentos de medo, de desespero, de desolação, mas tento me recompor. Não é uma opção pelo heroísmo. É porque sempre prefiro trilhar os caminhos mais fáceis e rir da situação facilita tudo. Todos enfrentamos dificuldades de alguma ordem: alguns sofrerão acidentes de trânsito, outros terão diabetes, alguns terão câncer. Pertenço ao grupo étnico com maior risco para desenvolver câncer de mama, pois sou judia ashkenazi por ambos os lados da genealogia. Os dois lados têm histórico de câncer de mama. Uma tia estava no fim do tratamento quando fui diagnosticada. Dois anos depois, outra tia teve câncer de mama. Não dava para me sentir particularmente injustiçada pelo universo. Não temos tabu ou dificuldade alguma de falar sobre mastectomia, plásticas, próteses – porque, de fato, não há qualquer motivo para se envergonhar.

Confesso que não gosto muito do discurso “o câncer me tornou uma pessoa melhor”. Essa doença não é um bom negócio para ninguém! Não seria razoável seguir fazendo projetos de felicidade pensando numa aposentadoria remota. Nunca me senti uma escolhida de Deus, aquela que sobreviveria, contra tudo e contra todos. Mas o fato é que, das pessoas que fizeram quimioterapia comigo, só eu ainda posso contar minha história. Não dá para pensar somente em onde estaremos em vinte anos. Não dá para pensar onde estarei no Carnaval. Mas pensar no Natal é factível e eu pretendo estar feliz quando ele chegar. Essa redução dos prazos implica em fazer investimentos de curto prazo para a sua felicidade.

 

NOVOS RISCOS

Meu risco é bem mais elevado que o da Angelina Jolie e queria fazer o procedimento, sobretudo porque já tive câncer de mama e esse é o fator de maior probabilidade para desenvolver a mesma doença na outra mama. Ocorre que as situações que levam à cirurgia redutora de risco não estão regulamentadas no Brasil e isso dificulta bastante a vida de quem está no grupo restrito para quem o procedimento é indicado. Meu plano de saúde, por exemplo, recusou cobertura para a retirada da segunda mama – embora um novo tratamento seja imensamente mais caro do que uma mastectomia profilática bem indicada. Muitos cirurgiões que concordam com a indicação da mastectomia, no meu caso, preferem não fazê-la, em função do vácuo normativo. Estou numa posição em que a retirada da outra mama foi unanimemente recomendada e não tenho encontrado meios para fazer a cirurgia através do meu plano de saúde, que é considerado dos melhores. Isso é exasperante.

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