João Salame, sobre Estado de Carajás:”Nossa causa é muita justa e generosa. É difícil se contrapor a ela”.

Publicado em 11 de novembro de 2011

 

 

Deputado João Salame (PPS), presidente da Frente Pró Estado de Carajás, concedeu entrevista ao blog, minutos antes do início do programa eleitoral gratuito sobre o plebiscito.

 

 

A campanha de TV/Rádio inicia na próxima sexta-feira, dia 11. Você já assistiu algum piloto dos programas que serão veiculados no Horário Gratuito? Se já, qual avaliação?

Já assisti e estou entusiasmado. O Duda Mendonça sabe como poucos interpretar o que vai no coração dos brasileiros, sobretudo os mais humildes, que são a maioria da população. Acho que nosso programa vai comunicar bem com essas pessoas e convencê-las que a criação dos novos estados é boa para todos.

Qual sua expectativa em relação à campanha no horário gratuito ?

Nas reuniões que estamos realizando nos municípios do Novo Pará notamos que a adesão de lideranças é grande após expormos as nossas idéias. Mas o alcance dessas reuniões é limitado. Com o horário eleitoral gratuito teremos a oportunidade de expor nossos argumentos para milhões de pessoas. Como tenho segurança da justeza de nossa causa acredito firmemente que convenceremos a maioria a votar no sim.

 

O marketing do Sim está entregue ao Duda Mendonça. A campanha do Não está sob responsabilidade do Orly Bezerra, um dos mais consagrados marqueteiros do Pará. Apesar da fama internacional do Duda, você não se preocupa com a possibilidade da equipe de Orly causar surpresa na campanha plebiscitária, por conhecer bem mais o cenário estadual?

O Orly é meu amigo pessoal. Talentoso e competente. Infelizmente estamos em campos opostos nesse plebiscito. Claro que o programa do NÃO, sob o comando do Orly, terá muita qualidade. Mas além do Duda também ser muito competente, ele está cercado por bons profissionais paraenses e por lideranças que conhecem a fundo o Pará. Além do que, insisto, nossa causa é muita justa e generosa. É difícil se contrapor a ela.

 

Quais os argumentos que você usará na campanha para convencer o paraense a dividir o Estado em três territórios?

 

Sou paraense, minha esposa e meus filhos também. Meu pai nasceu em Belém e minha mãe em Igarapé Açu. Por isso defendo a divisão, porque ela é boa para o nosso estado. O Pará tem quatro problemas que juntos são insolúveis. É uma área muito grande, com grandes problemas, com uma população que cresce muito todo ano e com poucos recursos financeiros. Com a criação dos novos estados teremos 3 governos para administrar áreas menores, com menos problemas e uma população menor. E com mais dinheiro. Não é difícil para uma pessoa de bom senso entender isso. Temos também as experiências dos estados que se dividiram nos últimos 70 anos. Todos tem hoje o Índice de Desenvolvimento Humano melhor do que o Pará, até mesmo o Amapá e o Tocantins. Votar NÃO é votar para que as coisas continuem como estão. Não é culpa do governo, mas da baixa capacidade de investimento de um estado que não tem condições sequer de dar um aumento de salário para os professores de sessenta reais para que se atinja o piso nacional de salários, senão estoura o gasto com folha de pessoal. Um estado que não dá conta de recuperar as estradas, de melhorar a educação e a segurança na intensidade que o povo necessita.

 

Que o governo ficará mais próximo com 3 estados isso é claro, mas como terão mais dinheiro do que hoje para investir?

 

Só no Fundo de Participação dos Estados nossa receita aumentará em cerca de 3 bilhões de reais. É simples entender isso. O FPE é um Fundo do qual participam todos os estados da Federação. O Pará tem uma cota no Fundo de 27 estados. Passaremos a ter 3 cotas num Fundo com 29 estados. O aumento de arrecadação é automático. Recebemos 2,9 bi em 2010 e deveremos receber 5,9 bi nos três estados, para a mesma área, para a mesma população. O Novo Pará deverá ter um FPE de 2,6 bi, ou seja, 300 milhões a menos que recebe atualmente. Só que vai administrar uma área muito menor, uma população menor e apenas 78 municípios. Já é um ganho enorme. Mas vai deixar de gastar cerca de 1,5 bi que gasta atualmente com as duas regiões. Ou seja, economiza 1,2 bi e ainda vai ter menos problemas para governar. Isso é muito dinheiro, pois a capacidade de investimento próprio do governo do Pará hoje não passa de 200 milhões. Já os novos estados vão receber juntos cerca de 3,3 bilhões, ou seja, mais do que o dobro de tudo o que o Governo do Pará investe hoje nas duas regiões. Por isso é ridículo o discurso dos que dizem que os novos estados são inviáveis, que o custo da máquina vai ser muito alto. Se hoje com o pagamento de pessoal, do custo da máquina e com investimentos o Pará gasta menos do que a metade que vamos receber só de FPE como esses novos estados não se sustentam? E é bom que se lembre que gastos com pessoal e custeio são limitados pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Sem falar que ainda teremos de receita o ICMs, IPVA, SUS, Fundeb e vários outros tributos, que crescerão ainda mais com o desenvolvimento econômico que vai tomar conta dos três estados. Ou seja, todos vão ganhar.

 

Em relação ao badalado e polêmico tema dos 5 milhões… Explique melhor essa conversa do desaparecimento de cinco milhões arrecadados através de leilões de gado no Sul do Estado.

 

Isso não existe. Lançaram um factóide sem prova alguma. Não conseguimos arrecadar dinheiro nem pra colocar carros de som, adesivos, cartazes e santinhos na rua em número suficiente. A Frente está lidando com grandes dificuldades pra arrecadar o dinheiro necessário pra pagar nossos custos básicos. E antes da Frente, no período que o Instituto Pró Carajás (Ipec) esteve à frente, não houve nenhum leilão de gado e era um coletivo de pessoas sérias que arrecadaram recursos para pagar advogados que defendiam os interesses dos novos estados no Supremo Tribunal Federal, mas com valores muito distantes do que essa boataria disseminou.

 

Passada a campanha plebiscitária, e numa hipótese de derrota do SIM, você não teme ser “amaldiçoado” eleitoralmente, correndo o risco de perder, em eleições futuras, milhares de votos conquistados na ultima eleição em Belém e demais municípios da região metropolitana e de outras cidades fora da geografia dos propostos estados do Tapajós e Carajás?

 

Primeiro estou convencido que vamos ganhar esse plebiscito. Por outro lado, nossa liderança está crescendo em Belém e em municípios do Novo Pará. As midías sociais são um bom exemplo. Todos os dias recebo solicitações de novas amizades de pessoas de Belém e dos municípios daquela região. No Facebook pulei de 580 amigos antes do início desse debate para mais de 4 mil hoje. Nunca é ruim defender o que você pensa. As pessoas valorizam isso, mesmo que não concordem com as suas idéias. Já nadei muitas vezes contra a correnteza. Lutei contra a ditadura, defendi a candidatura do Lula a presidente quando muitos a temiam, apoiei o Almir Gabriel quando todos diziam que ele não ganhava aquela primeira eleição pra governador, em suma, faço o que minha mente e o meu coração determinam. E tenho certeza que muita gente tem reconhecido e haverá de reconhecer cada vez mais esse esforço sincero de minha parte.

 

Deputado, o tema é evitado pelos coordenadores da campanha do SIM, mas não podemos deixar de provocá-lo. Na hipotética criação do Estado de Carajás, surgirá outra briga que será pela definição da futura capital do Estado. Quem acompanha os bastidores da campanha sabe que empresários e políticos residentes mais ao Sul do Estado defendem Redenção como futura capital, em detrimento de Marabá. Nos últimos meses, tem-se falado muito na compra de imensas áreas, nos arredores do município de Eldorado, por parte de um poderoso fazendeiro e de alguns empresários, no ponto onde se pretende construir uma cidade planejada, nos parâmetros de Palmas, como futura capital de Carajás. A compra dessas áreas é uma realidade, sabemos quem são seus compradores. Você é favorável também a construção de uma capital planejada?

 

Essa questão é secundária. O mais importante é criar o novo estado. Particularmente acho que não devemos gastar tanto dinheiro com a construção de uma nova capital. Temos várias cidades que podem abrigar a sede do poder político do novo estado. Que o povo depois decida isso em plebiscito.

 

Quanto já foi gasto até agora na campanha do SIM?

 

Estamos finalizando nessa sexta-feira o balanço do que foi arrecadado e gasto até agora. Esse balanço será enviado ao Tribunal Regional Eleitoral e semana que vem deve estar disponível para toda a população.

 

Você não acha que esse movimento divisionista está muito restrito aos interesses de cúpulas? Não se viu, em nenhum momento, até agora, pelo menos na região sudeste do Estado, a movimentação apaixonada do povão.

 

As pesquisas mostram que o nível de adesão na região do Carajás e do Tapajós é da ordem de 90%. Como em toda campanha as coisas só esquentam após o horário eleitoral gratuito. Mas já tivemos várias carreatas, reuniões e mobilizações que envolveram muita gente. É uma campanha atípica, que não tem um candidato. Mas tenha certeza que o povo responderá nas urnas. Esse é um sentimento popular, basta você conversar nos bares, nas ruas, que vai perceber a ampla aceitação da tese da criação dos novos estados na nossa região. Naturalmente que ainda existem pessoas com pouca informação e dúvidas, mas isso é natural e durante a campanha conseguiremos esclarecê-las.

 

Pelo menos cinco territórios indígenas estão inseridos na geografia do Estado de Carajás. A questão indígena deveria merecer, nessa discussão, maior atenção, mas até agora não se tem conhecimento do envolvimento dessa etnia nos debates, nem se fala do papel das aldeias e nem a configuração social que cada uma delas terá no hipotético novo estado.

Realmente esse debate não entrou em pauta como deveria, mas será abordado na campanha. Já temos várias reuniões marcadas com lideranças indígenas e muitos já nos apóiam.

 

Mudando de assunto, falemos agora da política marabaense: se realmente o TRE considerar procedente a cassação de Maurino Magalhães, você assumirá a prefeitura, independente do julgamento do mérito pelo TSE?

Só assumo se houver segurança jurídica de que não vou ter que renunciar o mandato de deputado e correr o risco do prefeito retornar ao cargo em poucos dias.

 

Caso decida permanecer na AL, você aceitaria disputar a prefeitura, ano que vem, como representante da chamada Terceira Via, ou apoiará a candidatura de Tião Miranda, para atender apelo do governo do Estado?

 

Durante muitas eleições fui aliado do deputado Tião Miranda. Inclusive fui apoiado por ele para disputar a prefeitura em 2008. Não sou de cuspir no prato que comi, por isso levo isso fortemente em consideração. Nas eleições do ano passado ele decidiu disputar o mesmo cargo que eu e isso criou alguns atritos e desconfianças entre nós, por isso teremos que conversar muito para que possamos caminhar juntos novamente. Nada que seja insuperável.
Nas pesquisas que estão sendo realizadas com vistas à disputa da prefeitura o ano que vem tenho aparecido com freqüência bem posicionado e com baixíssima rejeição. Não posso desconhecer esse fato. Mas daí a definir desde agora que sou candidato existe uma distância muito grande. Até porque nunca enxerguei a política a partir de projetos pessoais, mas sim como conseqüência de um projeto coletivo.
Minha prioridade agora é o plebiscito. Ano que vem tratarei da eleição municipal. Dialogar com o ex-prefeito Tião Miranda não é problema para mim. Dialogar com outras forças políticas também não. Acho que Marabá vive um momento de desgoverno muito forte, que está prejudicando duramente a população. Candidato ou não vou me pautar por participar de uma composição política que tenha compromissos com a cidade, com uma gestão competente, transparente e participativa. Marabá não merece continuar do jeito que está.