Licença ambiental para derrocagem do “Pedral do Lourenção” mobiliza ribeirinhos que serão afetados pela obra do jeito que está sendo aprovada

Publicado em 9 de maio de 2021

O maior projeto de Hidrovia em curso  no Brasil , a Hidrovia do Araguaia Tocantins deve receber ainda neste primeiro semestre  a liberação da sua licença ambiental, autorizada pelo Ibama.

Quem participa acompanhando  a tramitação do processo de pedido da licença já recebeu informações de que um dos diretores do Ibama assinou a licença, faltando a mesma chegar à mesa do presidente do instituto para sua autorização.

Mesmo contrariando parecer técnico do próprio Instituto, um dos diretores passou por cima.

A denúncia foi feita  pelo líder comunitário Ronaldo Barros Macena, presidente da Associação da Comunidade Ribeirinha Extrativista Vila Tauiri,  que integra o Comitê Intergestor da Hidrovia .

Em contato com o blogueiro, Ronaldo sustenta que o parecer do Ibama não responde, por exemplo , questões como qual seria a consequência para a fauna  e flora em determinados  trechos do rio .

Para os líderes das comunidades ribeirinhas, as condições em que a licença vai ser concedida dão o tom , a forma como serão tratadas essas populações  que vivem no cenário do projeto .

A decisão tensiona o diálogo com comunidades ribeirinhas agroextrativistas , quilombolas e indígenas que vivem  na área.

O rio Tocantins é a fonte de vida dessa população.

Sobrevivem , da pesca, do extrativismo e da agricultura.

Para esses povos o momento é de apreensão. Eles se organizam para resistir e já contam com apoio de ativistas alemães .

O projeto em curso de criação da hidrovia do Araguaia Tocantins tão anunciado pelo Governo Federal , começa a ganhar forma e põe em cheque toda uma cadeia  produtiva.

As famílias temem serem expulsas da noite para o dia como aconteceu na construção da Hidrelétrica de Tucuruí, inaugurada em 1984 pelo então presidente João Figueiredo .

O receio maior é de que a vida do rio que os sustenta,  fique mais uma vez ameaçada e por isso,  lutam  para construir um caminho alternativo de forma que possam escrever seu próprio destino .

Dialogar tem sido a principal estratégia de luta das famílias.

A última reunião , envolveu 19 comunidades da área e teve o apoio de pesquisadores da UNIFESPA, representantes do Ministério Publico Federal e Museu  Emílio  Goeldi.

Segundo os ribeirinhos , a vida na área não é fácil.

No verão,  enfrentam  e vivem o isolamento.

A cheia das águas , encurta caminhos, mas dificulta a captura do peixe .

E com impactos ambientais e socioeconômicos  que virão , como fica o futuro dos povos das águas?

Estudos preliminares  mostram impactos que a Hidrovia do Araguaia e  Tocantins poderão gerar a este importante bioma.

O projeto  da hidrovia envolve o interesse socioeconômico do eixo Centro Oeste e Norte do Brasil .

Será uma das principais vias de transporte do corredor Centro-Norte brasileiro.

Abrange  parte  do Cerrado, a maior região produtora de grãos do País, e tem potencial para se transformar numa das mais importantes vias de águas navegáveis do País.

A navegação  pela hidrovia, desde Barra do Garças (MT), no rio Araguaia, ou Peixe (TO), no rio Tocantins, até o porto de Vila do Conde, próximo a Belém (PA), privilegiadamente localizado em relação aos mercados da América do Norte, da Europa e. Oriente Médio.

Dados já apresentados mostram que a implantação da hidrovia para o transporte de grãos e outros produtos, implicaria em grandes impactos ambientais pela possibilidade de influenciar a dinâmica do pulso de inundação devido às obras de engenharia previstas e pelo aumento da navegação de comboios.

A concessão  da licença  nos moldes em que foi feita , estabelece o cabo de guerra  entre governo e  os povos das águas .

Traz de volta o velho dilema : a dicotomia entre desenvolvimento econômico e equilíbrio ambiental.

Ao longo da semana, o blog publicará uma série de matérias narrando a situação dos ribeirinhos, que não são contra  a derrocagem do pedral do Lourenção, mas defendem um projeto que não inviabilize a coexistência de suas famílias.

“Queremos,  sim, o desenvolvimento, mas precisamos ter segurança de que nossas possibilidades de vida sejam garantidas”, diz Ronaldo.

O jornalista João Salame, que terá um programa na Rádio KlickNews, também conversou com os ribeirinhos numa reunião na Vila Tauiri,  e fará sua  estreia  narrando como se encontra a situação entre os ribeirinhos.

Fotos registram debates de ribeirinhos em reunião ocorrida na Vila Tauiri.