A infraestrutura urbana e rural construída no município de Tailândia é resultante da visão construtivista de Paulo Jasper, quatro vezes eleito prefeito e liderança idolatrada pela sua comunidade. Município é polo de referência naquela região.

 

Hiroshi Bogéa  –  Falar de Paulo Jasper, o Macarrão, é quase sempre entrar em terreno de polêmica. Não por acaso. Há 45 anos ele constrói sua trajetória política em Tailândia e em diferentes municípios do Pará, tornando-se uma dessas figuras que dificilmente passam despercebidas na paisagem política amazônica.

Quatro vezes prefeito de Tailândia, deputado e liderança conhecida na região, Macarrão acumulou admiradores, adversários, críticas e controvérsias. Faz parte do jogo. Quem atravessa tantas décadas na política, especialmente em uma região onde a política se mistura tão profundamente com as relações humanas, não consegue passar pela vida sem provocar sentimentos contraditórios.

Conheço Macarrão desde o tempo em que eu morava em Imperatriz. Fomos vizinhos. Daqueles vizinhos que não necessariamente sentam todos os dias para conversar, mas que, pela proximidade das casas, acabam conhecendo a rotina um do outro. A convivência cotidiana, ainda que casual, permite enxergar o sujeito para além do personagem político.

E é justamente por isso que não tenho qualquer dificuldade em escrever sobre ele.

Posso falar de sua vida política sem precisar transformá-lo em santo, muito menos em demônio. Posso reconhecer virtudes sem apagar divergências. Afinal, jornalismo e opinião também são exercícios de honestidade: é preciso dizer o que se pensa, mas também reconhecer aquilo que se vê.

E uma característica de Macarrão é difícil de ignorar: ele não costuma deixar sua gente na mão.

Há políticos que, depois de eleitos, desaparecem atrás de assessores, agendas, gabinetes e telefones que nunca são atendidos. Macarrão construiu justamente o caminho contrário. É o sujeito que aparece. Que atende. Que vai atrás. Que põe a mão na massa — talvez seja até uma explicação involuntariamente perfeita para o apelido.

“Cuidar das pessoas” talvez seja a expressão que melhor traduza esse modo de fazer política.

Não estou falando apenas de discurso de palanque. Falo de situações concretas, algumas delas que dificilmente caberiam em uma fotografia oficial de campanha. Macarrão já pilotou avião para transportar doentes em busca de atendimento médico em Belém ou em outros centros de referência. Já entrou em áreas remotas para socorrer pessoas em situação grave. Já pilotou lancha, dirigiu veículo e enfrentou estrada, rio e mata quando alguém precisava de ajuda.

É aí que existe uma dimensão particular de sua personalidade política.

Macarrão se entrega.

E essa entrega explica, em boa medida, a relação que mantém com parcelas da população de Tailândia e de outros municípios onde construiu sua trajetória.

 

Fantasia ideológica não existe com ele

Isso não significa concordar com todas as suas posições políticas. Longe disso.

Setores mais à esquerda costumam enxergá-lo como um político conservador, proprietário de terras, produtor rural e identificado com posições mais ao centro do espectro político. É uma leitura legítima. Macarrão jamais construiu para si a imagem de um político de esquerda.

Mas também nunca me pareceu um homem disposto a vestir artificialmente uma fantasia ideológica para agradar a quem quer que seja.

Talvez aí esteja uma das contradições mais interessantes de sua personalidade.

Se não fosse proprietário de fazendas, talvez algumas das políticas sociais e de inclusão que marcou sua passagem pela Prefeitura de Tailândia e por outros espaços públicos levassem muita gente a classificá-lo em campos políticos bem diferentes daqueles aos quais costuma ser associado.

A política, afinal, é cheia dessas contradições.

Macarrão é conservador em algumas ideias, mas pode ser extremamente inclusivo na prática. É homem do campo, proprietário rural, mas mantém uma relação quase visceral com gente simples. Ocupa posições políticas que podem desagradar à esquerda, mas não parece ter dificuldade em colocar a própria estrutura à disposição de quem precisa.

E há outra coisa que considero importante registrar: Macarrão não se esconde.

Esse talvez seja um dos atributos mais raros na política contemporânea.

Depois que conquistam o mandato, muitos políticos mudam. Mudam de telefone, de endereço, de círculo de amizades e, principalmente, mudam a maneira de enxergar aqueles que ajudaram a elegê-los.

Macarrão preservou o hábito de andar entre as pessoas.

É possível encontrá-lo com roupas absolutamente simples, de sandálias havaianas, circulando pela rua sem aquela liturgia exagerada que alguns políticos passam a adotar depois que conquistam poder.

Não há, pelo menos naquilo que conheço de sua convivência cotidiana, a preocupação permanente em fabricar uma personagem.

E talvez seja justamente essa ausência de cerimônia que explique parte de sua longevidade política.

 

 

Macarrão não parece compreender a política como uma profissão que termina na porta do gabinete. Para ele, política é também estar disponível quando alguém bate à porta.

É pegar o telefone.

É entrar no carro.

É pilotar o avião.

É atravessar o rio.

É chegar onde o Estado muitas vezes não chega.

Isso não apaga erros, controvérsias ou escolhas políticas que possam ser questionadas. Nenhuma trajetória de quatro décadas e meia deveria ser analisada com ingenuidade.

Mas justiça também significa reconhecer aquilo que existe.

E o que existe em Paulo Jasper, o Macarrão, é uma relação peculiar com sua gente.

Talvez seja essa a razão de, tantos anos depois de ter começado sua caminhada política, ele continuar sendo uma figura impossível de ignorar em Tailândia.

Macarrão pode provocar amor ou rejeição. Pode ser chamado de conservador, centrista, coronel político, amigo do povo ou simplesmente de Macarrão.

Mas há uma coisa que sua história parece não permitir: dizer que ele passou pela política sem se envolver com as pessoas.

Porque, para o bem ou para o mal, Macarrão nunca pareceu gostar de política à distância.

Ele prefere a política de sandália no pé, mão estendida e porta aberta.

E, na Amazônia, onde muitas vezes uma mão estendida vale mais do que um discurso inteiro, isso talvez explique muita coisa.

Há ainda um outro Macarrão que talvez explique melhor sua popularidade do que qualquer resultado eleitoral.

É o Macarrão que sai pelas ruas conversando com a comunidade, muitas vezes segurando uma garrafa de cerveja como quem carregasse uma garrafa de água mineral. Sem cerimônia. Sem pose. Sem a preocupação de parecer aquilo que não é.

Entra na casa das pessoas chamando-as pelo nome. Conhece a história de cada uma. Sabe quem é filho de quem, quem está doente, quem precisa de ajuda, quem perdeu o emprego, quem está enfrentando alguma dificuldade.

 

 

E, quando entra na sala de alguém, parece transformar aquele espaço na extensão da própria casa.

Essa intimidade com a comunidade não se constrói em campanha eleitoral. É resultado de décadas de convivência.

Macarrão também revelou, ao longo dos anos, uma habilidade incomum para negociar. É um estrategista. Sabe conversar, sabe esperar, sabe avançar e, principalmente, sabe identificar o momento em que precisa tomar uma decisão.

Foi assim que construiu sua independência financeira e ampliou seu patrimônio. Cresceu economicamente, tornou-se produtor rural, proprietário de terras e empresário, sem, segundo os relatos que conheço de sua trajetória, abandonar a disposição de ajudar quem recorre a ele.

Tenho conhecimento de histórias envolvendo Macarrão que, com o passar do tempo, elevaram ainda mais o conceito que construí sobre ele.

Não significa que seus adversários tenham a mesma impressão.

Há quem o pinte como um homem duro, difícil, alguém que não leva desaforo para casa.

Nesse ponto, curiosamente, seus críticos talvez tenham razão.

Macarrão realmente não leva desaforo para casa.

Mas há uma diferença importante: ele costuma resolver o problema onde o problema aparece.

Não fica necessariamente remoendo a situação durante dias. Se precisa enfrentar um adversário, enfrenta. Se precisa responder a uma provocação, responde. Se existe uma demanda que exige atitude, procura resolvê-la.

É um jeito de ser.

 

 

A disposição está sempre presente, mesmo aos 75 anos.

Macarrão não parece disposto a entregar a terceiros aquilo que ainda consegue fazer pessoalmente. Continua dirigindo seus caminhões, pilotando seus aviões, segurando no leme de barcos e, quando a ocasião permite, vivendo a adrenalina de andar de moto.

São hábitos que ajudam a compreender Paulo Jasper para além da política.

Ele tem uma relação muito própria com a vida.

Talvez seja por isso que seja tão difícil enquadrá-lo em uma única definição.

Político? Sim.

Empresário rural? Também.

Estrategista? Sem dúvida.

Conservador? Para muitos, sim.

Homem de hábitos simples? Absolutamente.

Mas há uma palavra que talvez sintetize melhor sua personalidade: eclético.

Macarrão transita por universos aparentemente contraditórios sem fazer muito esforço para explicar suas escolhas.

E talvez seja justamente essa espontaneidade que o tornou tão conhecido.

Tenho, entretanto, uma lembrança particularmente forte de um episódio que ajuda a compreender aquilo que considero ser uma das características mais marcantes de sua personalidade.

Foi durante um período difícil de sua vida, quando precisou permanecer em São Paulo para realizar um longo tratamento de saúde.

Enquanto Macarrão lutava pela própria recuperação, havia adversários políticos em Tailândia que, segundo relatos que chegaram até mim, comemoravam sua ausência como se ele jamais fosse retornar à cidade.

A política tem dessas crueldades.

Mas foi justamente naquele período de fragilidade pessoal que aconteceu uma situação que, para mim, diz muito mais sobre o caráter de um homem do que qualquer discurso político.

Era madrugada.

Macarrão estava internado, submetido a cuidados médicos e orientado a evitar telefonemas. O corpo exigia descanso e tratamento.

Foi quando o telefone tocou.

Do outro lado da linha, uma mulher desesperada pedia ajuda. O filho estava entre a vida e a morte em Tailândia.

Macarrão poderia simplesmente não atender.

Poderia pedir que alguém anotasse o número.

Poderia dizer que estava doente, internado em São Paulo, impossibilitado de fazer qualquer coisa.

Mas atendeu.

Ouviu o apelo daquela mãe e pediu algum tempo.

Do próprio leito hospitalar, começou a fazer ligações, sem condições orgânicas de fazê-las, mas as fez.

Acionou pessoas de sua confiança. Determinou que utilizassem seu avião para transportar o rapaz até Brasília, onde pudesse receber atendimento médico adequado.

E não parou aí.

Também determinou que fosse entregue à mãe uma quantia em dinheiro para que pudesse acompanhar o filho durante o tratamento.

Tudo isso enquanto ele próprio enfrentava um dos períodos mais delicados de sua vida.

O rapaz sobreviveu.

E, por onde passa, conta essa história.

Não como quem fala de um político.

Mas como quem fala de alguém que, em um momento decisivo, estendeu a mão para sua família.

Talvez seja essa a diferença entre fazer política e viver a política.

A política pode ser feita em palanques, gabinetes, reuniões partidárias e discursos.

Mas também pode ser feita numa madrugada, de um leito de hospital, quando alguém telefona desesperado pedindo socorro.

 

 

Naquela madrugada, Macarrão não era prefeito.

Não era deputado.

Não era empresário.

Não era o homem de 75 anos conhecido por pilotar aviões, caminhões, lanchas  e motos.

Era simplesmente Paulo Jasper diante de uma mãe desesperada.

E escolheu ajudar.

É por histórias assim que prefiro observar Macarrão para além das disputas políticas.

Porque a política passa.

Os mandatos terminam.

As eleições acabam.

Os adversários mudam.

As alianças se desfazem.

Mas determinadas atitudes permanecem na memória de quem recebeu ajuda quando mais precisava.

E talvez esteja aí uma das explicações para a longevidade política de Paulo Jasper.

Macarrão pode ser amado por uns, rejeitado por outros, criticado por muitos e defendido por tantos.

Mas existe uma parcela da população que não precisa de pesquisa eleitoral para decidir o que pensa dele.

São pessoas que guardam histórias.

Histórias de uma carona.

De uma ajuda.

De um tratamento médico.

De uma viagem.

De uma conversa na sala de casa.

De uma garrafa de cerveja compartilhada na rua.

De uma porta que se abriu quando parecia não haver mais nenhuma aberta.

É nesse território, muito mais humano do que partidário, que talvez esteja o verdadeiro patrimônio político de Paulo Jasper.

O patrimônio que não aparece no balanço de uma fazenda.

Nem na conta bancária.

Nem no resultado de uma eleição.

É aquele que fica guardado na memória das pessoas.

E esse, por mais que os adversários tentem apagar, ninguém consegue tomar de Macarrão. (Fotos: Redes Sociais)