Hiroshi Bogéa On line

Ítalo Ipojucan: – “Precisamos salvar o parque industrial de Marabá”

 

ItaloPresidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá, o empresário Ítalo Ipojucan acaba de conceder entrevista ao blog falando de vários temas.

Verticalização da atividade mineral no município, hidrovia, incentivos fiscais, o futuro do Distrito Industrial de Marabá, além da recente notícia de fechamento dos últimos altos fornos do setor siderúrgico, merecem reflexão do entrevistado.

Durante entrevista, Ítalo revelou um fato novo: informações colhidas pela Associação Comercial e Industria dando conta de que a Sidepar não estaria fechando definitivamente  suas portas. “A empresa, pelo que nos informaram, está “abafando” seus altos fornos enquanto aguarda reação do mercado de gusa”.

Também revelou não existir nenhuma definição em relação a notícia, inclusive publicada aqui no blog, de que a Ibérica também estaria seno desativada.

“Sobre a Ibérica, ontem, recebi informação  de que a empresa continuará com sua atividade normal, embora reduzindo a produção de gusa”.

A seguir, íntegra da excelente entrevista.

Ítalo, como sempre, a par do universo econômico regional.

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Blog – O Distrito Industrial de Marabá, naquela planta originária de incentivo às usinas guseiras, checou ao fim, deixando um rastro de desemprego e queda de arrecadação municipal. Esse parque industrial, um dia, pode voltar a ser aquecido?

 

Ítalo- Sim,  com certeza. Temos um dos  melhores desenhos de um Distrito Industrial no estado do Pará. Do ponto de vista regional, fomos privilegiados com uma localização estratégica da cidade, numa região de vastas potencialidades de desenvolvimento. Portanto,  acredito, sim, na condição de aquecimento do nosso D.I, naturalmente,   sob novas plataformas , novo modelo industrial.

 

Blog- Você concorda com a opinião de que incentivar a queima de ferro como sub-aproveitamento de nossas riquezas foi um equívoco, no Distrito Industrial de Marabá, já que a maioria dos donos de usinas nunca se preocupou com a questão ambiental e nem interessada em potencializar o desenvolvimento de Marabá?

Ítalo – Não concordo. Dentro da busca pela verticalização da cadeia de minério de ferro, diria que a fase inicial com a instalação do parque de gusa foi uma etapa importante. Seu início em meados de 1985 se consolidou e representou importante papel na geração de empregos e injeção de recursos na economia marabaense.

No seu último período de bons ventos, em 2007, o setor produzia no Pará cerca de 1.800.000 toneladas de gusa, gerava aproximados 9.000 empregos  diretos  30.000  indiretos. Cerca de 19.900 hectares de áreas reflorestadas era o número que o setor detinha, na ocasião, em busca da sua questionada  sustentabilidade energética. Um faturamento anual que beirava U$ 1 bilhão, e que significativa parte impulsionava o comércio local na forma de salários, impostos e compras – na  esteira de fornecedores locais. Era ainda a grande incentivadora da abertura de diversos pequenos negócios no entorno do Distrito, para dar sustentação às necessidades industriais do parque. São números que dão a dimensão da importância que representou o setor para a economia local.

A crescente pressão mundial que avançava à época,  questionando a sustentabilidade da atividade do ponto de vista ambiental, exigia sim,  dos governos da ocasião,  a implementação de políticas para diversificação do parque, operando como indutor na   linha de atração de  novos modelos de  plataformas industriais,  de forma que o D.I não ficasse refém de um único modelo de exploração, suscetível às crises e sazonalidades, comuns ao gusa, e, com isso,  otimizar a sua ocupação,  capturando  as oportunidades propiciadas pela produção mineral. Isso não ocorreu.

A Sinobrás, é o único exemplo dessa tão sonhada diversificação.

O principal indutor de um modelo de desenvolvimento para uma região, é o seu governo. A ele cabe a responsabilidade de primar pelas ações estratégicas que definem a dinâmica de desenvolvimento da sua região. As oportunidades, no mundo empreendedor, se apresentam  como janelas, que se abrem,  e também fecham. As oportunidades não capturadas são janelas fechadas, que podem não mais se abrir. Às vezes, a oportunidade é única.

Blog – Tem algum conhecimento a respeito das últimas notícias que versam a respeito do fechamento da Sidepar  e possível fechamento da Ibérica?

Ítalo – Já, de algum tempo. O mercado do gusa atravessa dificuldades que desafiam sua  sobrevivência. É questão de mercado mesmo, de baixos preços do produto,  que não cobrem o custo de produção. A Sidepar já  paralisou uma das suas unidades e deve avançar para total desativação da sua linha de produção até fevereiro,  em virtude disso. Ira manter em atividade somente  sua estrutura de transporte pois já mantém diversos contratos locais. Até onde sei, a Ibérica continua sua operação normal. A decisão da Sidepar, por pior que seja não é novidade, o setor vem se arrastando e muitas foram as intervenções que já fizemos para tentar dar uma sobrevida para o setor, infelizmente, não foram suficientes para superar essa dura realidade mundial de precificação do gusa. Essa medida só reforça tudo que estamos comentando à respeito da necessidade de reascender o D.I sob novos modelos, como exemplos,  a Mercúrio e Sinobrás.

Blog- Toda vez que se fala em verticalização do município como ponto de partida para seu verdadeiro desenvolvimento, volta a questão do projeto Alpa. Você acredita ainda na implantação do polo siderúrgico, nos moldes em que foi apresentado a Alpa?

Ítalo- Olha ai a história da janela… É bem o caso da Alpa. Existe uma crise pontual hoje que afeta a mineração. Na ocasião do aborto do projeto Alpa, além de outras questões  que envolviam compromissos de governo,  eclodiu igualmente uma crise pontual no mercado de aço. As crises acontecem, mas também passam. Entendo que temos uma excelente conjugação de fatores que nos mantém como alternativa viável para investidores do setor de siderurgia. Proximidade da mina e alternativa de uma logística competitiva para escoamento de produtos, são fatores que fazem a diferença. Entendo,  entretanto, que toda decisão  está atrelada ao mercado, e creio que o momento em que esse  cenário apontar resultados positivos para o investidor,  é, sim, possível que ele renasça, não necessariamente nos mesmos moldes do Alpa. Importante destacar que sempre algo desse porte exige parceiros na sua construção,   comprometidos com o projeto, com a transformação – empreendedores,  governos, comunidade.

 

Blog- Dois empreendimentos chegaram a Marabá graças a sua luta, como secretário municipal (Havan e Correias Mercúrio), no rastro de uma Lei de Incentivos elaborada por você, com aprovação da Câmara e sancionada pelo prefeito. Sabemos dos entraves que você travou internamente para que  lei de incentivos fiscais fosse aprovada. Resuma os benefícios dessa lei para a atração de grandes investimentos?

 

Ítalo – É importante salientar que nenhuma construção é resultado de um trabalho isolado. A parceria estabelecida entre o Estado e o município,   através das suas secretarias SEICOM e SICOM, respectivamente, foi determinante para que o principal empreendimento dentro do foco estabelecido de atrair novos negócios desse resultado, a Mercúrio.

Nesse cenário, é importante destacar que existem outros empreendimentos, em fase embrionária diria, mas que darão bons frutos, tenho certeza.

A política de Incentivos do Estado e o alinhamento de propósitos com a ACIM, e com o município, para rever conceitos e políticas de ocupação do DI, foram decisivos para a caminhada estabelecida  até aqui. Espero que esse trabalho continue assim.

 

Em relação aos incentivos, foi, determinante, a Lei de Incentivos Municipal, de forma que. conjugada com a lei estadual,  o cenário se tornasse favorável aos investidores.  A abrangência da política municipal é bastante limitada, inclusive, pela própria natureza do universo que envolve o  município. Assim, ela contempla basicamente a redução de algumas alíquotas, como o  ISS, IPTU, Alvará de Construção, por exemplo, e para alguns segmentos específicos da área industrial.

Esse trabalho teve início ainda com o projeto Alpa, que necessitava de contemplação de incentivos para a sua cadeia de fornecedores de bens e serviços. A primeira versão da Lei nasceu nesse contexto e foi elaborada e conclusa a sua primeira versão, após diversos debates,  pela Prefeitura e Câmara Municipal,  com a participação do empreendedor Vale/Alpa. Após isso, e devido a sua limitação inicial, em dezembro de 2013 ampliamos o leque de atividades contempladas pela Lei.

Blog- Algumas autoridades municipais chegaram a dizer que Marabá estaria perdendo arrecadação, no momento das instalações das grandes empresas. É verdade isso?

 

Ítalo – Tivemos, sim, focos de resistência. Aguns entendiam que política de incentivos fosse pura e simplesmente uma renúncia de receita para o município – uma visão míope, no mínimo. Para ser contemplado com seu enquadramento numa Lei de Incentivos, o empreendedor necessita justificar ao município, que o benefício a que vai fazer jus, será compensado. E de que forma?

 

Formata-se um compromisso empresarial entre ambos, onde se estabelecem direitos e deveres, compensações sociais,  etc… Nasce com o novo empreendimento nova fonte de faturamento, novos e inúmeros empregos, nova distribuição de valores na economia do município através dos salários, dos impostos, das compras no mercado local  etc…

Não existe arrecadação sem atividade econômica! 5% de ISS de nada é nada. 2,5% de ISS de 150 milhões representa o que? Calcule!

A política de incentivos sugerida pelo município, aprovada pela Câmara Municipal, possibilitou o movimento inicial de transformação. Ela foi determinante para a definição da Sinobrás em duplicar sua planta.  Sem ela, a planta da Mercúrio não estaria acontecendo. Não haveria oportunidade de um grande investimento da iniciativa privada do agronegócio no setor portuário, que, inclusive, encontra-se em processo e evolução. Não estaria acontecendo a formatação de outro grande empreendimento no ramo de armazenamento de combustíveis no D.I.  Os investimentos em execução chegam a casa dos R$ 520 milhões,  e os em fase final de projetos cerca de outros R$ 500 milhões.

Sem a política de incentivos  isso,  simplesmente não existiria aqui:  iriam buscar guarida em locais que oferecesse tal atrativo -, e garanto que não faltariam locais.

 

 

Blog – Há um projeto da Petrobrás e da Raízen, destinado à construção de um centro de armazenamento de combustível em Marabá, agora ameaçado de ser implantado por causa da invasão da área do projeto, na Etapa 2 do Distrito Industrial. Corremos o risco de perder esse empreendimento?

Ítalo – É, de fato, esse empreendimento está ameaçado e isso me preocupa. Em momento de crise como o que atravessa o Distrito Industrial de Marabá, com fechamento de empresas em 2008/2009, redução crescente da atividade e o desafio de buscar novas alternativas, nos deparamos com esse tipo de ocorrência.  A área desse empreendimento foi invadida em meados de Novembro/14 –  e os funcionários da empresa responsável pela abertura e preparo da área,  expulsos.  Já existe uma decisão judicial que legitima a ação do estado para proceder com o remanejamento dos invasores e assim restabelecer o domínio da área ao empreendedor. Aguardo que essa ação seja rápida.

 

Blog- O que você, como presidente da ACIM, está fazendo para ver se os governos estadual e municipal deem segurança aos investimentos projetados?

Ítalo- Como parte interessada em ver o desenvolvimento da nossa região, que qualifico como uma nova fronteira potencial de desenvolvimento a se consolidar, o que podemos  fazer é denunciar à autoridade competente essas ocorrências, de forma que com o poder de ação que tem , restabeleça a ordem e a segurança. Segurança é uma palavra chave para quem quer atrair o mundo empreendedor ao seu quintal. Recentemente, denunciamos esse risco premente de perda de negócios ao Governo do Estado e órgãos ligados à Segurança Pública – temos certeza que nossa preocupação encontrará eco nas ações de governo, mas ela precisa ser rápida e que elimine possibilidade de reincidências.

 

Blog – Hidrovia Marabá-Belém continua naquele cansativo processo de espera. A derrocagem desse rio um dia será feita?

Não tenho dúvidas com relação a isso. Por motivos óbvios: os portos do centro-sul estão estrangulados, a alternativa para escoamento da produção nacional é pelo Norte.

O Governo Federal precisa inverter a lógica do transporte no país e investir nos portos do Norte – essa definição ouvi junto com diversos companheiros da ACIM, do Diretor Geral do DNIT em Brasília.

Não é à toa que recebemos aqui, por cerca de cinco vezes em curto espaço de tempo, a visita de executivos da APROSOJA- Associação de Produtores de Soja, prospectando a região e sendo nosso principal aliado na defesa técnica desse investimento.

Não estou confortável para arriscar palpites, principalmente nesse ano  quando o cenário nacional efetivamente não é dos melhores. Entretanto, com a promessa anunciada de serem relançados agora em Fevereiro o Edital e processo Licitatório, tenho que continuar otimista, que continuar acreditando.

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5 Comentários

  1. Otávio Barbosa de Sousa

    4 de fevereiro de 2015 - 09:10 - 9:10
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    Nós devemos é olharmos para o futuro da mineração da região, que em pouco tempo vai acabar. precisamos impor condições e, não ficar chorando migalhas para a vale. A vale é um Estado paralelo e não respeita os políticos paraenses.

  2. Bressan

    3 de fevereiro de 2015 - 15:10 - 15:10
    Reply

    Conversei recentemente com ele. Muito atencioso. Mostra preocupação em razão do quadro nacional e internacional da economia. Os baixo preços do minério atingem em cheio esta região. Mas otimista, pois temos um potencial muito grande, especialmente a cidade de Marabá pela sua localização. A qualquer momento poderemos ter novidades. Devemos ficar atentos e organizados.

  3. Marcos Paulo

    3 de fevereiro de 2015 - 10:08 - 10:08
    Reply

    Caro Bogéa, bom dia.

    Interessante a entrevista, mas se me permite, o que aconteceu com a siderurgia paraense foi uma irresponsabilidade, típico daquele ministério que o Chico Buarque sugere: o “vai dar merda”. Vide suas consequências.

    Até onde sei os alto-fornos sempre foram abastecidos com carvão sem base trabalhista e ambiental (vide DRT e Ibama, respectivamente) de forma irresponsável.

    Nunca houve preocupação em investir em plantios de árvores pra suprir sua demanda de carvão. Era melhor comprar de terceiros, delegando a eles todas suas responsabilidades. Sabe como é, ninguém fiscaliza. Pelo menos não até aquela data…

    Nesse interim, até dono de padaria queria investir no setor, se tornar “guseiro”. O Pará exportava toneladas de gusa. Marabá, novo eldorado da siderurgia mundial. Empregos, renda, tutu, imposto, prêmio de empresário do ano pra gente do ramo…

    Acontece que um ida a porca torceu o rabo, a principal fornecedora de minério, pressionada por seus acionistas, interrompeu seus contratos de fornecimento de matéria-prima pra escapar da acusação de cooperação com o desmatamento amazônico. Começava o efeito dominó…

    Vieram os TAC’s de tudo quanto era lugar, atrasos nos salários, férias coletivas, portas fechadas.

    E aí…?

  4. Gilsim Silva

    31 de janeiro de 2015 - 21:50 - 21:50
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    Valeu Hirochi ! Aproveito para Parabenizar o Ítalo ! Que mostra realmente sua capacidae e cumpre seu papel como presisidente da Acim. Essas informações são de extrema importância num momento tão crucial de nossa economia e acredito que apesar de depender de algumas ações e de medidas que envolve os Gorvernos Estadual e Federal , as declarações são positivas e otimista. Sugiro ao amigo que nos deixe atualizados com a real situação de implantação do projeto da Usina Hidreletrica de Marabá . Abç. Gilsim Silva

  5. Paulo Reis

    30 de janeiro de 2015 - 13:26 - 13:26
    Reply

    Muto esclarecedora a entrevista, Ítalo é talvez o maior cérebro do mundo empresarial de Marabá e região

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