Hiroshi Bogéa On line

Manias em mesas de bares

“Caro Bogéa, decididamente sou um ciclotímico em tempo integral que alterna estados de depressão e euforia, agressividade e fraternidade, ânsia de ser amado e medo do contato humano, momentos de paranóia e uma incapacidade quase absoluta de lidar com atividades práticas corriqueiras”.

O texto acima foi encontrado entre tantas folhas de papel, ontem à noite, 21, vasculhando meu implacável arquivo de reminiscências. É um bilhete escrito por Leonizar, querido amigo de madrugadas vividas em Imperatriz, nos fins dos anos 70, e com quem dividi apartamento no Rio de Janeiro, morando em Santa Teresa.

Carioca de nascimento, não sei como Léo foi parar no Maranhão, vivendo bom tempo na cidade que também me acolheu durante importante período de minha vida. Homem culto, devorador de toda obra de Jorge Amado e amante da literatura francesa, Leonizar era exatamente como descreveu de próprio punho numa foha de papel almaço, durante uma noitada de violão no bar do Trovão & Relâmpago -, um casal humilde que preparava o melhor pacu-manteiga da beira-rio de Imperatriz.

Textos antigos guardados a sete chaves, geram saudades imensas. Inda mais quando vinculam a vida da gente a alguém.

Eu e Léo tínhamos a mania de escrever a quatro mãos. Ele dava o mote e eu completava. Ficávamos assim a noite inteira, cercado de amigos no barzinho. localizado numa ruazinha íngreme que ligava a beira rio a uma das pistas principais de Imperatriz, e que nos acolhia com intensa fraternidade.

Extremamente calmo, nos gestos e fforma de alar, meu amigo odiava os militares ditadores. Vivia sonhando em conspirações, sempre fazendo discursos de “conscientização da plebe rude”, como ele se expressava.

Uma noite, para surpresa de quem estava no Bar do Trovão, Léo chegou agitado, lamentando que a polícia acabara de fechar a boate Fly-Back, localizada a poucos metros do barzinho, usando de ação truculenta.

Os “macacos” chegaram apontando armas pra todo mundo, dizendo que o barulho da boate não deixa ninguém dormir, e que haviam pessoas fumando maconha no recinto. Uns macacos, uns macacos!

A rebeldia de Leonizar contaminou o bar, abrindo espaço para cada freqüentador dar opiniões diversificadas. Léo não se calava:

Ninguém pode esperar silêncio e quietude numa boate. Todas as músicas da moda são atordoantes. Quanto à maconha, não vejo por que alguém iria procurar a droga na Fly-Back quando em várias esquinas de Imperatriz, a qualquer hora do dia, qualquer pessoa com algum dinheiro no bolso pode adquirir quantos gramas queira da erva que não faz espirrar.

Ninguém conformava meu amigo, que se revelava naquele noite um rebelde agitado nunca visto. As lamentações dele só ganharam unanimidade após uma triste revelação feita por ele.

Pior, é que a ‘trouxinha’ que havia escondida na cozinha da boate pra gente dar uns pauzinhos, fulano jogou fora com medo do flagrante… Macacos! Macacos!

Tímido, meu saudoso amigo que não sei por onde anda encontrava dificuldades para namorar. A timidez o afastava do mulherio. Mas quando carimbava alguém, entrava em pandemônio. Desesperadamente, se apaixonava.

Eu sou um cafajeste. Qualquer rabo-de-saia me pega pelo coração.

Várias vezes flagrei Leonizar chorando, aos prantos, sempre que alguma namorada terminava a relação com ele. Socorrê-lo naquele estado de comoção espiritual, havia apenas uma pessoa: isto mesmo, o gente fina aqui.

Amigo, tô na pior. Com vontade de me matar… Fulana terminou comigo.

Todos os dias, as sessões de terapia etílica começavam pouco depois das 20 horas. Era este o horário que Léo chegava à redação do jornal O Progresso para rumarmos em direção ao Bar do Trovão & Relâmpago. Chegando a uma mesa que o casal dono do barzinho guardava para convidados especiais, o ritual era o mesmo: Léo descascava diversos limões, cortando-os em pequenos pedaços que, misturados a sal, serviam de tira-gosto dele.

Antes de servir-se, abrindo com extremo carinho a garrafa de cerveja, Leonizar olhava demoradamente para o corpo em sua mão, dizia frases poéticas e lembrava dos versos de Gilberto Gil e Chico Buarque:

Nunca esqueça, nunca esqueça que “num corpo vazio, a dor ocupa metade da verdade,a verdadeira natureza interior…”.

E virava a cerveja, mordendo o pedaço de limao.


É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.

É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.
Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.A
magia da verdade inteira, todo poderoso amor.

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2 Comentários

  1. Hiroshi Bogéa

    23 de junho de 2008 - 15:06 - 15:06
    Reply

    Cris, não sei o paradeiro de Léo. Uns anos atrás, tomei conhecimento dele morando em Salvador. Uma boa pessoa, e super antenado. Tenho saudades dele.
    Um abraço, querida.

  2. Cris Moreno

    23 de junho de 2008 - 00:49 - 0:49
    Reply

    Ô menino, que causo belo. É tão lembrar de coisas do passado. E a música deu certinho. Por onde será que ele anda, não é mesmo? Também gostaria de saber.

    Beijos.
    Boa semana.

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