Flashbach

Publicado em 19 de abril de 2009

Corria o ano de 1983.

Bem cedo, sou acordado pela presença do jornalista e poeta Frederico Morbarch chamando-me para acompanhá-lo na entrevista marcada com o então todo-poderoso coordenador do garimpo de Serra Pelada, Sebastião Curió, que se encontrava na prefeitura, aguardando-o.

No caminho de casa até o Paço Municipal, Fred e eu combinamos como cercar o ex-agente do SNI. Cada um faria perguntas alternadas abordando temas também totalmente diferenciados um do outro. Amavelmente recebidos por Curió, sentamos todos em torno de uma imensa mesa de reunião, Curió à cabeceira.

Incorrigível indisciplinado, e irrequieto, de cara, Fred fez tudo ao contrário. Disparou cinco perguntas seguidas, abordando questões de Serra Pelada, sempre chamando o entrevistado de “Major”, fato irritante para Curió, eleito um ano antes deputado federal.

Ao fazer a sexta pergunta (eu ali, transformado em mero observador, sem direito a perguntar mais nada), pauleira pura:

Major, o senhor consegue dormir tranquilamente o sono dos que não nada devem à Justiça?

Como assim, “nada deve a Justiça”? Eu não devo nada à Justiça! Sou um deputado federal eleito pelo voto direto…

– Mas o senhor promoveu a maior carnificina que se tem conhecimento nas matas do Araguaia ajudando a matar jovens brasileiros…

– Nós estávamos numa guerra contra subversivos que queriam transformar o Brasil numa União Sovitética….

– O que se tem conhecimento é que o Exército matou covardemente e o senhor seria também torturador, não apenas matador.

– O senhor não tem o direito de fazer esse tipo de pergunta a mim.

– E o senhor não tem o direito de vir dizer como eu devo fazer minhas entrevistas.

– Pois a entrevista acabou!

E acabou ali mesmo.

Saindo da prefeitura, Eu e Fred fomos nos deliciar com o fato no primeiro barzinho aberto encontrado, às 10 horas manhã.

Tenho saudades de Frederico Morbarch. O jeito de ser do Fred: sincero, imprevisível, valente e ingênuo ao mesmo tempo, contagiante sonhador.

Fred era a expressão mais verdadeira da metamorfose ambulante cantada por Raul Seixas.

Registrada antes do arranca-rabo, na foto: Sebastião Curió, o poster, uma terceira pessoa que atuava como assessor do ex-major do Exército do SNI e, ele, Frederico Morbarch.