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Escândalo nacional: pedofilia no Pará

Na íntegra, para aqueles que não tem assinatura da Folha de São Paulo, matéria sobre a pedofilia no Pará, publicada na edição de sábado do jornal paulista.
Reportagem é do jornalista João carlos Magalhães.
Polícia vê proteção a acusado de pedofilia



Autoridades do PA atuaram ilegalmente a favor de empresário suspeito de abusos sexuais de meninas, diz investigação

Segundo o inquérito, foram mobilizados 1 juiz, 1 deputado, 1 delegado, 1 jornalista e 2 advogados de políticos


JOÃO CARLOS MAGALHÃES  – DE BELÉM
Investigações da Polícia Civil do Pará indicam que autoridades do Estado atuaram para proteger, de forma ilegal, um empresário indiciado sob acusação de pedofilia.

Antonio Carlos Vilaça, 56, é dono de um conglomerado de empresas de construção civil, mineração e transporte.

Vilaça nega todas as acusações, segundo seu advogado.

Inquérito sob segredo de Justiça, ao qual a Folha teve acesso, diz que o empresário mobilizou um deputado, um juiz e um delegado, além de advogados de políticos e uma jornalista, para tentar manipular a investigação.

Esse grupo, segundo a polícia, coagiu testemunhas, vazou informações sigilosas, pressionou uma juíza e traficou influência para tentar barrar a repercussão do caso.

O inquérito, baseado em interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça e feitas de novembro de 2009 a julho deste ano, apurou a suposta relação entre Vilaça e cinco meninas e adolescentes dos municípios de Barcarena e Abaetetuba.

Mas as gravações mostraram, segundo a polícia, autoridades do Pará tentando livrar o empresário de uma suspeita anterior: ter abusado de três meninas de Belém.

OS GRAMPOS

Com base nas conversas, a polícia concluiu que o delegado Edivaldo Lima foi subornado para retardar a investigação. Após o inquérito passar para uma delegada, Vilaça chegou a ser preso, em abril – hoje, está solto. Lima nega as acusações e afirma que nunca investigou Vilaça.

Segundo a interpretação dos grampos feita pela polícia, um dos principais articuladores da proteção a Vilaça foi Wladimir Costa (PMDB), o Wlad, deputado federal que se reelegeu neste ano.

As gravações mostram o deputado conversando com interlocutores sobre a necessidade de convencer a mãe de uma das vítimas a desmentir sua própria versão.

Os grampos também apontam que Wlad ajudou a “vazar” para Vilaça a informação sobre ordem de prisão contra o empresário, em abril. Com isso, Vilaça ficou foragido por uma semana.

O deputado, segundo a polícia, foi ajudado por Inocêncio Mártires Coelho e João Neri, advogados da coligação eleitoral da governadora Ana Júlia Carepa (PT).

Outro suposto elo do grupo no Judiciário é o juiz criminal Carlos Alberto Flexa.

Usando o celular do próprio empresário, Flexa ligou, dias antes da ordem de prisão, para a juíza que cuida do caso. Segundo a polícia, sua intenção era influenciá-la a não mandar prender Vilaça.

Uma repórter do jornal “O Liberal”, de Belém, foi indiciada – como todos os outros, exceto Wlad e Flexa, que têm foro privilegiado no STF (Supremo Tribunal Federal) e no Tribunal de Justiça, respectivamente, nos quais são investigados.

Os grampos apontam que Micheline Oliveira participou de tentativa de extorquir R$ 100 mil de Vilaça pela não publicação do caso e depois lhe passou informações.

OUTRO LADO

Empresário nega crimes; outros investigados rejeitam as acusações

DE BELÉM

Todos os indiciados e citados no inquérito negam ter protegido ilegalmente Antonio Carlos Vilaça. O empresário nega ter cometido crimes sexuais contra menores.

Segundo o advogado de Vilaça no caso, Osvaldo Serrão, ele “nega as acusações, não aceitando a autoria ou participação”. “O Tribunal de Justiça reconheceu a ilegalidade de sua prisão”, diz o advogado. Ele não comentou a suspeita de proteção ilegal.

Em nota, o deputado federal Wladimir Costa (PMDB), o Wlad, chamou a investigação de “armadilha” e se disse “vitima de perseguição da alta cúpula da Policia Civil do Estado do Pará”, a qual nutriria “um ódio fervoroso” dele.

Segundo a nota, Wlad provocou esse ódio ao denunciar “diversos casos de desvio de conduta” de policiais.

Sobre Vilaça, ele confirma conhecê-lo, mas disse que, se o empresário for considerado culpado, quer “que este [Vilaça] apodreça na cadeia”.

O juiz Carlos Alberto Flexa, 67, também disse conhecer o empresário e Wlad.

Confrontado com o teor dos grampos, Flexa confirmou que ligou para a juíza do caso, mas a partir do próprio telefone. “Eu liguei para a juíza para saber o que é que estava acontecendo. Mas não influenciei nada, não pedi para fazer isso ou aquilo.”

Ele disse que sua atitude foi regular, apesar de o processo contra Vilaça correr em segredo. A Folha não conseguiu falar com a juíza.

O delegado Edivaldo Lima disse que nunca investigou Vilaça e que, portanto, não tem nada a explicar. “Não tenho versão, não conheço, não posso falar”, afirmou.

A Divisão de Atendimento ao Adolescente da Polícia Civil do Pará reafirmou, no entanto, que foi Lima quem iniciou a investigação.

O advogado Inocêncio Mártires Coelho negou ter ajudado a vazar informações sigilosas do Judiciário e chamou a insinuação de “equivocada”. Se houve vazamento, disse, foi feito por adversários políticos de Vilaça.

João Neri afirmou que não falaria porque o inquérito está sob segredo de Justiça.

Micheline Oliveira disse que a suspeita é “leviana e irresponsável” e negou a suposta extorsão. (JCM)
Nos grampos, suspeitos citam mídia do Pará

DE BELÉM

Os grampos mostram suspeitos de favorecer Antonio Carlos Vilaça dizendo que a rede de proteção ao empresário incluía órgãos de mídia do Estado.

Uma das gravações revela conversa entre dois supostos “cúmplices” da repórter Micheline Oliveira, de “O Liberal”. No diálogo é dito que os R$ 100 mil que ela supostamente tentou extorquir de Vilaça são a “mordida” exigida por Ronaldo Maiorana, um dos donos do jornal.

Maiorana disse à Folha que nunca praticaria extorsão e que publicou dezenas de artigos e reportagens contra a pedofilia.

Outro citado é o grupo RBA, da família do ex-deputado federal Jader Barbalho (PMDB), dono do jornal “Diário do Pará”.

“Eu falei com o Jader e a RBA já está calada”, disse para Vilaça, em gravação de dezembro de 2009, seu aliado político Fernando Amaral (PMDB). Amaral diz ter pedido a jornalistas do grupo que avaliassem “se [as denúncias] não tinham motivação política”.

Jader Filho, presidente do “Diário do Pará”, afirma que a “RBA repele qualquer insinuação” de acobertamento de acusados de pedofilia. (JCM)
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