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Enquanto isso em Goiânia…

Jornalista Neilton Gomes Carneiro, no Diário da Manhã, de Goiânia, edição 18 de janeiro, publica artigo “Carajás é Preciso”.

“Carajás” e “minérios” são as duas palavras que mais se pronuncia no Sul do Pará. De Conceição do Araguaia a Marabá, de Xinguara a Tucumã, de São Félix do Xingu a Parauapebas só vê moradores eufóricos com as novas descobertas de ouro e níquel e otimistas com a possibilidade de divisão do Estado. A presença de supostos representantes da Vale vasculhando as serras amplia ainda mais a expectativa de que a região será uma espécie de Eldourado para um mundo que mais consome ferro do que a natureza foi capaz de produzir. Os sintomas dessa febre começam a aparecer. O preço dos imóveis mais que dobraram nos últimos anos. O valor dos aluguéis explodiram. Hotéis e pensões estão lotados de forasteiros.

Em Xinguara, por exemplo, o preço de um lote no paupérrimo e poeirento Setor Marajoara saltou de R$ 1 mil para R$ 15 mil em dois anos, segundo o motorista de ambulância Edmilson Sousa. Na pacata Água Azul do Norte, a comerciante Ivanilde Cordeiro diz que refugou R$ 50 mil por uma chácara adquirida por R$ 3 mil dois anos atrás. Em Parauapebas, cobra-se R$ 900 reais por uma salinha de cabeleireiro na avenida principal, de acordo com informação do comerciante Cleyton Alencar, mesmo preço de um espaço similar na Avenida 24 de Outubro, em Campinas, uma das mais movimentadas de Goiânia. Em Tucumã, o prefeito Alan Azevedo paga quase R$ 2 mil de aluguel em uma casa comum de 200 metros quadrados.
Os minérios são apenas um dos combustíveis do otimismo do Sul do Pará. Começou uma corrida também pelo gado, com instalação de grandes empreedimentos, como frigoríficos (já são dois só na pequena Água Azul). Tudo isso gera emprego, que atrai gente de todos os cantos do País.
CaraJÁs!, pedem adesivos fixados em caminhonetes último tipo, carros velhos, motos e bicicletas. O prefeito de Xinguara, Davi Passos, professor que escreve sua tese de doutorado nas horas vagas, é um dos que trazem o adesivo pregado no veículo. “O Carajás sai em oito a dez anos, um dia sai”, garante. O mesmo adesivo enfeita a caminhonete do prefeito de Tucumã. A riqueza mineral que enriquece a região, no entanto, também atrapalha. O comerciante Avilton Marques, de Tucumã, argumenta: “A independência do Tocantins, um Estado pobre, demorou 200 anos para acontecer. Precisamos urgente da independência, mas sabemos que não será fácil, o Pará não vai abrir mão do ouro, do ferro e do níquel de Carajás”.
O Carajás é mesmo uma necessidade urgente. As cidades do Sul do Pará não contam com a infra-estrutura mínima, como água tratada e asfalto. Esgoto? Só a céu aberto, que é mais cheiroso. Agora, com a intensificação da campanha pela independência, a governadora Ana Júlia começou a liberar obras de pavimentação. Os 20 quilômetros de asfalto destinados a Xinguara vão ajudar a garantir a reeleição de Davi Passos. É que, antes do atual prefeito, somente um pequeno núcleo da cidade contava com pavimentação.
Conceição do Araguaia tornou-se uma cidade fantasma por falta de investimento estadual e como conseqüência de sucessivos maus prefeitos, nem de longe fiscalizados. Enquanto as rodovias do vizinho Tocantins estão tinindo de novas e boas, a PA-150, que liga o Sul do Pará a Belém, está esburacada, sem acostamento, com o mato invadindo a pista e pontes nas quais passa apenas um carro de cada vez. A comparação é inevitável e só aumenta o desejo de independência. Na cabeceira de uma dessas pontes assassinas, uma homenagem ao popular juiz de Direito Manoel Costa, morto em um acidente automobilístico em 2004. Apesar da vítima importante, a ponte só não está do mesmo jeito porque piorou.
A segurança perde de dez a zero para a violência onde vai nascer o Carajás, placar impulsionado inclusive pelas questões fundiárias. Foi nessa região que ocorreu o massacre de 19 sem-terra nas proximidades da cidadezinha de Eldorado dos Carajás, entroncamento das rodovias que dão acesso a Marabá e a Parauapebas. É lá que mora a maioria dos homens e mulheres marcados para morrer, como foi a doce freira Dorothy Stang e o é o frei Henri de Roziers. Frei Henri, que mora numa casa simples de muro baixo e sem cerca elétrica, está na mira dos gigantes do latifúndio. Seu pecado mortal foi descobrir que parte das fazendonas do Pará não tem título de propriedade, argumento que abre as porteiras das ocupações do MST.
A macabra freqüência dos assassinatos e assaltos cometidos por motociclistas inverteu a norma de trânsito que ordena o uso de capacete. Lá, quem usa é suspeito que provoca medo – se tiver a má sorte de passar pela polícia, fatalmente será parado e revistado. As cadeias estão superlotadas e o policiamento é insuficiente. Na segunda-feira, 7, ocupantes de duas motocicletas “tocaram o terror” em chácaras nas imediações de Xinguara. Apesar da violência e do número de vítimas, a polícia sequer pôde comparecer ao local do crime por absoluta falta de contingente. Tinha coisas mais importantes para fazer – no dia seguinte à denúncia, o filho de um conhecido ex-prefeito de Rio Maria, Adilson Laranjeira, denunciado pela morte de sindicalistas, havia sido assassinado a tiros.
As estradas boas e a melhora na prestação dos serviços públicos conquistadas pelos tocantinenses após a divisão de Goiás exercem grande influência sobre os ativistas do Carajás. Eles acham que serão capazes de construir um Éden com o dinheiro do minério farto que garante o desenvolvimento do Brasil e dá uma força até ao macro crescimento da China. Por enquanto, parte do empresariado responde com sonegação à indiferença do governo de Belém. Quer ver um vendedor de cara amarrada? Peça nota fiscal. É que o dinheiro não volta em forma de obras. A identidade com Belém é zero: fala-se muito mais em Goiânia, onde os mais endinheirados cuidam da saúde e fazem compras.
É preciso, sim, dividir a Amazônia, antes que americanos, judeus e europeus venham ocupá-la. Criar Carajás e outros estados na região amazônica, e desenvolver neles um modelo de desenvolvimento sustentável, deve ser parte de uma política de defesa da soberania do território nacional, do crescimento econômico do Brasil, do desenvolvimento regional e social. O resto é conversa de gente que só pensa no poder, não gosta do País e não se importam com as pessoas.

* Neilton Gomes Carneiro é advogado e foi editor de Política e Justiça do DM

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