Fora do jogo

Publicado em 16 de abril de 2012

 

 

A presidente da República Dilma Rousseff, agride os conservadores com sua popularidade pra lá dos 70%.

Desde o princípio de seu governo mostrou personalidade, firmeza na tomada de decisões e cuidado com os interesses dos mais pobres. Não entrou no jogo político feito, há séculos, pelos políticos profissionais, se entrou, tem saído devagar, com a reputação intacta até o momento.

Não entrar no jogo político, ou sair dele, parecia-me impossível antes de conhecer o jeito Dilma de governar. Percebi que o que conta não é agradar os poderosos, é fazer o justo, é primar pela ética, pela honestidade.

Imagino muitos políticos carreiristas explodindo de frustração ao verem a pesquisa divulgada, pesquisa em que o povo, o povão brasileirão, a gente simples e verdadeira, diz na cara destes jogadores sem escrúpulos:

“- Gostamos da presidente Dilma sim, e daí?”

Com a aproximação de mais um período eleitoral fica a deixa: o que vale mais, entrar no jogo do poder ou não jogar?

Dilma nos dá a resposta: melhor não jogar!!!

No filme “Instinto”, de 1989, com o perturbador Anthony Hopkins, que me faz pensar ser realmente um desajustado e por isso, só por isso, o acho um charme (sou fascinada por tipos nada comuns), protagoniza Ethan Powell, um homem que deixou o convívio social para estudar os primatas da África, tendo sido “adotado” por uma família de gorilas.

Conviveu com estes primatas por um período de dois anos, era tratado com um carinho peculiar pelos animais. Até ser localizado por policiais africanos, que provocaram uma matança desnecessária da família de gorilas, deixando Ethan Powell (Hopking) descontrolado, agredindo ferozmente os militares, surtando a tal ponto de ser extraditado para os Estados Unidos, tendo que cumprir pena em um presídio psiquiátrico de alta segurança.

Theo Caulder (Cuba Gooding Jr), astuto estudante de psicologia, passa a travar com Powell um relacionamento de descobertas. Descobertas de si mesmo, como ser social buscando aceitação de seus pares, e descoberta do primatologista Ethan Powell como homem, optante pelo silêncio, pela violência, pelo isolamento social.

O psicólogo Theo não consegue re-socializar Powell, mesmo colocando em risco sua promissora carreira. A cena que mais me chamou a atenção foi quando Theo, chorando, agradece o primatologista por tê-lo ensinado a viver fora do jogo social, fazendo apenas seu papel de médico envolvido com o bem estar de seu paciente, acreditando na força regeneradora da vida, não se importando em ser reconhecido, ser bonzinho, em agradar os mais influentes.

Quando somos bombardeados por informações sobre mais um escândalo envolvendo um político influente, a indignação surge automática ao ver outros políticos influentes fazendo caras e bocas, como se, realmente, não soubessem das ardilosas ligações de políticos com bicheiros, fazem pose de não saberem da existência do jogo sujo do poder.

Mas não é justamente por quererem lucrar com esse jogo que muitos entram na política? Não são jogadores políticos antes de serem brasileiros? Qual bandeira defendem? A da hipocrisia?

Sair do jogo não é fácil, não entrar no jogo dos “agrados” é um desafio.

Dilma Rousseff não venceu o jogo ainda. Mas tem tido a coragem de não dar as cartas exigidas pelos oportunistas, de se assumir como mulher fortemente ligada a seus princípios de juventude.

Será seu maior legado (palavrinha que tem me viciado ultimamente) ver muitos políticos seguindo seu exemplo, perceber que o povo brasileiro aprendeu a separar o joio do trigo, e estão votando com consciência, não por favores.

Dilma, mulher presidente, que ousa se assumir (como solteira, mãe, avó, vaidosa, personalidade pública), conquistando as camadas brasileiras, e, ainda, conquistando admiradores, muitos olhares masculinos… Coisa importante para o universo feminino.

Dando vazão a meu lado feminino, uma fofoca: Oliver Stone, cineasta americano, em uma recente visita ao Brasil, perguntou, muito interessado, se a presidente permanecia solteira. Demonstrando que mulheres poderosas, vaidosas e honestas, atraem homens inteligentes, brilhantes e charmosos.

Mais uma vez a presidente nos deixa o exemplo: não temos porque entrar no jogo da sedução contemporânea, em que o que vale é a aparência em detrimento do intelecto. Vaidade sim, mas obsessão pela aparência perfeita não.

Nos diversos aspectos da vida, quer política quer pessoal, nossa presidente feminina Dilma Rousseff nos ensina: não precisamos entrar no jogo, porque o mais interessante da vida está fora do jogo, pois passamos a ser maravilhosamente originais, a ser nós mesmos.

 

Evilângela Lima Alcântara, Educadora, Diretora da Escola de Ensino Fundamental São José.