Jade Leão fala da “experiência única” em levar atendimento às comunidades carentes através do programa Melhor em Casa.

Feminista negra, Jade Leão tem apenas 27 anos.

Atuando profissionalmente nos bairros de Belém como  enfermeira, militante de causas sociais – ela simboliza a luta daqueles que, através da profissão, trabalham dia e noite pela melhoria da qualidade de vida dos mais necessitados.

A formação acadêmica de Leão foi concluída em 2017, especializando-se, em seguida,  em Urgência e Emergência.

Aprovada no Mestrado da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – FLACSO, no curso “Estado, Gobierno y Políticas Públicas”, em 2019, ela não chegou a concluir a especialização, em decorrência da pandemia.

“Após minha formação, iniciei na docência para técnicos e técnicas de enfermagem, bombeiros civis e ministrei aulas para cursos de enfermagem e educação física”, conta Jade, em conversa com o blogueiro.

No campo da saúde pública, Jade detém capital determinante para a divulgação de uma  visão de mundo social, atuando como enfermeira visitadora.

Neta de fundadores do Partido dos Trabalhadores, e filha de militantes orgânicos da esquerda – desde  muito pequena, Jade acompanho seus familiares na militância partidária e demais  movimentos e entidades aos quais se organizavam.

“Desde muito cedo aprendi o que era consciência de classe, divisão de classe, e compreendi onde estava inserida e o meu papel na sociedade”, conta a jovem enfermeira.

Militante nos movimentos feministas, Leão iniciou sua atuação  ativa  na “Marcha Mundial das Mulheres” – MMM -, cujo movimento feminista lhe foi apresentado pela sua  mãe.

Filiada ao PT, Jade dirige  a pasta de Mulheres, na Secretaria Estadual da Juventude do PT Pará – JPT/PA.

Também é membra do Diretório Municipal de Belém e Secretária Adjunta de Mulheres do PT Pará – SEMPT/PA.

Desde 2021,  Jade trabalha no Programa “Melhor em Casa” realizando atendimento domiciliar para pacientes de média complexidade.

“Somos uma equipe multiprofissional, e eu já realizei atendimento em 3 distritos (DAENT, DAGUA e DABEL), o último é onde estou atualmente. Tive oportunidade de atender dentro do meu próprio bairro, vivendo dentro das realidades de cada família.

Atualmente estou como conselheira do Distrito Administrativo do Guamá – DAGUA, conselheira da Cidade, em Belém, e sou membra da Comissão de Ética do Conselho Regional de Enfermagem do Pará – COREN/PA.  Sinto a necessidade estar organizada politicamente, sinto que minhas lutas abrem diálogos e portas para as que virão depois de mim”, conta.

Declaradamente bissexual, Jade Leão mora no bairro da Condor, na periferia de Belém, com seus pais, irmãs, uma sobrinha/afilhada e dois cachorros, Chico e Juca.

A entrevista a seguir for feita entre os espaços (curtos) de sua agenda  profissional e política.

 

Blog – Os profissionais da saúde conjuntamente com os professores formam uma equipe multiprofissional que representam como mediadores importantes no processo de inclusão social, estando em destaque à equipe de saúde como interlocutores junto às famílias. Você realiza esse trabalho em Belém, servidora do SUS, atuando no programa “Melhor em Casa”. O que essa experiência tem lhe proporcionado de mais extraordinário na sua atividade de Enfermeira?

A enfermagem traz uma condição de educação em saúde contínua. Mesmo quando trabalhamos na atenção terciária, que é o atendimento de nível de alta complexidade, estamos constantemente orientando e realizando procedimentos para ajudar na prevenção de agravos. O “Melhor em Casa” é uma experiência única, descentralizada, em que nós “ocupamos” a casa dos pacientes, e não eles a “nossa casa” (que é como costumamos chamar o hospital). No hospital, eles, pacientes e familiares, devem seguir as regras que estabelecemos, dentro desse programa a lógica inverte; claro, ainda determinamos as condutas e conduzimos pacientes e familiares no processo de adoecimento porém, nós é que entramos nas casas, nas dinâmicas, nas complexas e profundas relações familiares, entendemos as condições sociais, vivemos as dificuldades e ajustamos nossos atendimentos para cada realidade. Durante meu processo de formação aprendi que cada paciente deve ser visto e tratado como ser individual dentro de uma realidade exclusiva, a minha vivência como enfermeira e trabalhadora do SUS tem me proporcionado viver a teoria, na prática.

 

Blog- O objetivo do Melhor em Casa é levar atendimento médico às casas de pessoas com necessidade. É possível assegurar que esse programa realmente evita internações hospitalares desnecessárias e as filas dos serviços de urgência e emergência?

Com certeza! O programa tem como objetivo não só evitar as hospitalizações, mas também realizar as desospitalizações – retirada de pacientes do hospital. Realizamos uma avaliação inicial para verificar se o/a paciente cumpre os critérios do programa, se sim, iniciamos o atendimento que chamamos de “internação domiciliar” que pode ser de curto, médio ou longo período. Sabe o/a paciente que já possui estabilidade clínica para sair do hospital, porém necessita de acompanhamento constante para dar continuidade a reabilitação ou proporcionar qualidade de vida em casos de cuidados paliativos? Então, é aí que o programa entra! Somos uma equipe multiprofissional (enfermeira, técnicas de enfermagem, médica, psicóloga, nutricionista, assistente social, fisioterapeuta) que realiza as visitas com frequência de acordo com a necessidade de cada usuário/usuária.

Blog – Acredito que, para uma profissional dedicada às questões sociais como você, adentrar a cada dia uma nova residência para levar apoio de cuidadora à quem precisa, é uma nova descoberta, quer no campo humano, quer no campo das deficiências da estrutura de saúde do país.  Pode-se dizer que a população pobre, pelo menos de Belém, onde você trabalha, tem nos agentes do programa “Melhor em Casa” seus anjos da guarda?

Ser uma profissional de saúde é, definitivamente, um desafio diário. Mas não vejo nossas equipes como anjos da guarda. Se eu olhar para o lado vejo gente que assim como eu, não se rende. Que levanta todos os dias com a força que muitas vezes não sabe de onde tira. Compartilho a luta incessante e árdua para proporcionar o melhor aos nossos pacientes, apesar as dificuldades. As palavras carinhosas e gestos afetuosos são afagos para o coração, sempre, mas diria que estamos mais pra trabalhadores e trabalhadoras comprometidos com o sistema público de saúde e com a vida dos nossos iguais. Anjos e heróis são seres imaginários, intocáveis… Nós, não. Estamos fazendo o nosso melhor e queremos estrutura, reconhecimento e nossos direitos, minimamente, garantidos.

 

Blog – Além de levar atendimento médico às casas de pessoas com necessidade de reabilitação motora, quais outras atividades os profissionais cuidadores desenvolvem em relação a hábitos saudáveis de vida?

A prevenção com certeza é um ponto estruturante, como disse antes, a educação em saúde é nossa aliada. Trabalhamos com pacientes em processo de reabilitação, mas também cuidamos daqueles que estão no processo de fim da vida. Como somos uma equipe multiprofissional, conseguimos orientar e assistir o paciente de forma global relacionado a alimentação, saúde mental, controle de doenças, tratamentos precoces, prevenção de feridas, entre outros. A família é nossa maior parceira dentro dessa assistência, eles se tornam parte da equipe e são fundamentais para o desenvolvimento dos cuidados. Além das orientações nas residências, o programa também oferece cursos de capacitação para os cuidadores estarem cada vez mais aptos para passarem por esses processos.

 

Blog- Nesses anos de trabalho como cuidadora de saúde à domicílio, qual o fato que mais lhe sensibilizou ao adentrar a cada de um paciente?

Não consigo pensar em um fato específico pois são muitas famílias em realidades absurdamente diversas; poderia dizer de uma mulher que voltou para casa de seu ex-marido após trinta anos de divórcio para cuidar dele no processo de fim de vida, apesar dos conflitos e pobreza extrema; poderia citar uma filha que às vezes não sabia se teria o que comer, mas que nunca faltava uma medicação para seu pai; poderia pensar numa mãe que abriu mão de viver sua vida para cuidar da filha que estava em cuidados paliativos; posso pensar em filhos que abandonaram os pais, em pais que abandonaram os filhos, em como as cuidadoras são majoritariamente mulheres dentro do sistema patriarcal, em famílias desestruturadas, condições de pobreza extrema, vulnerabilidade social… mas posso pensar também em como um homem amou sua esposa até o último suspiro, na forma que uma mãe se tornou uma fortaleza para cuidar de um filho, em como uma família sofre junta e não se abandona, divide as responsabilidades e dores. Atravessei muitas histórias e muitas famílias, é um marco real, concreto, impossível não se sensibilizar com cada uma delas. Em todas elas.

Blog- Dos bairros de Belém visitados pela sua equipe do “Melhor em Casa”, qual o que você considera mais carente da atuação do setor público?

Definitivamente os do distrito DAGUA! Ele é composto pelos bairros de Canudos, Condor, Cremação, Guamá, Jurunas e Terra Firme (Montese). Inclusive, eu moro na Condor. Historicamente são os mais necessitados. Mas, se tivesse que escolher somente um, diria que o bairro da Terra Firme. Os avanços são nítidos, é inegável, temos vistos mais pavimentações, escolas, unidades de saúde e é fundamental para oportunizar condições dignas de vida à comunidade, porém é um dos bairros mais populosos e periféricos de Belém, como os outros do distrito.

 

 Blog- Além de enfermeira e militante política, você é membro do Conselho da Cidade. O que essa entidade criada pelo prefeito Edmilson Rodrigues tem feito para promover a cidadania e a gestão democrática de Belém?

O Conselho da Cidade é uma forma real de participação popular. Quando iniciaram os debates acerca do conselho surgiram muitas dúvidas sobre a discussão e método, e qual seria o papel da representação popular, acredito que também pelas limitações da pandemia. De forma híbrida, por meio do programa “Tá Selado”, foram realizadas plenárias divididas por bairros/distritos/setoriais onde foram eleitos e eleitas as conselheiras por setorial, apresentadas as demandas, discutidas, definidas e aprovadas as prioridades que, por fim, foram levadas para discussão e aprovação no Congresso da Cidade. Ou seja, a própria população por meio de representantes foi quem apresentou as necessidades de quem vive a cidade, que somos nós. Após a aprovação do conjunto de prioridades de obras, se organizou um calendário de obras que vai desde a pavimentação de ruas como a minha própria, que nunca foi contemplada em governos anteriores, até a construção de novas escolas. Então eu posso dizer que, apesar as dificuldades que se apresentaram ao longo do caminho, existe um projeto real sendo construído com a participação popular tal qual o OP – Orçamento Participativo, implantado pelo Governo Edmilson na década de 90.

 

Blog- Em uma publicação de suas redes sociais, você fez um post com o seguinte conteúdo: “O desafio é diário. Em cada casa que visito tento deixar também um pouquinho de afeto e de esperança. Dedico o melhor de mim para um atendimento humanizado aos que mais precisam”. Esse comportamento é de profundo humanismo, e revela esse seu lado de intenso amor que devota às pessoas que você atende. O país está precisando desse afeto e dessa esperança, não é isso?

Eu fui criada num lar amoroso, seguro e consciente, minha família me estrutura e sei que não estou e nem estarei sozinha no mundo, basta olhar para o lado que estarão lá por mim. Mas sei que nem todos tem esse privilégio, e eu não sei o impacto que minhas ações têm de fato na vida das pessoas, porém, penso que, se eu puder deixar coisas boas por onde passo, por que não o fazer? Estamos vindo de um triste e revoltante momento histórico, a pandemia deixou milhares de famílias de luto, vidas vividas pela metade, negacionismo em ascensão… Junto a isso, também vivemos as consequências de um governo que tem como principal objetivo o desmonte do país e de suas políticas públicas, da educação, do emprego, da cultura, da saúde; vivemos na pele o retrocesso, as retiradas de direitos e o impacto de um governo assumidamente racista, lgbtfóbico, conservador, ignorante e elitista no poder. Então, sim, acredito que nós precisamos de afeto, de cuidado e nessa perspectiva, de esperança de que dias melhores virão, o ano de 2022 é uma luz carregada de esperança no fim do túnel depois de tempos sombrios.

 

Blog- Além de servidora na área de saúde, você tem atuado com muita intensidade politicamente, e isto enraizou nas bases diretivas do Partido dos Trabalhadores a convicção de que você é um forte nome a disputar um cargo na próxima eleição proporcional. A Jade pode ser candidata a deputada?

Eu cresci entendendo a necessidade de estar organizada politicamente, seja no meu bairro, na juventude com a Kizomba, na Marcha Mundial das Mulheres ou dentro do meu próprio partido, o PT. A sociedade que vivemos hoje é o fruto da construção secular de homens brancos, héteros, que estão nos espaços de poder decidindo o que é melhor para eles, não para nós. Apesar da ascensão do fascismo nas eleições de Bolsonaro, da onda de ódio que tomou conta de seus eleitores e do fortalecimento do conservadorismo que estamos enfrentando, vejo que a sociedade clama por uma representação real do que ela é. Somos homens, mulheres, jovens, pretas, indígenas, LGBTQIA+, trabalhadores, trabalhadoras… diversas. Quem melhor para nos representar do que nós mesmas? Então sim, posso vir a candidata a deputada estadual.