Manoel Veloso: – “Após 22 anos de profissão, estou preparado para atendimento aos nossos concidadãos, seja na clínica privada ou pública”.

Publicado em 19 de junho de 2012

 

O cardiologista Manoel Cláudio Veloso é filho do ex-prefeito de Marabá, Geraldo Veloso, que morreu quando iniciava o segundo mandato de uma reeleição que lhe consagrou com um dos prefeitos mais queridos do município, em todos os tempos.

Depois de passar quase dez anos no Sul do país, mais precisamente residindo e trabalhando em Curitiba, Manoel  retornou à terra natal acompanhado da família, para dar prosseguimento à luta que seu pai,  médico pioneiro do antigo Sesp, Serviço de Saúde Pública Federal, dedicou a favor da saúde da população do município.

O cardiologista está montando sua clínica, na Cidade Nova, onde pretende dedicar-se, além de atender pacientes em unidades clinicas públicas.

A seguir, entrevista que Manoel Cláudio Veloso concedeu ao blog, falando de uma série de questões na área de saúde.

 

Quais são as principais doenças do coração? 

As doenças cardiovasculares que afetam tanto o coração quanto os vasos sanguíneos (veias e artérias) classificam nosso país entre os 10 mais na incidência destas doenças. O infarto do coração, a insuficiência cardíaca e a pressão alta são as mais importantes.
O que se pode fazer para evitar essas doenças?

Adotar um estilo de vida que priorize a atividade física e a alimentação saudável, reduzir as situações estressantes, abandonar o cigarro, reduzir a bebida alcoólica e se informar sobre seus fatores de risco.

 

A incidência do infarto agudo do miocárdio é de quatro a cinco vezes mais comum nos homens e pessoas com mais idade. Por quê?

Não é mais realidade a grande diferença de infartos entre homens e mulheres. Na década de setenta em um grupo de dez infartados, um era mulher. As estatísticas atuais demonstram que para cada grupo de dez, hoje são quatro mulheres. As causas do aumento da incidência no sexo feminino vem na esteira da maior participação da mulher no mercado de trabalho, com consequente aumento de estresse pela sua tripla jornada de dona-de-casa, mãe e trabalhadora, além do aumento de hábitos tradicionalmente mais masculinos como consumo de bebidas alcóolicas e tabagismo. Quanto aos idosos, naturalmente o organismo gradativamente piora sua vitalidade e as doenças vasculares acompanham este decréscimo na saúde.

 

As “bombas” podem provocar doenças do coração?

O uso de anabolizantes esteroides compromete a saúde de maneira devastadora. As repercussões sobre o sistema cardiovascular incluem aumento de pressão e redução drástica do colesterol HDL (chamado bom colesterol) que participa da proteção vascular ao dificultar o entupimento do vaso sanguíneo. Por estas causas, existe um aumento significativo no número de infartos em jovens abaixo dos 35 anos, relacionados ao uso de bombas, especialmente populares nas academias de musculação.

 

É muito difícil as pessoas mais jovens morrerem de doença do coração?

É mais difícil que as mais velhas pelo simples motivo de maior desgaste das estruturas do sistema circulatório com o passar do tempo. Porém a quantidade de casos em pessoas mais jovens cresceu bastante, principalmente pelo estilo atual de vida que privilegia o sedentarismo, o estresse elevado, a alimentação inadequada, a poluição, o aumento do uso de drogas ilícitas e anabolizantes e aumento do tabagismo entre mulheres jovens e que utilizam anovulatórios orais.

 

Quais os fatores de risco do infarto?

Tradicionalmente existem cinco fatores maiores: a genética, o colesterol elevado, o diabetes, a hipertensão arterial e o tabagismo. Algumas autoridades da Saúde Pública mundiais já entendem que um sexto fator deveria fazer parte destes: o sedentarismo. Existem fatores ditos menores que compreendem: o ácido úrico alto, a obesidade, o stress, o aumento de triglicérides e falta de atividades físicas.

 

Na sua visão, qual é o panorama da cardiologia no Pará?

A cardiologia no Brasil é muito valorizada na comunidade internacional. Temos uma sociedade de especialidade (Sociedade Brasileira de Cardiologia – www.cardiol.br) tida como uma das mais avançadas do mundo. Ela promove a diminuição de desigualdades de qualidade da assistência em todo nosso território nacional. Como não poderia deixar de ser, a nossa prática cardiológica e estrutura de atendimento no Estado tem melhorado muito. Em Belém já contamos com todos os métodos diagnósticos necessários, equipamentos e profissionais da área de hemodinâmica (responsáveis pelos procedimentos endovasculares, como angioplastias e cirurgias não convencionais), bons cirurgiões cardio-vasculares e UTI’s pós-operatórias e unidades coronarianas para suporte de retaguarda.

É claro que precisamos avançar em excelência, pois todo resultado que não seja o sucesso do tratamento deve ser evitado. Para isso, acredito que necessitamos de estruturas acadêmicas mais fortes na área de cardiologia para promover e dinamizar este conceito de busca da perfeição. Já em Marabá, a estrutura é preocupante. Não dispomos de todos os métodos diagnósticos, não dispomos de serviço de hemodinâmica (cateterismo), não dispomos de cirurgia cardíaca, nossos leitos de UTI são escassos e nossa estruturação para o atendimento de emergência e urgência está abaixo da crítica.

 

Você passou um bom tempo trabalhando em Curitiba e especializando-se nas melhores clínicas cardiológicas do país. Pode fazer um relato das especialidades e experiências adquiridas no Sul do país?

Minha formação cardiológica é de São Paulo, do Hospital Unicór, que na época (década de 90) era o terceiro hospital privado em reconhecimento de qualidade da cidade, berço de grandes nomes que hoje integram a ponta da cardiologia nacional, como o Dr. Expedito Ribeiro (expoente da Hemodinâmica no Brasil) e o Dr. Wilson Mathias, hoje chefe do setor de ecocardiografia do INCOR-SP, com quem tive o privilégio de aprender a sub-especialidade de ecocardiografia (ultra-som do coração), sendo participante de sua primeira turma de residência em 1993-94.

Em Curitiba trabalhei no Hospital Vita e no Hospital Cardiológico Costantini, além de clínica privada. Aprimorei meus conhecimentos trabalhando na urgência e UTI coronariana, além de desempenhar papel de principal médico no setor de ecocardiografia no Vita. Fui médico regulador da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná durante três anos, que me capacitou para melhor entender a dinâmica da saúde pública, especialmente relacionada ao atendimento de urgência e emergência.

Após 22 anos de profissão, me sinto preparado para contribuir com nossa cidade e região para a melhoria do atendimento aos nossos concidadãos, quer seja na clínica privada, quanto na pública.

 

E agora decidiu retornar a Marabá, montando sua clínica, a  Cardio Check-Up.  Fale um pouco sobre a Clínica, o que ela pode oferecer a pacientes cardíacos ou a tratamentos de prevenção.

Minha preocupação inicial, frente ao desalentador cenário de Marabá, é investir e promover a conscientização sobre prevenção. Já que não dispomos de estruturas adequadas de maior complexidade, devemos nos concentrar no básico. É claro que também estaremos prontos para os tratamentos daqueles que já estiverem doentes. Estamos gradativamente nos equipando e tencionamos, em curto prazo, oferecer todos os recursos de diagnóstico ambulatorial na área.

Nesta primeira fase, pretendemos nos estabelecer como clínica cardiológica, estabelecendo o maior número de parcerias e convênios para estender o atendimento ao maior número de pessoas. Se tudo caminhar bem, o passo seguinte será na área de reabilitação e condicionamento cardiovascular. Na terceira etapa de planejamento, o estabelecimento de estrutura de pronto-atendimento cardiológico e então finalmente a estruturação de atividade de intervencionismo (cateterismo cardíaco) com retaguarda de internação e unidade coronariana. Estas três últimas etapas ainda fazem parte do sonho, mas a vida se faz é disso, não é?

 

O Hospital Regional Geraldo Veloso já está estruturado para fazer cirurgias  cardíacas?

Ainda não. As obras de ampliação já se iniciaram e ao que me parece, o cronograma estabelece o final do ano para sua conclusão. Daí, a direção estaria liberada para trazer os cirurgiões, montar esquipe de pós-operatório e a equipe de hemodinâmica.

 

Quando Marabá estará plenamente atendida com clínicas de alta complexidade capazes de sanar demandas históricas na área de cardiologia?

 

Pergunta difícil de responder. Primeiramente falo dos hospitais: existe a realidade da construção do anexo no Hospital Regional Dr. Geraldo Veloso, com a possibilidade de em 2013 já contarmos com este serviço cardiológico de alta complexidade. Existe o esforço da UNIMED na reforma e construção de seu hospital, com a inauguração ainda este ano da UTI geral e na finalização do projeto de ampliação que prevê área de complexidade cardiológica. Não sei quais os prazos previstos nesta empreitada.

Sobre os prontos-socorros: temos o Dr. Rubens Ruela com seu atendimento nas Clínicas Reunidas que poderá trilhar para alguma resolutividade de urgência e emergência cardiológica, além do pronto socorro Cidade Nova, do Dr. José naves, anexo ao Hospital Unimed que poderá usufruir de sua proximidade. Infelizmente o nosso pronto-socorro municipal do HMM depende de mudança de gestão que realmente modifique seu perfil e da definição do papel das futuras unidades U.P.A. (unidades de pronto atendimento com financiamento do Governo federal, que já estão sendo construídas). O que vai caber para cada unidade e do PS municipal nesse jogo, dependerá da política pública municipal e provavelmente ficará para o próximo governo esta definição. Eventualmente, poderá acontecer um salto enorme na resolutividade dos casos de urgência e emergência caso se resolva o problema crônico de gestão, especialmente se houver estreitamento de parceria com o Governo Estadual e seu Hospital Regional.

Sobre as clínicas cardiológicas: o Incor Marabá, do Dr. Glicério Junior, que já contabiliza mais de dez anos de atividade, possui capacidade de diagnóstico clínico quase completo e potencial para desenvolver mais rapidamente ascensão à maior complexidade, além de área física compatível. Quanto às outras clínicas, todas ofertam serviços na faixa básica de diagnóstico ambulatorial e possuem a característica de serem conduzidas praticamente por seus proprietários: a Cesar’s Cor do Dr. César Montes, o Prontocárdio do Dr. David Tozzeto, a clínica Previne do Dr. Eder Alexandre e a minha clínica Cardio check UP.

Somos poucos médicos cardiologistas na cidade. Além dos já citados, contamos ainda com o Dr. Alexandre Rocha, o Dr. Fredson Roberto e o Dr. Carlos André prestando serviços por aqui. Isto é preocupante, pois, fazendo uma conta rasa, existe um cardiologista para cada trinta mil pessoas! Precisamos atrair mais profissionais da área para cá, inclusive da especialidade de cardiologia pediátrica, além das necessidades futuras de hemodinamicistas e cirurgiões cardíacos para comporem as unidades de alta complexidade que estão projetadas.