Enquanto os escafandristas não chegam

Publicado em 28 de junho de 2011

Cansei de ver escafandristas mergulhando em frente de minha casa, no Marabazinho.

Eles ficavam sobre balsas improvisadas no Tocantins, e lá iam buscar no fundo do rio não sei o quê com suas vestes de ferro, longos tubos e cordas a lhes segurar nas bordas dos barcos.

Toda vez que ouço a canção de Chico Buarque (Futuros Amantes) falando dos escafandristas que nos guiam em um mergulho exploratório e contemplativo em águas desconhecidas, imagens de menino me socorrem.

Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Ver aqueles homens dentro de suas armaduras, em determinados momentos, dava medo.

Medo da figura escondida em armações de chumbo e medo deles não voltarem de suas incursões.

Sonhava à noite com os escafandristas.

Era uma estranha sensação ígnea.

O que faziam no fundo do rio, intrigava-me.

Bastava algum deles desaparecer, submergindo, para meu sofrimento bater a porta.

Urgente como uma dor – que não dói, mas suplica -, não havia como ignorá-los, no fundo do Tocantins. Nem havia como evitá-los: estavam sempre à minha frente, perto de uma pequena praia -, defronte nossa casa.

Quantas vezes imaginei aqueles homens corajosos, em seus mergulhos destemidos, esgotando-se em pisar na lama que certamente havia no fundo do Tocantins, num ir e vir à tona que nunca se esgotava.

Eles devem enfiar-se na lama, enfiar-se nela até o pescoço e até mesmo mergulhar e, assim, achar a lama, aconchegante, morna e voluptuosa -, pensava.

Não sei por que pensava assim.

Pernas, braços, tronco, cabeça, eram mera sugestão de corpos que viajavam no fundo do rio sem forma. E, neles, que se encontravam juntos um do outro, com suas vestes de chumbo, apenas se via o branco dos olhos.

Branco dos olhos luzindo desejo que faiscava no escuro do rio.

Meus delírios de escafandristas sumiram com o tempo, permanecendo apenas na alma intensa luz a querer decifrar mistérios, que habitam, sim, o fundo dos rios.

Assim, hoje, não quero saber para onde vão os escafandristas, que língua falam. O som de sua voz, o que carregam na solidão de suas armaduras.

Eles habitam a memória como um tesouro enterrado. Não há mapa para essa busca, a necessidade de encontrar não é real.

O amor bem lá dentro
No fundo do peito
Que faz nesse rio canções de ninar
Aonde eu mergulho, afundo
Sem me afogar
Sou escafandrista de mim
Já conheço as marcas, divisas
Que posso explorar
Do corpo, da alma
E todo o meu ser dominar
Não sou mais levado por ondas
Espumas de um bar
Que iam roubando-me a vida
Sem eu mesmo notar, S.O.S.
E agora os caminhos são outros
Já sei onde vou
Os pés bem firmados no chão
O corpo é de terra
Eterno é o coração.