Hiroshi Bogéa On line

Jornalista lança livro em Belém sobre a história de bebês sequestrados na ditadura

 

O jornalista paulista Eduardo Reina (foto) lançará no dia 31 de março, no auditório Rio Guamá  do CAPACIT  – Coordenadoria de Capacitação e Desenvolvimento da UFPA – Campus Guamá, partir das 9 horas, o Livro “Depois da Rua Tutoia”, que aborda a violência praticada pelos governos militares contra mulheres grávidas que foram presas durante a ditadura e que tiveram os seus bebês arrancados do ventre ou do convívio com a família por agentes da repressão e entregues a pais adotivos.

O livro envolve personagens reais e de ficção  sobre aquele momento histórico e as consequências para as vítimas e suas famílias, algumas ligadas ao Estado do Pará.

Além do lançamento do livro de  Eduardo Reina, haverá um debate com a participação  de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Pará,  da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Pará, da Comissão Estadual da Verdade do Estado do Pará e do Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos , além da presença de professores e discentes das áreas de Ciências Sociais, Psicologia, Sociologia, História, Direito e Comunicação da instituição federal de ensino.

A mediadora do debate será a professora doutora Rosaly Brito, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará.

A história desenvolvida pelo jornalista mostra o que aconteceu com a militante presa política que teve uma  filha dentro do cárcere. É o desenrolar das vidas dos personagens, entre a realidade e ficção, depois da prisão no prédio do DOI-CODI, na Rua Tutoia, quando a bebê foi arrancada da mãe e entregue a um poderoso e influente empresário paulista, que comandava um grupo financiador de movimentos de repressão, principalmente os clandestinos.

Reina cita um caso com profunda ligação com o Estado do Pará. É o de Lia Cecília da Silva Martins, nascida em 1974 na região Sul do Pará, palco da guerrilha do Araguaia.

Filha de Antônio Teodoro de Castro, o Raul. Ela foi deixada ainda bebê por um delegado e um soldado do Exército para o Lar de Maria, em Belém, em junho de 1974. Instituição essa criada por um sargento da Aeronáutica. Lia foi adotada tempos depois por um casal que frequentava o Lar de Maria. Acabou registrada com a ajuda de amigos em cartório na cidade de Bragança. S

ó descobriu sua verdadeira história em 2009, quando viu uma foto numa matéria de jornal e se achou extremamente parecida com as pessoas. Essas pessoas eram filhos de Antônio Teodoro de Castro, o Raul, desaparecido desde 1973. Feito o exame de DNA ficou comprovado que ela pertence à família de Castro.

Outro caso, que não está no livro, porém com ligação com a capital paraense,  já fruto da continuidade das pesquisas do jornalista,  é o de Rosângela Serra Paraná, criada por uma família de militares no Rio de Janeiro.  O tio-avô dela era tenente coronel do Exército, Manoel Hemetério de Oliveira Paraná, que foi diretor do Hospital Geral de Belém de 1961 a 1963.

No livro “Depois da Rua Tutoia”, os personagens são baseados em histórias reais de pessoas que viveram, lutaram contra, sofreram ou apoiaram a repressão nos anos de chumbo. São as histórias de Margareth e José Eugênio, Theóphilo e Cláudia Prócula, e principalmente de Verônica, personagens centrais no livro.

O livro mostra, ainda, a vida de Margareth e José Eugênio, militantes de esquerda que lutaram contra o regime de opressão na década de 1960.

Reina detalha que o casal criou uma célula de resistência no município de Mauá, Região Metropolitana do ABC Paulista, e trabalharam numa fábrica de porcelana. A mesma onde o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, foi funcionário naquela década. Junto com membros da Igreja Católica organizaram os operários e moradores pobres da região, porém foram localizados por agentes da repressão.

Margareth ficou presa no DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), localizado na Rua Tutoia, no bairro Paraíso, na zona sul da capital paulista, centro de prisão e tortura durante as décadas de 1960 e 1970. Daí o nome do livro “Depois da Rua Tutoia”.

O escritor indaga por que  depois de 53 anos passados do golpe militar de 1964, o Brasil não investigou a fundo esta realidade, como na Argentina, onde são registrados cerca de 500 casos e 149 estão solucionados?

Havia maternidades clandestinas, como nos países do Cone Sul, durante os anos de chumbo? Ocorreram quantos casos de bebês roubados de mães que lutaram contra a ditadura e entregues a empresários que financiaram o regime de exceção?

E qual a razão de não ter havido investigação sobre esse doloroso, mas presente, tema da história brasileira, durante os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade? E se houve alguma busca, por que não foi levada adiante?

Segundo Reina, estas perguntas ainda estão sem resposta na história recente do Brasil. “Nenhum governo civil, após os chamados anos de chumbo, que foram de 1964 até 1985, quando a sociedade conquista a redemocratização, ousou determinar uma investigação sobre o sequestro de bebês.

Trata-se de uma questão ainda não resolvida da ditadura brasileira e na memória do país, principalmente quando o atualmente o regime democrático, o Estado de Direito e inúmeras conquistas sociais estão ameaçadas por um golpe parlamentar, midiático e jurídico”, acentua.

O jornalista, mantém a sua pesquisa em busca de outras crianças arrancadas das suas mães e conseguiu levantar outros casos de bebês e/ou crianças sequestradas e apropriadas por militares durante a ditadura brasileira.

O livro “Depois da Rua Tutoia” mostra idealismo, corrupção, tortura, amor, traição, ódio e a convivência entre o bem e o mal escondidos na alma dos homens e na história do Brasil. Além disso, revela consequências inimagináveis que persistem até hoje, depois de mais de 53 anos do golpe militar, 21 anos da ditadura e do período da redemocratização.

“Lançar o livro na região Norte, na Universidade Federal do Pará, no curso de Comunicação e na capital paraense é um grande estímulo para continuar as minhas pesquisas sobre este tipo de violência institucional que precisa ser esclarecida na história e na memória brasileira”, finaliza Eduardo Reina.

 

Post de 

1 Comentário

  1. Otávio Barbosa de Sousa

    22 de março de 2017 - 12:16 - 12:16
    Reply

    Hiroshi nossa região foi palco de parte da historia da ditadura e com um relato no livro. portanto, nós merecermos que houvesse um lançamento aqui na região. Quem sabe se a UNIFESSP ou outra instituição de ensino possa articular a vinda desse jornalista.

Deixe seu Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *